De mês para mês vêem-se em Lisboa
mais jovens circulando com aqueles pequenos auscultadores nos ouvidos ligados a
um gravadorzinho à cinta. São os equivalentes nesta geração, mas já mais ricos,
dos serventes da construção civil e ajudantes de camionista que, ao domingo,
nas ruas quase desertas da cidade, vagueavam, sós e melancólicos, com um
«transistor» (garrafão eléctrico) de antena esticada, com o volume no máximo.
Mas se estes, pateticamente, o
faziam como um apelo não verbal à busca de quem lhes rompesse o isolamento, os
«zombies» modernos isolam-se deliberadamente a eles mesmos no seu mundo sonoro
privado e portátil.
Exteriormente são silenciosos e
inexpressivos, mas se se examinar um, de perto e atentamente, detecta-se para
lá do andar mecânico e aparentemente sem destino, um ligeiro movimento da cabeça
ou da boca que indicam estarem ligados a um qualquer ritmo musical. Buxtehude,
Hindemith, ou os «Salada de Frutas» — mais provavelmente os «Salada de Frutas».
Ou os «Roxigénio», postos no máximo.
Em português actual creio que se
diz que parecem estar a «curtir», mas não a «transar».
Em breve a tecnologia pode
melhorar este estado de coisas. O invólucro sensorial pode ser melhorado, por
exemplo encostando à pele um transmissor de sensações tácteis — deliciosa
pressão de seios de mulher, frescura de água do mar, humidade de erva fresca,
voluptuoso roçar de peles sumptuosas. E transmissores de sensações de
velocidade e vertigem: conduzir o Williams de Alan Jones ao ir em passos
arrastados para o liceu; sentir os solavancos de um tanque carregando no
deserto do Sinai, ao refluir para o escritório; ir à casa de banho em estado de
imponderabilidade astronáutica. Tudo isto em silêncio, sem interromper a vida
normal produtiva, sem conflito, em perfeito isolamento, docilmente, longe de
tudo e de todos sem sair do meio de tudo e de todos — que maravilha!
Mas espera! Caramba! Espera ai! É
isso mesmo! É isso mesmo! É isso que o Governo precisa para ajudar os
portugueses a não sofrer o trauma das restrições e dificuldades do Outono AD
que se aproxima.
É isso! É isso!
Rápido! Ao Japão encomendar uns 6
ou 7 milhões dessas coisas e distribuir pela população adulta e adolescente.
Mobilizar as Juntas de Freguesia! Mandar Proença de Carvalho tratar desta
operação, já que tem experiência no ramo (ou num semelhante, mas não de acção
individual).
«Cassettes» grátis. Pilhas
grátis.
Para o que é, isso até o FMI paga
tudo logo, e sem encargos, até aposto.


