Ou há regionalização e poder
local, ou não há! Se os Açores podem vir a entrar unilateralmente na CEE mesmo
que o resto do país não entre, então também Campolide pode vir a não querer
aderir, se o resto da Portugal quiser aderir (ou for obrigada a isso...). Nós,
aqui, não. Numa frase que é um lema imorredoiro desta tradicional localidade
lisboeta, e expresso no seu peculiar modo idiomático: - «Somos poucochinhos,
mas semos de Campolide e basta!».
Então como é?
Nós aqui vemos as coisas numa perspetiva
histórica alargada (desde que os Mestres vieram para aqui construir o aqueduto
das águas livres e moraram todos na Calçada dos Mestres, ficamos muito
sensíveis aos grandes feitos das artes e ciências, e olhamos por cima da burra
para as transferências de tecnologia com que nos pretendem comprar...)
Nós vemos em grande, em largo.
Vistas largas. O fundo das questões. Num folheto que por aqui é bastante lido,
de um tal Toynbee, coisa em 12 volumes, chegamos à ideia de que os países ricos
do centro da Europa se tem comportado ao longo dos séculos como um «Estado
Universal económico» criando os seus próprios «proletariados externos» — o que
é, é que «proletariados externos» agora não se diz que é feio, diz-se:
«periferias».
Agora eles são o «Centro» e nós as «periferias»,
e dizendo assim já se pode falar até nos colóquios da Gulbenkian, com fatinho
cinzento, cocktails e ida ao telejornal — se lá se dissesse «aquilo» e externos
ainda por cima, era coisa de comunas pela certa... Enfim. O Toynbee até, por
sinal, de comuna pouco ou nada tem.
Adiante.
Os do «Centro», agora, andam à
rasca, perdoe-se-me o plebeísmo. Porque apareceram três «Centros» a mais, à compita:
ele é Russos, ele é Americanos, ele é Japoneses, e outros a prepararem-se às
escondidas, tudo a ver se caçam as «periferias» dos outros. E sonsos, claro,
fazem umas conferências — (a última foi em Cancun...) — para
dizer que não, que periferias até é coisa que não interessa a ninguém, e etc. e
tal e as periferias a pau com a escrita, que dessas já estão fartas de aparar e
sabem do que a casa gasta... Adiante.
O que o «Centro» de que somos a
periferia mais próxima quer no fundo, é safar a onça, e evitar que as
periferiazinhas (não há que enganar, periferia são os escurinhos, magros e
cheios de moscas...) entrem em colapso, façam revoluções e parvoíces dessas que
acabavam por os pôr em dificuldades, eles tão bem ordenadinhos e tão
sossegados.
Então como é?
Dão-nos ajudas para pôr a flutuar
as nossas indústrias (que sempre subestimaram e lixaram), a nossa agricultura
(que sempre desprezaram e bloquearam), mas por outro lado impõem-nos «prélevements»
sobre a actividade económica local, de modo a financiar a Comunidade?
Campolide ficaria assim um
«contribuinte líquido», isto é, as nossas mecânicas de Campolide de baixo, o
Miranda, e os bate-chapas, e os da Calçada dos Sete Moinhos que fundem latão e
bronze, acabariam por financiar o Ruhr e os Midlands; os figos e as couves das
hortas do Casal do Sola e da Vila Ferro (a que poderíamos chamar «Hortas
comunitárias» para dar um gosto ao Gonçalo Ribeiro Telles, coitado, que bem
precisa, ultimamente...), esses figos e couves, dizia, batidos infamemente pela
pressão da Europa Verde; o vinho (feito a martelo nas traseiras de umas tascas
que eu não posso dizer, e com produtos vindos de Essen e água da EPAL, porque
vinhas, em Campolide já não há, só há prédios) batido pela concorrência de
horroroso vinho espanhol ou italiano, Chianti em Campolide, já se chegou a isso?;
a alfaiataria tradicional da R. General Taborda ou da Marquês de Fronteira,
oprimida por uns gregos quaisquer, ou obrigada a subsidiar os snobs de Savile
Row?
Campolide «contribuinte líquido»?
«Contribuinte líquido» Campolide onde ter número de contribuinte só de má
vontade e até é mal visto?! Nem por sombras!
Em Campolide, CEE, ora toma!
Aqui não.

