segunda-feira, 28 de setembro de 1981

Libertar a sociedade civil

Disse o professor Freitas do Amaral, discursando:
«Portugal é obra de soldados».
Os portugueses ficaram intrigados com a frase, que poderá ter sido uma citação Ilustre noutro tempo e noutro contexto, mas, depois das repetidas afirmações «civilistas» da AD, soa curiosamente a adoçamento de boca daquele segmento da nossa sociedade que a serve usando as armas (e as armas têm muita força...)
(«Libertar a sociedade civil» em Espanha, depois de certos acontecimentos em Fevereiro, pareceria ser mas era libertar «Ia sociedad» de «los Civiles» — mas isso é problema lá deles...)
Mas voltando à «obra de soldados»; há que aceitar que a delimitação do espaço português pela independência do Condado Portucalense e pela reconquista, foi obra de guerreiros. Cada guerreiro, meus amigos!...O que me parece é que nesses bandos, mesnadas, confias, etc. chefiadas por uns senhores feudais que eram pouco mais do que uns «gangsters» lá da época, não sei se o EMGFA veria o que hoje se entende por «soldados» convenientes. Aparecessem os de D. Gualdim Pais ou de D. Gonçalo Mendes por algum quartel, e veríamos se não iam logo «dentro», RGDM, companhia disciplinar, e tudo. Soldados! Tinha graça...
 
 
Mas é claro que não é esse o problema.
O problema, para mim, está no sentido implicitamente restritivo da frase: é que fazer um País não é só talhá-lo no País dos outros e depois defende-lo. Isso é de facto obra de soldados; mas então vamos lá a ver quem são os soldados!?
Os soldados — em Trancoso, Atoleiros e Aljubarrota, ou em Diu, ou em Marracuene, ou em La lys, são portugueses como os outros, que em determinada altura tomaram de chuços, alabardas, Kropatscheks, ou, agora, G-3. Mas fazer um País é mais do que talhá-lo e depois defende-lo.
Houve, e indiscutivelmente há ainda, militares distintos nas ciências, nas técnicas e nas letras que ajudaram a fazer também o País — mas ao fazê-lo, procederam como professores universitários, investigadores, técnicos, historiadores civis — não foi a sua qualidade ou condição de militares que os fez grandes e úteis à Pátria nesses campos. É incrível que haja equívocos em relação a isso.
 
É suficientemente importante e gloriosa a função dos soldados e dos militares em geral, para que seja necessária a lisonja oportunista contida naquela frase.
Parece-me pois, que poderão pôr-se as coisas nos devidos termos, completando a frase, assim: «Portugal é obra de soldados, cardadores, microbiólogos, bordadoras a matiz, bate-chapas, filósofos, professores de Direito, cozinheiras, locutores de rádio, electricistas, paleógrafos, pescadores, empregados de balcão, cirurgiões ortopedistas, directores gerais, canalizadores, astrónomos, tipógrafos...
 
(Da Redacção à Tipografia: cortem aqui pelos tipógrafos e é preciso dizer a este tipo que não pode encher duas páginas do Jornal com esta coluna, parece parvo!)