sábado, 5 de dezembro de 1981

Agricultura e política

«Devia haver uma disciplina de agricultura a nível da classe dos políticos.»
— Gonçalo Ribeiro Telles, ministro de Estado e da Q. de Vida, na inauguração da "Nutripack» na FIL.
 
É certo, mas acho que deveria haver também uma de Indústria (dois semestres: um de indústria pesada e extractivas, e um de indústria ligeira), mas com aulas práticas. O Prof. Freitas do Amaral de tronco nu, atlético, banhado em suor à boca da forja; o Dr. Mota Amaral, de viseira protectora, soldando a electrogéneo lá no alto duma estrutura de um petroleiro; Natália Correia, sem boquilha e de bata branca, ligando microelectrónicas na linha de montagem todo o dia; Marcelo Rebelo de Sousa procurando atingir as duas toneladas diárias no fundo da mina... Que revelação! A que nova luz apareceriam aos seus eleitores!...
 
Espectáculo reconfortante, ver que os homens e mulheres escolhidos para representantes do Povo se mostravam aptos a conhecer todos os aspectos, mesmo os mais árduos, da vida dos eleitores, e o faziam com proficiência patente aos olhos de todos - sim, porque tal disciplina teria que ser exercida aos olhos críticos de todos os que quisessem assistir. («É pá, viste o Coimbra a descortiçar? O gajo é mesmo bom, pá!» - «E o Sousa Tavares à escavadora? Temos homem para as obras públicas, pá... » etc, etc.)
Porém tal visão é muito pobre, e a formulação do M. de E. e da Q. de V (descontando também tudo o que tem de circunstancial e «ad libitum») percebe-se dentro do âmbito sectorial em que Ribeiro Telles se move - tudo acaba por se reconduzir à Agricultura, para os agrónomos. Para eles, a Agricultura é mais do que uma actividade: é um princípio globalizante, uma Cultura (sem trocadilho, e no seu sentido mais nobre e mais largo), uma visão e uma prática do Mundo.
 
Ora de tal visão globalizante, várias actividades e práticas sectoriais podem, com a mesma compreensível mas duvidosa legitimidade afirmar-se detentoras – e assim a equidade mandaria que os políticos tivessem ao nível da sua classe outras disciplinas, tal como jocosamente propus no início.
Há um equívoco por trás de tudo isto, ou até vários.
 
 
Em primeiro lugar a chamada «classe dos políticos» é uma noção ambígua e perigosa — evoca até, curiosamente, perigosamente, uma sombra corporativa que perpassa frequentemente dentro da nossa cena democrática. Não me parece que fosse agradável para ninguém, mas sobretudo não me parece que fosse útil para ninguém, a formação de «uma classe de políticos» ensinada, uniformizada nos conhecimentos a que deve ter acesso, tecnicizada por um somatório de sectorializações, multiversada nas competências — e não estou a fazer a injúria de supor que R. Telles se refira a qualquer «disciplina» ministrada num sentido escolar, claro! Nem que fosse na Universidade de Évora... (Também me parece despropositada uma interpretação reivindicativa do género «Agricultura para todos! Abaixo o elitismo de só alguns saberem de agricultura e outros nada! Vivam as conquistas de Abril que permitiram a todos os políticos poder saber de agricultura!», etc.)
 
Em segundo lugar: o que os políticos precisam é de saber o sentido da História que se vai fazendo, saber interpretar, expor, confrontar, julgar e actuar de acordo com a vontade colectiva que representam, mas no meio da diversidade. Buscar, avaliar e utilizar as competências disponíveis (mesmo para lá dos âmbitos partidários...) é que precisam de saber fazer - e a maioria deles não tem sabido. Não são suficientemente políticos.
 
O problema dos nossos políticos é bem outro. Não é o de falharem na Agricultura, ou nas Pescas ou nas Finanças ou noutra coisa dessas. Transformo a frase do ministro da Q. de Vida, num sentido bem mais realista, perante o espectáculo que é dado por tantos dos nossos representantes:
 
«Devia haver uma disciplina de Política ao nível da classe dos políticos.»