terça-feira, 13 de outubro de 1981

Violência

Num jornal da manhã, o grande jornalista que é Norberto Lopes insurgia-se, recentemente, contra a imoralidade, a sujidade e a violência que grassam em Lisboa desde o 25 de Abril. Para quem leia desprevenido aquele artigo, Lisboa tornou-se num híbrido perverso de Sodoma, Gomorra e Chicago dos anos vinte, que apesar de tudo o que sabemos, me pareceu um pouco exagerado...
Estava eu a pensar escrever: respeitosamente, relembrando várias coisas, p. ex.°, para começar por 1383, o documento 25 (e o 24!) do «Livro I de Místicos de El Rey D. Fernando» (... «em como vos fora dicto que em essa cidade se faziam muitos furtos e mortes d' homeens, assy de dia como de noyte, e outros maaes e forças e roubos...». etc. etc. por aí adiante, e vale a pena ler até ao fim!), relembrar as brincadeiras da rapaziada do futuro D. Afonso VI, o séc. XVIII tão movimentado na noite das alfurjas, os motivos de preocupação do Intendente Pina Manique, a bela animação noctuna e diurna da Lisboa miguelista, e tudo isso, e a pensar que sempre se matou, violou e roubou alegremente na doce cidade das sete colinas, talvez com excepção da já flácida e esparvoada Lisboa queiroziana e lojista...
 
Se Lisboa é assim tão perigosa, é então preferível não ir sequer a Milão, ou a Marselha. À América do Norte, só em pensamento; à do Sul, então, nem em pensamento…
Mas também chegará para mim, com a idade a que também espero chegar, a inevitável «pruderie» e escândalo com os tempos que então correrem, e estas coisas têm que se compreender.
 
Todas estas reflexões foram varridas de repente pelo deflagrar da notícia do assassinato do presidente Sadat, que remeteu para outra escala as preocupações com os «arrebentas», as meninas da noite lisboeta, o lixo entornado.
Não quero exprimir opinião sobre a pessoa e a política de Sadat, para o que não me chegam os conhecimentos. Da repulsa pelo acto, sob os aspectos morais e humanos, não posso senão comparticipar. Das consequências políticas e geopolíticas, só sei o que todos sabem, isto é, que bagunça vai ser ainda maior, se é que é possível.
Nada disto é coisa que me atreva a comentar. Mas os noticiaristas, os comentaristas, as agências, os jornalistas, os políticos (ah! os políticos...)!
Aconteceu aquilo, e viram apenas a notícia sensacional, a «caxa», o «sang a la une».
«Inenarrável acto de violência!», «Acção de terroristas fanáticos», (e Ângelo Correia freme, reconfirmando na sua determinação!). As senhoras interrompem o tricot e murmuram «Matar assim o homem, que horror, coitado». Os senhores, gravemente exclamam «A violência dos grupos de fanáticos! Tem que se acabar com isto de vez, só compreendem a força, só dando cabo dessa corja toda».
Ora bem.
 
Onde é que aquilo se passou? Numa exposição de flores? Na inauguração de um jardim escola para meninos «fellaghas» do Nilo?
Uma parada militar o que é?
Uma parada militar é o ritual da violência maciça e ameaçadora, a liturgia da adoração das armas, a coreografia rígida da destruição organizada, o desfile de dez mil mortes à espera nos canos das espingardas alinhadas, a destruição de milhões de inocentes transportada debaixo de lonas em carros camuflados limpos para a ocasião, o ódio frio cultivado e disciplinado em dez mil pares de olhos olhando à direita no momento da continência à tribuna. Se não for isto, é um passeio de chacha, desfile de «majorettes» fardadas de homens, palhaçada de paisagem gozona — e aquela não era!
 
 
As paradas costumam acabar por se destrocar, desfazendo-se em anticlímax, frustradamente, quando vai toda a gente almoçar e gozar o resto do feriado e aquela não foi.
Naquela, como na tourada à espanhola, a liturgia do sangue acabou em sangue. Viva la muerte. E la muerte estava lá no momento que Allah determinou.
 
As armas, que não têm pátria, nem moral, nem ideologia nem outro destino que não seja matar, revoltaram-se ali guiadas por uma vontade tresloucada, e num paroxismo sublime, cumpriram-se no momento último, fechando o ciclo lógico em que o instrumento se atinge a si mesmo como fim, espanto e anulação. No altar do obsceno sacrifício ritualizado de adoração das armas, é o próprio oficiante que é finalmente imolado como vítima.
 
Os jornalistas viram notícia apenas, onde deviam ter visto tragédia grega. Não era a France-Presse que fazia falta ali. Era Sófocles.