quarta-feira, 9 de dezembro de 1981

A ordem do dia

«A ORDEM DO DIA» (Aos Parlamentos Futuros), por Luciano Cordeiro, é um opúsculo de 108 páginas publicado em 1868, em Lisboa, Typographia Franco-Portuguesa, Rua do Thesouro Velho, 6.
Passaram pois 113 anos depois da sua publicação. Assim tantos?! Na ocasião em que o Parlamento se prepara para discutir o Orçamento, e que outras questões estão bem no seu auge, vale a pena ler alguns trechos desta mensagem dirigida então aos Parlamentos futuros. O que temos agora, em relação a Luciano Cordeiro, é nitidamente um Parlamento futuro. Portanto...
 
 
I - ELOQUÊNCIA DOS ALGARISMOS
Não mettemos em linha de conta os futuros e indispensáveis melhoramentos materiaes e moraes, e suppondo progressivamente augmentada a receita, reputamos estacionaria — hypothese quasi absurda, — a despeza, que entre nós e em todos os paizes, por uma rasão natural tende antes a crescer, do que a diminuir ou a parar.
Ficam pois fora do campo duas objecções que de momento poderiam apresentar-se, e por momentos impressionariam o leitor.
«A despeza vae diminuir. A deusa economia, espécie de parca implacável dos esbanjamentos e sinacuras, Messias bota-abaixo, de há tanto annunciado pelos profetas políticos, e confirmado hontem por estrella pequenissima que despontou sobre o quartel dos marinheiros navaes, vae fazer entrar as finanças portuguezas no seu leito natural, d’onde andavam estravasadas, e reduzira verba da despeza ao estrictamente necessário.» (pág. 17)
Aceitando provisoriamente esta objecção como expressão fiel duma verdade incontroversa, responderemos que a verba diminuída hoje na despeza pelo systema de economias mais sabiamente architectado e mais enérgica e completamente realisado, não poderá compensar a verba de crescimento d'ella durante os treze annos a que nos referimos, em vista dos melhoramentos que há a completar, dos que indispensavelmente teem de realisar-se, dos que hão de ter uma inauguração quasi fatal n’este período.
Basta citar os gastos que temos a fazer com a instrucção e educação popular, com a contrucção de novas estradas e caminhos de ferro. o que há de exceder em dobro a verba annual votada para este ultimo fim, no orçamento de 1868, a sanificação do solo, cem outras medidas emfim, que estão urgentemente reclamando o polen fecundissimo do orçamento. (pág. 18)
Em vez de pensarmos em fortificar a autonomia nacional contra as offensas e despresos de estranhos, de imitarmos a Suissa, que pequena e fraca apparentemente, esmagaria nas suas fronteiras as audácias de qualquer invasor, lançamo-nos n'um militarismo napoleónico, corrupto e corruptor, dissolvente e improdutivo, e gastamos com um exercito que é uma caricatura e um desperdício, com uma marinha que é um ridículo, com umas colonias que são uma vergonha e uma injustiça repugnante, mais de um terço da nossa receita, que nos daria n'outras applicações, o desenvolvimento e melhoria do nosso bem estar social e político.
Fallecem-nos os capitaes á nossa agricultura pobrissima, á nossa industria tão débil, ao nosso commercio microscópico porque fizemos do Estado uma espécie de túnica do Christo onde a alta agiotagem vem jogar os seus capitaes, porque estes finalmente fogem para a dívida publica que lhes garante um lucro magnifico sem sacrifício.
 
II - O ORÇAMENTO DO ESTADO E A BOLSA DO CONTRIBUINTE
Que significa porém perante a nossa organização nacional do presente, o exército permanente?
A defeza da pátria, não, porque se esta periclita, todo o cidadão é soldado seu, ou antes todo o cidadão é seu defensor.
E depois o perigo é um facto passageiro, e o exército não deve ser um facto permanente.
E o exército é uma parcella que não basta para arrostar com o perigo collectivo e supremo, e a sociedade nacional que concorre toda com o seu dinheiro para a sustentação da sua existência organisada, deve toda concorrer com a sua vida para a manutenção da sua existência orgânica e authonomica. (pág. 38)
 
V - ECONOMIAS PALLIATIVAS. ECONOMIAS RADICAES
A gymnastica é uma parte principal da hygiene do individuo. Pois o trabalho, isto é o progresso, é a gymnastica do corpo social. Desenvolve, robustece e fortifica. Nem o exército nos tem eximido aos insultos e audácias de estranhos, nem uma só vez na nossa historia nos tem elle salvado a authonomia, nem a elle devemos o tel-a ainda hoje, nem a elle poderemos agradecer-lh'a amanhã.
Devemos-lhe a paz interna?
A história dos últimos annos diz-nos que se alguma vez ella tem sido alterada, quasi sempre tem sido elle o desordeiro.
A história de todos os tempos affirma que todas as perturbações sérias da ordem constituída são sempre reacções legítimas contra qualquer despotismo de systema, de governo ou de lei, que crescem e robustecem na proporção do crescimento de intensidade d’este pela pressão e emprego da força bruta: que a Liberdade, e a ilustração é que manteem a ordem, porque são ella mesma: que o exército não tem o caracter de polícia interna, senão na monarchia pura d'onde veio, porque então, policia e ordem significavam oppressão e violência, e que para tel-o  hoje havia de desconjuntar-se: transformar-se e desmentir-se.
A história diz ainda muitas cousas mais, que bom era que se aprendessem.
 
 
Serve-nos o exército de obstáculo á chamada influencia estrangeira, que muitos desconhecem nas causas, na essência e nos resultados, ou mantem-nos sequer no fatal isolamento político, que muitos confundem com independência nacional?
Servir-nos-hia elle para realisarmos algum parvíssimo sonho de conquista?
A resposta affirmativa a estas ultimas perguntas seria tão eminentemente ridícula como para nós, o é a negação das doutrinas e factos que immediatamente antes d'ellas assentamos.
Para que tiramos pois ao nosso trabalho, ao nosso consumo, e á nossa propriedade, anualmente essa parcella importante que o exército absorve? (pág. 42)

IV — NÃO PODEMOS NEM DEVEMOS PAGAR MAIS
A nossa posição geographica, tão gabada, é um projuízo. O fado de sermos um ponto provável de escala para o commercio do Oriente e do outro hemispherio, quasi nada significa.
Andámos por muito tempo, e andamos ainda, a imaginar que os caminhos de ferro, pondo-nos em communicação com o resto da Europa, fariam com que o nosso commercio de transito se desenvolvesse duma maneira enorme.
Uma grande parcella do commercio estrangeiro, assustado com os perigos da navegação do norte viria bater-nos á porta para o deixarmos passar por nossa casa para as dos visinhos.
Engano.
As companhias de seguros marítimos e o immenso excesso das despezas pela via terrestre, sobre as da via marítima são um epigramma pungente á nossa ignorância e phantasia económica. (pág. 67)
 
 
A moralidade do Estado reclama também que se não realise o caso inverso e que se não pague um salário desproporcional em grandeza ao serviço.
Na primeira hypothese commettera-se uma injustiça na segunda uma prodigalidade, em ambas, uma violação da índole e missão do Estado.
Á luz pois destas doutrinas que de mais espaço e tempo precisavam para se desenvolverem, não seria absurda e visível a fixação d'um máximo e mínimo do ordenado, variando, já se vê, com as circunstâncias e necessidades do tempo.
Seria mesmo impossível talvez a realisação aboluta d'esta idéa, mas possível e fácil o fôra com relação a esta ou áquella parcella do serviço publico.
O facto é que o estado presente das cousas: retribuição exageradamente pequena do pequeno funccionario, salário desproporcional, monstruoso mesmo algumas vezes, do alto funccionalismo, constitue de per si um tropeço enorme á regularidade, simplificação e melhoria do serviço, uma desmoralisação do trabalho.
«isto estimula», dizem.
Mentira. Não há estimulo; há a inveja que humilha e dissolve. (pág. 79)
Não há emulação.
Há o rebaixamento do trabalho e o desanimo, isto é, o rebaixamento da dignidade ou da actividade humana.
Há uma esperança pequeníssima que a «promoção» alimenta e que é no fundo uma grande infâmia. Para que uns subam aos logares dos felizes, é necessário que estes resvalem para as vallas do cemitério.
Eis pois uma grande reformação que encerra uma grande economia.
Pagar bem; suprimir no que se paga demais, augmentar no que se paga de menos.
Bons sobejos ficariam ainda, cremos.
Para o crer basta ver. É abrir um «Orçamento do Estado».
 
 
O funcionalismo é o bode expiatório de todas as facções.
É a victima eterna dos charlatães de panacceas políticas.
Principalmente porem sobre o pequeno funccionalismo recahem os furores reformatórios dos governos. Com o alto, com o potente, com o ricasso, não arcam elles. Pois deviam, que era tempo (pág. 80)
 
VI - AINDA A DIVIDA
Póetisem á vontade os retrógrados apóstolos da colónia, que desfaçadamente se dizem liberaes, mas o facto é que os seus sonhos dourados estão-nos já por bom dinheiro, e por muitas decepções e desgostos.
Em princípio a velha colónia morreu. Na prática só as baionetas e as armadas a podem sustentar. Nem mesmo essas a aguentam bem.
Compreendeu-o a Inglaterra, compreenderam-no os outros paizes coloniaes, com excepção do nosso, suprimindo de há muito o antigo systema colonial, que era a manutenção da conquista, empobrecendo conquistador e conquistado.
Teem ido libertando a colónia, elevando-a á cathegoria de associada.
Amanhã será alliada apenas.
Nós porém nem temos forças para a mantermos, conquista, contra a vontade estranha ou indígena, nem para a elevarmos a associada. A nossa colonia é a mendiga que teimamos em reter comnosco esfomeada e rota, para ostentarmos, não sabemos se a nossa falsa caridade, se a nossa verdadeira miséria.
Escacea-nos o pão em casa, e atiramos ainda com grossas fatias á rua!
Dizem-nos: «a colónia é um padrão das glórias de nossos avós».
Tonteira! Perante o direito moderno, perante o progresso, muitas d'essas glórias são immensamente contestáveis. Perante o bom senso, pertence á historia memorar as glorias passadas, e não á economia pública, contradizer-se e desmantelar-se por ellas.
A verdade é que se as nossas colónias são padrões de glória para nossos avós, são sumidouros de dinheiro, e pelourinho de vergonhas e ignorâncias, são perigo e sobrasalto para nós. (Pág 91.)
Dizem-nos: «vender as colonias é um acto de despotismo atroz e torpe.»
Não venderemos ninguém. Venderemos o nosso domínio político apenas, vultosinho enfachado em fardas de governadores, e em farrapos de degradados.
Despotismo atroz e torpe é o que exercemos sobre os naturaes possuidores d'aquellas regiões.
Tyranisamos e vendemos o negro, e todos sabem que no pequeníssino commercio das nossas colónias africanas, occupa isto a principal parcella. (pág. 92)
 
VII — INICIAÇÃO E EDUCAÇÃO DEMOCRÁTICA
No viver material, no labutar da vida prática, crescem os obstáculos, rebentam do sólo os abrolhos, multiplicam-se os despenhadeiros.
Aqui é que a democracia oscila a cada passo, estremece a cada encontro, sobressalta-se a cada ruído.
Leva comsigo a rasão e a verdade, mas tem de luctar com tendências e preconceitos arreigadíssimos, com falsos princípios que contam séculos de poderio nas consciências, e milhões de ilegítimos interesses por defensores.
Precisam-se por isso braços robusticissimos, e fortíssimos corações e intelligencias valentes. (pág. 100)
 
Luciano Cordeiro
(pela cópia: J.P. Martins Barata)