Repare-se antes de mais nada na adequação formal do título deste
artigo, que é uma beleza! Na verdade, trata-se apenas da continuação do «Who's
Who» lisboeta que apareceu em 18 de Julho neste Jornal, mas agora consagrado ao
sector da nossa sociedade que fala difícil. Pelas razões então apresentadas, ou
ainda melhores quando se conhecem os intelectuais de Lisboa, as figuras
apresentadas não são propriamente reais, mas são «mais reais do que as reais»,
se o leitor percebe o que se quer dizer... (de resto, o leitor terá reconhecido
logo ali o Paradoxo de Lichnowsky-Podgoretz, culto como é!
JOSÉ LUIS MANUEL JOÃO
Actor e encenador.
Nasceu em 1945. Está no auge do
vanguardismo com as suas notáveis encenações no Teatro Estúdio da Picheleira,
que se integram na novíssima linha do «teatro da Ausência». Como é o «teatro da
Ausência?» O público, depois de anunciado o começo do espectáculo, espera que
aconteça qualquer coisa. Não acontece. Nada. Os actores não estão lá; luzes e
som não há; bombeiro de serviço também não; a mulher da limpeza só às
sextas-feiras de manhã. Nada. Ninguém. O público é assim confrontado com a
própria impaciência e ignorância, desamparado e cheio de contradições, mediatizando
e interiorizando por aí o conflito psicodramaticamente projectado sobre aquele
microcosmos social temporário pelas tensões da incerteza e da falta de chefia,
no escuro. Trata-se de ver quem decide primeiro a ir-se embora, sem ter ninguém
a quem protestar. Mensagem implícita mas rica. Teatral à bessa. Famosas as
encenações das peças «Não estive cá hoje» de Renzo Caccagna. «Wilfrieda Trudke
diz que sofre por não ter podido vir» de Werner Knauspielhof, e «Casas vazias e
silenciosas» de Sven Kubelius, (esta última com a ausência especial de Grela
Petersen).
O teatro da ausência permite a J.L. M. J. um
«part-time» à hora dos espectáculos, numa boîte da estrada da Picheleira. De
dia está presente, isso sim, à porta do Galeto a fazer horas para ir mais uma
vez tentar sacar um subsídio ali ao lado, a gente sabe onde.
MARIA LUIZINHA DO ESPIRITO SANTO TEIXEIRA
Socióloga.
Acaba de publicar um monumental
estudo sobre uma comunidade de agricultores do centro do País. Exaustivas medidas,
contagens e inquéritos, passados a fichas e trabalhadas informaticamente (com a
assistência do Dr. Quartelino Assunção, do CEIATPQRL) correlacionando os casos
de aparecimento de diarreia juvenil com a frequência das chamadas interurbanas
realizadas na região e outros indicadores semelhantes, mas pouco explorados,
permitem-lhe avançar certas hipóteses ousadas tais como:
— O enquadramento físico e social
tem alguma incidência sobre o comportamento dos indivíduos;
— As relações interclassistas de
produção e exploração estão, talvez, na base de certos conflitos sociais.
Prepara actualmente o seu
doutoramento na Universidade de Paris 27me, em Limoges, (na segunda série).
DR. OUARTELINO ASSUNÇÃO
Matemático especialista em
«engenharia de comunicação não lógica»:
PhD em «Non-logical Computer Science» pela Un. de
Great Flats, Indiana. Docteur
és-sciences em «Burotique translogicielle» pelo I.S.D.E.F.Q.S. de Grenoble,
investigador no CEIATPQRL, da J.N.P.M.T.E.L.
Nesta última instituição (em
paralelo com as suas funções de programador de 1ª) persegue actualmente um
objectivo formalmente unificado mas estruturalmente subsistémico, que consiste
em codificar num esquema metalógico mas operável num campo (X, x) certas
sequências observáveis na viela social corrente, em busca de um software actuador
de microssistemas Individualmente associáveis de «guidance» behavloural, com
enfoque sobretudo sobre as situações de conflito com os condutores de
autocarros em horas de ponta. Tem já um razoável stock de diskettes contendo
quase um ano da carreira de Odivelas. O seu logicial para sequências de
insultos entre chauffeurs em caso de amolgadela, adaptável a qualquer hardware
de pelo menos 18K é já um clássico. Não conseguiu porém ainda um logicial adaptado
às discussões parlamentares, que parece estarem, por enquanto, para lá dos
limites das técnicas de «engenharia de comunicação não-lógica».
ALBERTO LADOZINHA
Critico de arte e ensaísta.
Já vai um passo adiante do
Movimento Post-Moderno. Visto que o Moderno está já usado, os Revivalismos
pifaram e os vivaços dos Habermas e dos Jencks que farejam isto do Post-Moderno
já ocuparam tudo. Ladozinha descobriu e anda a lançar o «Contra-Moderno».
«Ab-Moderno» ou «Bad-Modern». É subtil e simples: tudo o que for declaradamente
mau, feio, inepto, uma merda total é o que é bom, sob este inovador prisma. Que
além do mais, tem a grande vantagem de ter muito mais material de estudo do que
o convencional, porque trampa e mediocridade, em arte, é coisa que abunda por
aí.
A.L. procura agora lançar
internacionalmente Baixa da Banheira e a Damaia como lugares altos da
Arquitectura Ab-Moderna, e contempla fazer alguma coisa pela Televisão ( «Rui
Guedes: — Ab-Moderno Avant-la-lettre»). Diz mal do França, do Gonçalves de
Azevedo, do Nélson, do Pernas, de todos. É, ele mesmo, claramente «Ab-Moderno».
GERTRUDIS KALI STARAPKINE DE SOUSA
Poetisa.
Happenings famosos. Poesia
conceptual. Hermética, porém. Muito. Ousada, mas tendo ultrapassado há muito
qualquer pretensão pequeno-burguesa de épatar o pequeno-burguês. Mas, o chefe
da esquadra do Rato, épatou-se mesmo quando teve que ir lá porque os vizinhos
julgavam que era a sério e era um bom homem, de Alfornelos, à espera da
promoção, e a registar as declarações de Gertrudis foi um pratinho, criptico e
conceptual à brava, o melhor «conceptual Art» de todos para quem viu. Inesquecível
e um que estava dentro, carteirista, a aproveitar a ver se passava por um do
grupo e a safar-se, e a Gloris toda de roxo aos gritos na esquadra sintetizando
escalas diatónicas com acções gestuais, nunca mais, uma perfeição. Nunca mais.
Perfeito!
JUSBERTO MALDONADO AMOREIRA
Filósofo (professor no Externato
Primor das Avenidas).
Nasceu, fisicamente, em 1929, mas
só se apreendeu como essência, ou se conceptualizou formalmente como uma
presença existencial por volta de 1947, e isso é que conta, em última análise.
Não embarca de todo em modas fáceis como esta agora dos «Nouveaux Philosophes» (e
faz bem, caramba!). Trabalha só em investigação fundamental, qualquer coisa de
sólido e definitivo e grande, ainda que por vezes algo interrogativo. Nisto, o
truque é descobrir um longínquo e obscuro autor, fazer uma exegese cerrada
cheia de citações e nótulas, enchendo tanto com erudição que acabe por não se
saber quase qual era a questão inicial, se é que a havia. Jusberto teve quase
na mão um destes, na pessoa de Licnowsky-Podgoretz, que deve ter vivido na Alta
Silésia no princípio do séc. XIX, e teria sido um dos precursores menos
conhecidos, mas mais lúcidos do Post-Kantismo Hunzleriano, segundo Jusberto, se
a tal virgula não fosse uma gralha do tradutor francês. Assim, tirou todo o
sentido à frase-chave e ficou apenas uma adaptação local de um opúsculo de
Haeckel, que é o que na realidade é! E mauzito, ainda por cima... Mas, Jusberto,
descobriu agora um livreco de um espanhol de Saragoça, numa arca deixada pelo
avô na Guarda — e ninguém ouviu ainda falar dele. Ordoñez Perez, chama-se. Dará
para fazer um percursor por exemplo de Shelling? de Unamuno, pelo menos, com um
raio!?
J. de M.S. Pereira de T. (o PEREIRA)
Intelectual, só.
Está nas inaugurações. Nos
concertos. Nos lançamentos. Nas estreias. Em tudo, sempre. Reservado e profundo,
fala por poucas e raras, mas profundas palavras. Diz-se que prepara algo de
definitivo sobre o romance português; ou sobre a música medieval, ou sobre a dodecafónica;
ou então sobre a cerâmica campaniforme. Ou sobre o «teatro da ausência». Ou uma
coisa para acabar de vez com a historiografia de Simmel. Há quem diga que não,
que é sobre o cinema das séries B americanas. Mas, como «é todo testa e tem um
enorme talento» parece que a sua função real é a de perpetuar um tipo essencial
e bem conhecido.
Usa o JL debaixo do braço, com as
letras do cabeçalho para fora.
Cachimbo Ropp, de mérisier.
Tabaco tipo «holandês».







