quarta-feira, 25 de novembro de 1981

Introdução crítica aos intelectuais de Lisboa (semiótica e sinalética)

Repare-se antes de mais nada na adequação formal do título deste artigo, que é uma beleza! Na verdade, trata-se apenas da continuação do «Who's Who» lisboeta que apareceu em 18 de Julho neste Jornal, mas agora consagrado ao sector da nossa sociedade que fala difícil. Pelas razões então apresentadas, ou ainda melhores quando se conhecem os intelectuais de Lisboa, as figuras apresentadas não são propriamente reais, mas são «mais reais do que as reais», se o leitor percebe o que se quer dizer... (de resto, o leitor terá reconhecido logo ali o Paradoxo de Lichnowsky-Podgoretz, culto como é!


JOSÉ LUIS MANUEL JOÃO
Actor e encenador.
Nasceu em 1945. Está no auge do vanguardismo com as suas notáveis encenações no Teatro Estúdio da Picheleira, que se integram na novíssima linha do «teatro da Ausência». Como é o «teatro da Ausência?» O público, depois de anunciado o começo do espectáculo, espera que aconteça qualquer coisa. Não acontece. Nada. Os actores não estão lá; luzes e som não há; bombeiro de serviço também não; a mulher da limpeza só às sextas-feiras de manhã. Nada. Ninguém. O público é assim confrontado com a própria impaciência e ignorância, desamparado e cheio de contradições, mediatizando e interiorizando por aí o conflito psicodramaticamente projectado sobre aquele microcosmos social temporário pelas tensões da incerteza e da falta de chefia, no escuro. Trata-se de ver quem decide primeiro a ir-se embora, sem ter ninguém a quem protestar. Mensagem implícita mas rica. Teatral à bessa. Famosas as encenações das peças «Não estive cá hoje» de Renzo Caccagna. «Wilfrieda Trudke diz que sofre por não ter podido vir» de Werner Knauspielhof, e «Casas vazias e silenciosas» de Sven Kubelius, (esta última com a ausência especial de Grela Petersen).
O teatro da ausência permite a J.L. M. J. um «part-time» à hora dos espectáculos, numa boîte da estrada da Picheleira. De dia está presente, isso sim, à porta do Galeto a fazer horas para ir mais uma vez tentar sacar um subsídio ali ao lado, a gente sabe onde.
 
 
MARIA LUIZINHA DO ESPIRITO SANTO TEIXEIRA
Socióloga.
Acaba de publicar um monumental estudo sobre uma comunidade de agricultores do centro do País. Exaustivas medidas, contagens e inquéritos, passados a fichas e trabalhadas informaticamente (com a assistência do Dr. Quartelino Assunção, do CEIATPQRL) correlacionando os casos de aparecimento de diarreia juvenil com a frequência das chamadas interurbanas realizadas na região e outros indicadores semelhantes, mas pouco explorados, permitem-lhe avançar certas hipóteses ousadas tais como:
— O enquadramento físico e social tem alguma incidência sobre o comportamento dos indivíduos;
— As relações interclassistas de produção e exploração estão, talvez, na base de certos conflitos sociais.
Prepara actualmente o seu doutoramento na Universidade de Paris 27me, em Limoges, (na segunda série).
 
 
DR. OUARTELINO ASSUNÇÃO
Matemático especialista em «engenharia de comunicação não lógica»:
PhD  em «Non-logical Computer Science» pela Un. de Great Flats,  Indiana. Docteur és-sciences em «Burotique translogicielle» pelo I.S.D.E.F.Q.S. de Grenoble, investigador no CEIATPQRL, da J.N.P.M.T.E.L.
Nesta última instituição (em paralelo com as suas funções de programador de 1ª) persegue actualmente um objectivo formalmente unificado mas estruturalmente subsistémico, que consiste em codificar num esquema metalógico mas operável num campo (X, x) certas sequências observáveis na viela social corrente, em busca de um software actuador de microssistemas Individualmente associáveis de «guidance» behavloural, com enfoque sobretudo sobre as situações de conflito com os condutores de autocarros em horas de ponta. Tem já um razoável stock de diskettes contendo quase um ano da carreira de Odivelas. O seu logicial para sequências de insultos entre chauffeurs em caso de amolgadela, adaptável a qualquer hardware de pelo menos 18K é já um clássico. Não conseguiu porém ainda um logicial adaptado às discussões parlamentares, que parece estarem, por enquanto, para lá dos limites das técnicas de «engenharia de comunicação não-lógica».
 
 
ALBERTO LADOZINHA
Critico de arte e ensaísta.
Já vai um passo adiante do Movimento Post-Moderno. Visto que o Moderno está já usado, os Revivalismos pifaram e os vivaços dos Habermas e dos Jencks que farejam isto do Post-Moderno já ocuparam tudo. Ladozinha descobriu e anda a lançar o «Contra-Moderno». «Ab-Moderno» ou «Bad-Modern». É subtil e simples: tudo o que for declaradamente mau, feio, inepto, uma merda total é o que é bom, sob este inovador prisma. Que além do mais, tem a grande vantagem de ter muito mais material de estudo do que o convencional, porque trampa e mediocridade, em arte, é coisa que abunda por aí.
A.L. procura agora lançar internacionalmente Baixa da Banheira e a Damaia como lugares altos da Arquitectura Ab-Moderna, e contempla fazer alguma coisa pela Televisão ( «Rui Guedes: — Ab-Moderno Avant-la-lettre»). Diz mal do França, do Gonçalves de Azevedo, do Nélson, do Pernas, de todos. É, ele mesmo, claramente «Ab-Moderno».
 
 
GERTRUDIS KALI STARAPKINE DE SOUSA
Poetisa.
Happenings famosos. Poesia conceptual. Hermética, porém. Muito. Ousada, mas tendo ultrapassado há muito qualquer pretensão pequeno-burguesa de épatar o pequeno-burguês. Mas, o chefe da esquadra do Rato, épatou-se mesmo quando teve que ir lá porque os vizinhos julgavam que era a sério e era um bom homem, de Alfornelos, à espera da promoção, e a registar as declarações de Gertrudis foi um pratinho, criptico e conceptual à brava, o melhor «conceptual Art» de todos para quem viu. Inesquecível e um que estava dentro, carteirista, a aproveitar a ver se passava por um do grupo e a safar-se, e a Gloris toda de roxo aos gritos na esquadra sintetizando escalas diatónicas com acções gestuais, nunca mais, uma perfeição. Nunca mais. Perfeito!
 
 
JUSBERTO MALDONADO AMOREIRA
Filósofo (professor no Externato Primor das Avenidas).
Nasceu, fisicamente, em 1929, mas só se apreendeu como essência, ou se conceptualizou formalmente como uma presença existencial por volta de 1947, e isso é que conta, em última análise. Não embarca de todo em modas fáceis como esta agora dos «Nouveaux Philosophes» (e faz bem, caramba!). Trabalha só em investigação fundamental, qualquer coisa de sólido e definitivo e grande, ainda que por vezes algo interrogativo. Nisto, o truque é descobrir um longínquo e obscuro autor, fazer uma exegese cerrada cheia de citações e nótulas, enchendo tanto com erudição que acabe por não se saber quase qual era a questão inicial, se é que a havia. Jusberto teve quase na mão um destes, na pessoa de Licnowsky-Podgoretz, que deve ter vivido na Alta Silésia no princípio do séc. XIX, e teria sido um dos precursores menos conhecidos, mas mais lúcidos do Post-Kantismo Hunzleriano, segundo Jusberto, se a tal virgula não fosse uma gralha do tradutor francês. Assim, tirou todo o sentido à frase-chave e ficou apenas uma adaptação local de um opúsculo de Haeckel, que é o que na realidade é! E mauzito, ainda por cima... Mas, Jusberto, descobriu agora um livreco de um espanhol de Saragoça, numa arca deixada pelo avô na Guarda — e ninguém ouviu ainda falar dele. Ordoñez Perez, chama-se. Dará para fazer um percursor por exemplo de Shelling? de Unamuno, pelo menos, com um raio!?
 
 
J. de M.S. Pereira de T. (o PEREIRA)
Intelectual, só.
Está nas inaugurações. Nos concertos. Nos lançamentos. Nas estreias. Em tudo, sempre. Reservado e profundo, fala por poucas e raras, mas profundas palavras. Diz-se que prepara algo de definitivo sobre o romance português; ou sobre a música medieval, ou sobre a dodecafónica; ou então sobre a cerâmica campaniforme. Ou sobre o «teatro da ausência». Ou uma coisa para acabar de vez com a historiografia de Simmel. Há quem diga que não, que é sobre o cinema das séries B americanas. Mas, como «é todo testa e tem um enorme talento» parece que a sua função real é a de perpetuar um tipo essencial e bem conhecido.
Usa o JL debaixo do braço, com as letras do cabeçalho para fora.
Cachimbo Ropp, de mérisier. Tabaco tipo «holandês».