Este é o tempo em que os Pais
Natal aparecem uma vez por outra em Lisboa, nos armazéns, nas ruas e nas lojas:
uns curiosos figurantes fardados de flanela vermelha bordada a peluche branca,
que se supõe estarem a anunciar as alegrias natalícias a toda a gente, e a
acolher as criancinhas no amplexo da sua resplendente bonomia — mas as
criancinhas nicles, nem se lhes chegam. Uma criancinha que se veja alvo do
amplexo da universal bonomia de um destes Pais Natais afinfa-lhe logo um chuto
nas canelas, (como eu já vi!) e muito bem dado.
As mães mais jovens olham de
soslaio estes Pais Natal e afastam-se dos apertos onde a mensagem de paz e boa
vontade por eles sussurrada se toma demasiadamente íntima e lasciva, e tratam
de estar a salvo da mãozinha marota que se esconda entre a flanela e os presentes.
Alguns cavalheiros têm também, depois de um relance pelo Pai Natal, o reflexo
imediato de apertar o casaco, sentindo bem o lugar da carteira.
Tudo isto significa que os Pais
Natal lisboetas têm algo de inquietante e pouco atraente, e convém examinar de
perto este grave problema.
Começa tudo pela árvore do Natal,
que apareceu por cá antes do Pai Natal.
O abeto iluminado de velas na
longa noite nevada da Escandinávia, pagão tanto como Thor, Freya, Wotan e essa
corja toda de deuses brigões, bêbados e a arrotar de cerveja, depois de cristianizados
por sombrios missionários (e teve que ser cristianizado porque lhes faltaram os
meios de fazer esquecer a tradição pagã, como de costume!), chegou às margens
do Tejo, sob a forma de uma ramada de pinheiro (Pinos pinaster, Sol) cortado ou
roubado aí pelo interior, com umas luzinhas de cor alimentadas por uma pilha de
6 volts e com neve de algodão hidrófilo a 25 paus o maço na farmácia, tudo espetado
num vaso forrado com papel crepe.
Houve, portanto, uma considerável
degradação do símbolo, desde a noite da floresta densa e negra, em que virgens
louríssimas, coroadas de velas acesas, cumpriam estranhos ritos solsticiais,
até ao kit de lâmpadas e bolinhas de vidro de cor que se compram na tabacaria
da Sr.ª Miquelina, e se guardam na mesma caixa de cartão até para o ano em cima
de algum guarda-fato, se não se tiverem estragado. Há que ver que as árvores de
Natal pequeninas tendem a prender-se nas mangas dos vestidos e a cair da mesa,
quando os festejos se tomam mais animados, e as lampadazinhas fundem-se.
Mas se aquele símbolo se
degradou, muito mais se degradou o do Pai Natal, cujo percurso foi ainda mais
sinuoso.
Diz-se que começou por se tratar
de S. Nicolau de Bari, um excelente bispo, em cujo processo de canonização
teria avultado um milagre, no qual salvou uns rapazitos de morrerem afogados
num naufrágio (e daí teria vindo a sua vocação para ser relacionado com a
criançada). Começa-se portanto por ter um bispo do Sul de Itália, um barco, e
putos salvos das águas.
Encontramos o bispo depois, já no
monte da Europa, venerado como St. Nicklaus, ainda vestido de bispo. Mas por um
processo simétrico do que cristianizou o abeto com as velas, aqui foi o bom do
bispo que se aculturou ao paganismo nórdico, e aparece vestido de duende ou «troll»,
com um porreiríssimo aspecto punk, todo de vermelho e bota virada — prenunciando
já por aí a tendência dos habitantes do sul da Europa para imitar o traje e os
modos dos países de moeda forte.
A própria fluência e musicalidade
do linguajar mediterrânico se perdeu, competindo ao St. Claus (como então se
passou a chamar nos círculos «mod» nórdicos) dizer apenas «Oh! Oh! Oh!», o que
prenuncia já a riqueza verbal da música dos Ramones e dos Sex-Pistols.
Tornou-se também pioneiro na
racionalização dos circuitos de distribuição, deixando o barco mediterrânico
pelo trenó puxado a renas, muito mais adequado para o «porta-a-porta» no Grande
Norte gelado — e organizou a produção em cadeia de brinquedos, através da
utilização de duendes proletários pagos à peça (e diz-se que o Taylorismo teve
aí a sua verdadeira origem). Assim armado para enfrentar economias altamente
competitivas, passou à América, sob a designação «corporate» de Santa Claus,
mais fácil de fixar.
A concorrência nos «media» veio
depois a recomendar o encurtamento para «Santa», simplesmente, como é agora
conhecido por lá.
O pobre bispo Nicolau do sul de
Itália, teve assim uma carreira de sucesso até chegar ao popular «Santa» dos
Estados Unidos: uma carreira, de certo modo, paralela à de D. Vito Genovese e
de Alberto (AI) Capone, noutro ramo de actividade. Ora, perante este avassalador
ímpeto de marketing, o Menino Jesus vindo pôr prendas no sapatinho para lembrar
aos meninos o tempo da sua epifania, não tinha nenhuma chance.
O Pai Natal, como qualquer grande
multinacional, entrou em Portugal à vontade — como conceito destronador do
Menino Jesus temo, litúrgico, tradicional e artesanal — mas entrou só há muito
pouco tempo.
Por isso, a sua realização
visual, física, é difícil entre nós. Para funções públicas, os «Santa»
norte-americanos são preparados em grande número, seleccionados, com grande
barriga natural e voz profunda para dizer «Oh! Oh! Oh!» convincentemente às
crianças. Há também nos EUA uma versão feminina e machista, estilo Playboy, (em
rigor deveria ser Mãe Natal, Miss Natal ou Miss Santa), de bom pernão ao léu e
vasto decote na fatiota vermelha. Não se destina, no entanto, às crianças.
Mas cá, o que é que acontece?
Um armazém que precise de um Pai
Natal ou dois, o que é que faz? Vai ao guarda-roupa Paiva ou outro, aluga um
fato de Pai Natal ainda a cheirar a naftalina e trata de arranjar um parceiro
qualquer que se preste a fazer de parvo durante uns tempos, a troco de umas coroas
e talvez uma sopa quente no refeitório da casa.
Provavelmente, então, o miolo
humano da figura do Pai Natal vem a ser assim um malandro do Casal Ventoso ou
da Curraleira, com uma barba de estopa pendurada a três quartos sobre a tez tisnada
e deixando de fora a bigodaça negra; o olhinho lúbrico mirando as boas febras
que descem à Baixa a acompanhar os rebentos às lojas; murmurando por entre o dentezito
cariado e o bafo a bagaço algumas palavras de apreciação e convite às miúdas
mais crescidotas.
O exterior da figura do Pai Natai
tende também a uma presença pouco cuidada: a bota lapónica forrada a pele e
lobo é transcrita para a bota de borracha de pescador, da Rua dos Remolares, com
o autocolante da fábrica tudo — ou mesmo a bota preta cardada da tropa; oriunda
da Feira da Ladra lado norte; o casaco vermelho de flanela fininha tocada das
traças, convida à grossa camisola de gola virada, por baixo; à cintura, um
cinto de plástico ostentando o emblema do Benfica na fivela, não é «de rigueur»,
é pelo menos aceitável.
O santo bispo de Bari, na sua
actual figuração lisboeta, é, portanto, algo imperfeito e subdesenvolvido.
Há que tomar providências.
Creio que o esforço conjugado da
Polícia Judiciária, da União de Grémios de Lojistas de Lisboa e da Associação
Portuguesa de Designers, poderia produzir um Pai Natal digno, eficaz e adaptado
a países de média tecnologia como o nosso. Mas digo já a minha ideia, valha o
que valer:
— Em primeiro lugar, num agente
de promoção económica como este, o espaço está mal aproveitado como suporte
publicitário: prevejo espaços publicitários na frente e nas costas, cuja receita
amortizaria o salário do figurante.
— Dada como possível uma
remuneração condigna, o figurante poderia ser um agente da segurança, atento
aos fananços das prateleiras, mas isso implicaria uma excelente visibilidade e
mobilidade da cabeça. A barba, portanto (seguindo o que João Núncio fez para as
casacas dos toureiros ao mudar as fitas que deveriam atar a cabeleira empoada
para passarem a estar imbecil e ridiculamente penduradas na gola!) as barbas,
dizia, ficariam presas ao peito ou até pintadas.
— Dada a importância crescente do
audiovisual, um emissor portátil lançaria música de fundo, entre meada com
anúncios e «Oh! Oh! Oh!» gravados em vários tons por uma boa voz barítono
profissional (estou a pensar por exemplo em Álvaro Malta).
— Dado que a cor tradicional dos
Pais Natais é um vermelho de um tom que evoca subliminarmente ideologias
políticas pouco favoráveis a uma economia consumista, seria útil ensaiar jogos
de cores mais adequa dos à sensibilidade dominante — e ocorre-me,
evidentemente, como a toda a gente, a cor de laranja tremeado com azul, em faixas.
É óbvio, caramba!
Eu já dei a minha opinião.
Veremos então se para o ano que vem temos em Lisboa Pais Natais que não nos
envergonhem perante os visitantes dos países evoluídos da CEE.



