Num jornal da manhã, o grande
jornalista que é Norberto Lopes insurgia-se, recentemente, contra a
imoralidade, a sujidade e a violência que grassam em Lisboa desde o 25 de
Abril. Para quem leia desprevenido aquele artigo, Lisboa tornou-se num híbrido
perverso de Sodoma, Gomorra e Chicago dos anos vinte, que apesar de tudo o que
sabemos, me pareceu um pouco exagerado...
Estava eu a pensar escrever:
respeitosamente, relembrando várias coisas, p. ex.°, para começar por 1383, o documento
25 (e o 24!) do «Livro I de Místicos de El Rey D. Fernando» (... «em como vos
fora dicto que em essa cidade se faziam muitos furtos e mortes d' homeens, assy
de dia como de noyte, e outros maaes e forças e roubos...». etc. etc. por aí
adiante, e vale a pena ler até ao fim!), relembrar as brincadeiras da rapaziada
do futuro D. Afonso VI, o séc. XVIII tão movimentado na noite das alfurjas, os
motivos de preocupação do Intendente Pina Manique, a bela animação noctuna e diurna
da Lisboa miguelista, e tudo isso, e a pensar que sempre se matou, violou e roubou
alegremente na doce cidade das sete colinas, talvez com excepção da já flácida
e esparvoada Lisboa queiroziana e lojista...
Se Lisboa é assim tão perigosa, é
então preferível não ir sequer a Milão, ou a Marselha. À América do Norte, só
em pensamento; à do Sul, então, nem em pensamento…
Mas também chegará para mim, com
a idade a que também espero chegar, a inevitável «pruderie» e escândalo com os
tempos que então correrem, e estas coisas têm que se compreender.
Todas estas reflexões foram
varridas de repente pelo deflagrar da notícia do assassinato do presidente
Sadat, que remeteu para outra escala as preocupações com os «arrebentas», as
meninas da noite lisboeta, o lixo entornado.
Não quero exprimir opinião sobre
a pessoa e a política de Sadat, para o que não me chegam os conhecimentos. Da
repulsa pelo acto, sob os aspectos morais e humanos, não posso senão
comparticipar. Das consequências políticas e geopolíticas, só sei o que todos
sabem, isto é, que bagunça vai ser ainda maior, se é que é possível.
Nada disto é coisa que me atreva
a comentar. Mas os noticiaristas, os comentaristas, as agências, os
jornalistas, os políticos (ah! os políticos...)!
Aconteceu aquilo, e viram apenas
a notícia sensacional, a «caxa», o «sang a la une».
«Inenarrável acto de violência!»,
«Acção de terroristas fanáticos», (e Ângelo Correia freme, reconfirmando na sua
determinação!). As senhoras interrompem o tricot e murmuram «Matar assim o
homem, que horror, coitado». Os senhores, gravemente exclamam «A violência dos
grupos de fanáticos! Tem que se acabar com isto de vez, só compreendem a força,
só dando cabo dessa corja toda».
Ora bem.
Onde é que aquilo se passou? Numa
exposição de flores? Na inauguração de um jardim escola para meninos
«fellaghas» do Nilo?
Uma parada militar o que é?
Uma parada militar é o ritual da
violência maciça e ameaçadora, a liturgia da adoração das armas, a coreografia
rígida da destruição organizada, o desfile de dez mil mortes à espera nos canos
das espingardas alinhadas, a destruição de milhões de inocentes transportada
debaixo de lonas em carros camuflados limpos para a ocasião, o ódio frio
cultivado e disciplinado em dez mil pares de olhos olhando à direita no momento
da continência à tribuna. Se não for isto, é um passeio de chacha, desfile de
«majorettes» fardadas de homens, palhaçada de paisagem gozona — e aquela não
era!
As paradas costumam acabar por se
destrocar, desfazendo-se em anticlímax, frustradamente, quando vai toda a gente
almoçar e gozar o resto do feriado e aquela não foi.
Naquela, como na tourada à
espanhola, a liturgia do sangue acabou em sangue. Viva la muerte. E la muerte
estava lá no momento que Allah determinou.
As armas, que não têm pátria, nem
moral, nem ideologia nem outro destino que não seja matar, revoltaram-se ali
guiadas por uma vontade tresloucada, e num paroxismo sublime, cumpriram-se no
momento último, fechando o ciclo lógico em que o instrumento se atinge a si
mesmo como fim, espanto e anulação. No altar do obsceno sacrifício ritualizado
de adoração das armas, é o próprio oficiante que é finalmente imolado como
vítima.
Os jornalistas viram notícia
apenas, onde deviam ter visto tragédia grega. Não era a France-Presse que fazia
falta ali. Era Sófocles.

