terça-feira, 22 de setembro de 1981

Zombies

De mês para mês vêem-se em Lisboa mais jovens circulando com aqueles pequenos auscultadores nos ouvidos ligados a um gravadorzinho à cinta. São os equivalentes nesta geração, mas já mais ricos, dos serventes da construção civil e ajudantes de camionista que, ao domingo, nas ruas quase desertas da cidade, vagueavam, sós e melancólicos, com um «transistor» (garrafão eléctrico) de antena esticada, com o volume no máximo.
 
 
Mas se estes, pateticamente, o faziam como um apelo não verbal à busca de quem lhes rompesse o isolamento, os «zombies» modernos isolam-se deliberadamente a eles mesmos no seu mundo sonoro privado e portátil.
Exteriormente são silenciosos e inexpressivos, mas se se examinar um, de perto e atentamente, detecta-se para lá do andar mecânico e aparentemente sem destino, um ligeiro movimento da cabeça ou da boca que indicam estarem ligados a um qualquer ritmo musical. Buxtehude, Hindemith, ou os «Salada de Frutas» — mais provavelmente os «Salada de Frutas». Ou os «Roxigénio», postos no máximo.
Em português actual creio que se diz que parecem estar a «curtir», mas não a «transar».
Em breve a tecnologia pode melhorar este estado de coisas. O invólucro sensorial pode ser melhorado, por exemplo encostando à pele um transmissor de sensações tácteis — deliciosa pressão de seios de mulher, frescura de água do mar, humidade de erva fresca, voluptuoso roçar de peles sumptuosas. E transmissores de sensações de velocidade e vertigem: conduzir o Williams de Alan Jones ao ir em passos arrastados para o liceu; sentir os solavancos de um tanque carregando no deserto do Sinai, ao refluir para o escritório; ir à casa de banho em estado de imponderabilidade astronáutica. Tudo isto em silêncio, sem interromper a vida normal produtiva, sem conflito, em perfeito isolamento, docilmente, longe de tudo e de todos sem sair do meio de tudo e de todos — que maravilha!
 
 
Mas espera! Caramba! Espera ai! É isso mesmo! É isso mesmo! É isso que o Governo precisa para ajudar os portugueses a não sofrer o trauma das restrições e dificuldades do Outono AD que se aproxima.
É isso! É isso!
Rápido! Ao Japão encomendar uns 6 ou 7 milhões dessas coisas e distribuir pela população adulta e adolescente. Mobilizar as Juntas de Freguesia! Mandar Proença de Carvalho tratar desta operação, já que tem experiência no ramo (ou num semelhante, mas não de acção individual).
«Cassettes» grátis. Pilhas grátis.
Para o que é, isso até o FMI paga tudo logo, e sem encargos, até aposto.