sábado, 14 de novembro de 1981

Campolide — Não à CEE

Ou há regionalização e poder local, ou não há! Se os Açores podem vir a entrar unilateralmente na CEE mesmo que o resto do país não entre, então também Campolide pode vir a não querer aderir, se o resto da Portugal quiser aderir (ou for obrigada a isso...). Nós, aqui, não. Numa frase que é um lema imorredoiro desta tradicional localidade lisboeta, e expresso no seu peculiar modo idiomático: - «Somos poucochinhos, mas semos de Campolide e basta!».
 
Então como é?
 
Nós aqui vemos as coisas numa perspetiva histórica alargada (desde que os Mestres vieram para aqui construir o aqueduto das águas livres e moraram todos na Calçada dos Mestres, ficamos muito sensíveis aos grandes feitos das artes e ciências, e olhamos por cima da burra para as transferências de tecnologia com que nos pretendem comprar...)
Nós vemos em grande, em largo. Vistas largas. O fundo das questões. Num folheto que por aqui é bastante lido, de um tal Toynbee, coisa em 12 volumes, chegamos à ideia de que os países ricos do centro da Europa se tem comportado ao longo dos séculos como um «Estado Universal económico» criando os seus próprios «proletariados externos» — o que é, é que «proletariados externos» agora não se diz que é feio, diz-se: «periferias».
 
 
Agora eles são o «Centro» e nós as «periferias», e dizendo assim já se pode falar até nos colóquios da Gulbenkian, com fatinho cinzento, cocktails e ida ao telejornal — se lá se dissesse «aquilo» e externos ainda por cima, era coisa de comunas pela certa... Enfim. O Toynbee até, por sinal, de comuna pouco ou nada tem.
 
Adiante.
 
Os do «Centro», agora, andam à rasca, perdoe-se-me o plebeísmo. Porque apareceram três «Centros» a mais, à compita: ele é Russos, ele é Americanos, ele é Japoneses, e outros a prepararem-se às escondidas, tudo a ver se caçam as «periferias» dos outros. E sonsos, claro, fazem umas conferências — (a última foi em Cancun...) — para dizer que não, que periferias até é coisa que não interessa a ninguém, e etc. e tal e as periferias a pau com a escrita, que dessas já estão fartas de aparar e sabem do que a casa gasta... Adiante.
O que o «Centro» de que somos a periferia mais próxima quer no fundo, é safar a onça, e evitar que as periferiazinhas (não há que enganar, periferia são os escurinhos, magros e cheios de moscas...) entrem em colapso, façam revoluções e parvoíces dessas que acabavam por os pôr em dificuldades, eles tão bem ordenadinhos e tão sossegados.
 
Então como é?
 
Dão-nos ajudas para pôr a flutuar as nossas indústrias (que sempre subestimaram e lixaram), a nossa agricultura (que sempre desprezaram e bloquearam), mas por outro lado impõem-nos «prélevements» sobre a actividade económica local, de modo a financiar a Comunidade?
 
Campolide ficaria assim um «contribuinte líquido», isto é, as nossas mecânicas de Campolide de baixo, o Miranda, e os bate-chapas, e os da Calçada dos Sete Moinhos que fundem latão e bronze, acabariam por financiar o Ruhr e os Midlands; os figos e as couves das hortas do Casal do Sola e da Vila Ferro (a que poderíamos chamar «Hortas comunitárias» para dar um gosto ao Gonçalo Ribeiro Telles, coitado, que bem precisa, ultimamente...), esses figos e couves, dizia, batidos infamemente pela pressão da Europa Verde; o vinho (feito a martelo nas traseiras de umas tascas que eu não posso dizer, e com produtos vindos de Essen e água da EPAL, porque vinhas, em Campolide já não há, só há prédios) batido pela concorrência de horroroso vinho espanhol ou italiano, Chianti em Campolide, já se chegou a isso?; a alfaiataria tradicional da R. General Taborda ou da Marquês de Fronteira, oprimida por uns gregos quaisquer, ou obrigada a subsidiar os snobs de Savile Row?
Campolide «contribuinte líquido»? «Contribuinte líquido» Campolide onde ter número de contribuinte só de má vontade e até é mal visto?! Nem por sombras!
 
Em Campolide, CEE, ora toma!
Aqui não.