Disse o professor Freitas do
Amaral, discursando:
«Portugal é obra de soldados».
Os portugueses ficaram intrigados
com a frase, que poderá ter sido uma citação Ilustre noutro tempo e noutro contexto,
mas, depois das repetidas afirmações «civilistas» da AD, soa curiosamente a
adoçamento de boca daquele segmento da nossa sociedade que a serve usando as
armas (e as armas têm muita força...)
(«Libertar a sociedade civil» em
Espanha, depois de certos acontecimentos em Fevereiro, pareceria ser mas era
libertar «Ia sociedad» de «los Civiles» — mas isso é problema lá deles...)
Mas voltando à «obra de
soldados»; há que aceitar que a delimitação do espaço português pela
independência do Condado Portucalense e pela reconquista, foi obra de
guerreiros. Cada guerreiro, meus amigos!...O que me parece é que nesses bandos,
mesnadas, confias, etc. chefiadas por uns senhores feudais que eram pouco mais
do que uns «gangsters» lá da época, não sei se o EMGFA veria o que hoje se
entende por «soldados» convenientes. Aparecessem os de D. Gualdim Pais ou de D.
Gonçalo Mendes por algum quartel, e veríamos se não iam logo «dentro», RGDM,
companhia disciplinar, e tudo. Soldados! Tinha graça...
Mas é claro que não é esse o
problema.
O problema, para mim, está no
sentido implicitamente restritivo da frase: é que fazer um País não é só
talhá-lo no País dos outros e depois defende-lo. Isso é de facto obra de soldados;
mas então vamos lá a ver quem são os soldados!?
Os soldados — em Trancoso,
Atoleiros e Aljubarrota, ou em Diu, ou em Marracuene, ou em La lys, são
portugueses como os outros, que em determinada altura tomaram de chuços,
alabardas, Kropatscheks, ou, agora, G-3. Mas fazer um País é mais do que
talhá-lo e depois defende-lo.
Houve, e indiscutivelmente há
ainda, militares distintos nas ciências, nas técnicas e nas letras que ajudaram
a fazer também o País — mas ao fazê-lo, procederam como professores
universitários, investigadores, técnicos, historiadores civis — não foi a sua qualidade ou condição de militares que os fez
grandes e úteis à Pátria nesses campos. É incrível que haja equívocos em
relação a isso.
É suficientemente importante e
gloriosa a função dos soldados e dos militares em geral, para que seja
necessária a lisonja oportunista contida naquela frase.
Parece-me pois, que poderão
pôr-se as coisas nos devidos termos, completando a frase, assim: «Portugal é
obra de soldados, cardadores, microbiólogos, bordadoras a matiz, bate-chapas,
filósofos, professores de Direito, cozinheiras, locutores de rádio,
electricistas, paleógrafos, pescadores, empregados de balcão, cirurgiões
ortopedistas, directores gerais, canalizadores, astrónomos, tipógrafos...
(Da Redacção à Tipografia: cortem aqui pelos tipógrafos e é preciso
dizer a este tipo que não pode encher duas páginas do Jornal com esta coluna,
parece parvo!)

