quarta-feira, 28 de outubro de 1981

Hinos

A «Marselhesa», ao som de cujos acordes a Europa das monarquias tremia de pavor, e que levou os bravos franceses a todas as batalhas da jovem república, tornou-se, com o passar do tempo, uma música respeitável. A «Marselhesa» pode ser hoje cantada sem que nos salões e nos internatos de freiras perpasse um frémito de terror, nem alimente particularmente os diálogos das Carmelitas, ao soarem as estrofes heroicas e jacobinas. Tornou-se mais, até: tomou-se uma música reconfortante pela sua respeitabilidade, e só mesmo os defensores muito empedernidos do Ancien Regime é que ainda se atrevem a achar o espantoso hino de Rouget de L’Isle -«une chanson de voyous».
A França giscardiana entendia-se como um bastião da honorabilidade e da estabilidade - a França, se não dos notáveis, pelo menos dos notários. Assim, a «Marselhesa» - oficialmente adoptada, era tocada com um ritmo lento, majestoso, de modo que parecia menos uma marcha que um cântico, como o é o «God save the King».
Até nos podemos lembrar disso pelos bocadinhos de Telejornal em que aparecia qualquer visita de estadista ao Eliseu.
Chegado Mitterrand e os socialistas, tiveram logo o cuidado de mudar a interpretação do hino para um ritmo vibrante, entusiástico e alegre, chamando claramente os filhos da França à nova batalha: «Allons enfants de la Patrie!» porque um novo «Jour de Gloire est arrivé»- e há muita coisa a fazer.
 
Assim são os símbolos nacionais, para quem não perceba a sua importância e significado. Nesta mesma coluna fiz uma vez alusão à pobreza das interpretações oficiais do conjunto da heráldica nacional.
 
Hoje, escrevo depois do fecho da emissão da RDP, fortemente intrigado. É que ouvi, tenho a certeza de que ouvi! o hino nacional, diferente do que era transmitido por aquela estação oficial. Não sei desde quando, mas que está diferente de alguns meses atrás, isso está. Terá de concordar-se que a «Portuguesa» não é música particularmente inspirada, nem de grande nobreza - e Alfredo Keil não soube mesmo evitar umas ligeiras inflexões fadistas, que nada tem a ver com a letra de Lopes de Mendonça (...«Oh Pátria, sente-se-e-e-se a vó-ós»...) Mas na interpretação de Pedro de Freitas Branco com a Orquestra Sinfónica Nacional, que era a que usava a estação oficial, o hino chegava a aparecer com certa beleza e grande dignidade. Repare-se: era tocado por uma orquestra e dirigida por um grande Maestro. Por isso, havia riqueza nos crescendos de maior emoção e uma grandeza majestosa no desenvolvimento de cada tema, nas passagens mais narrativas.
Pondo de parte a evidente emoção própria do facto de ser o nosso Hino, a «Portuguesa» tocada assim chegava a ser bela por direito próprio - levando a crer que, como figuração ou símbolo de uma dada realidade nacional dava desta uma sugestão particularmente feliz e honrosa; sobretudo quando comparada com outros hinos bem ridículos de outros países...
Mas agora?
Agora, uma banda (não uma orquestra!) avia ali à pressão um hino aguitarrado, fardadinho, gorducho, cheio de «Tará tat-chins» e «bum-bums», bem disposto, com os amarelos sonoros bem passados a solarine, com os tiroliroliros habilidosos da partitura executados ali à risca, no coreto.
 
Se a mudança na execução da «Marselhesa» significou alguma coisa em França, significará isto qualquer coisa, em Portugal?