sábado, 19 de dezembro de 1981

Etno Antropologia do Pai Natal lisboeta

Este é o tempo em que os Pais Natal aparecem uma vez por outra em Lisboa, nos armazéns, nas ruas e nas lojas: uns curiosos figurantes fardados de flanela vermelha bordada a peluche branca, que se supõe estarem a anunciar as alegrias natalícias a toda a gente, e a acolher as criancinhas no amplexo da sua resplendente bonomia — mas as criancinhas nicles, nem se lhes chegam. Uma criancinha que se veja alvo do amplexo da universal bonomia de um destes Pais Natais afinfa-lhe logo um chuto nas canelas, (como eu já vi!) e muito bem dado.
As mães mais jovens olham de soslaio estes Pais Natal e afastam-se dos apertos onde a mensagem de paz e boa vontade por eles sussurrada se toma demasiadamente íntima e lasciva, e tratam de estar a salvo da mãozinha marota que se esconda entre a flanela e os presentes. Alguns cavalheiros têm também, depois de um relance pelo Pai Natal, o reflexo imediato de apertar o casaco, sentindo bem o lugar da carteira.
Tudo isto significa que os Pais Natal lisboetas têm algo de inquietante e pouco atraente, e convém examinar de perto este grave problema.
 
 
Começa tudo pela árvore do Natal, que apareceu por cá antes do Pai Natal.
O abeto iluminado de velas na longa noite nevada da Escandinávia, pagão tanto como Thor, Freya, Wotan e essa corja toda de deuses brigões, bêbados e a arrotar de cerveja, depois de cristianizados por sombrios missionários (e teve que ser cristianizado porque lhes faltaram os meios de fazer esquecer a tradição pagã, como de costume!), chegou às margens do Tejo, sob a forma de uma ramada de pinheiro (Pinos pinaster, Sol) cortado ou roubado aí pelo interior, com umas luzinhas de cor alimentadas por uma pilha de 6 volts e com neve de algodão hidrófilo a 25 paus o maço na farmácia, tudo espetado num vaso forrado com papel crepe.
Houve, portanto, uma considerável degradação do símbolo, desde a noite da floresta densa e negra, em que virgens louríssimas, coroadas de velas acesas, cumpriam estranhos ritos solsticiais, até ao kit de lâmpadas e bolinhas de vidro de cor que se compram na tabacaria da Sr.ª Miquelina, e se guardam na mesma caixa de cartão até para o ano em cima de algum guarda-fato, se não se tiverem estragado. Há que ver que as árvores de Natal pequeninas tendem a prender-se nas mangas dos vestidos e a cair da mesa, quando os festejos se tomam mais animados, e as lampadazinhas fundem-se.
 
Mas se aquele símbolo se degradou, muito mais se degradou o do Pai Natal, cujo percurso foi ainda mais sinuoso.
Diz-se que começou por se tratar de S. Nicolau de Bari, um excelente bispo, em cujo processo de canonização teria avultado um milagre, no qual salvou uns rapazitos de morrerem afogados num naufrágio (e daí teria vindo a sua vocação para ser relacionado com a criançada). Começa-se portanto por ter um bispo do Sul de Itália, um barco, e putos salvos das águas.
Encontramos o bispo depois, já no monte da Europa, venerado como St. Nicklaus, ainda vestido de bispo. Mas por um processo simétrico do que cristianizou o abeto com as velas, aqui foi o bom do bispo que se aculturou ao paganismo nórdico, e aparece vestido de duende ou «troll», com um porreiríssimo aspecto punk, todo de vermelho e bota virada — prenunciando já por aí a tendência dos habitantes do sul da Europa para imitar o traje e os modos dos países de moeda forte.
A própria fluência e musicalidade do linguajar mediterrânico se perdeu, competindo ao St. Claus (como então se passou a chamar nos círculos «mod» nórdicos) dizer apenas «Oh! Oh! Oh!», o que prenuncia já a riqueza verbal da música dos Ramones e dos Sex-Pistols.
Tornou-se também pioneiro na racionalização dos circuitos de distribuição, deixando o barco mediterrânico pelo trenó puxado a renas, muito mais adequado para o «porta-a-porta» no Grande Norte gelado — e organizou a produção em cadeia de brinquedos, através da utilização de duendes proletários pagos à peça (e diz-se que o Taylorismo teve aí a sua verdadeira origem). Assim armado para enfrentar economias altamente competitivas, passou à América, sob a designação «corporate» de Santa Claus, mais fácil de fixar.
A concorrência nos «media» veio depois a recomendar o encurtamento para «Santa», simplesmente, como é agora conhecido por lá.
O pobre bispo Nicolau do sul de Itália, teve assim uma carreira de sucesso até chegar ao popular «Santa» dos Estados Unidos: uma carreira, de certo modo, paralela à de D. Vito Genovese e de Alberto (AI) Capone, noutro ramo de actividade. Ora, perante este avassalador ímpeto de marketing, o Menino Jesus vindo pôr prendas no sapatinho para lembrar aos meninos o tempo da sua epifania, não tinha nenhuma chance.
 
O Pai Natal, como qualquer grande multinacional, entrou em Portugal à vontade — como conceito destronador do Menino Jesus temo, litúrgico, tradicional e artesanal — mas entrou só há muito pouco tempo.
Por isso, a sua realização visual, física, é difícil entre nós. Para funções públicas, os «Santa» norte-americanos são preparados em grande número, seleccionados, com grande barriga natural e voz profunda para dizer «Oh! Oh! Oh!» convincentemente às crianças. Há também nos EUA uma versão feminina e machista, estilo Playboy, (em rigor deveria ser Mãe Natal, Miss Natal ou Miss Santa), de bom pernão ao léu e vasto decote na fatiota vermelha. Não se destina, no entanto, às crianças.
 
Mas cá, o que é que acontece?
 
Um armazém que precise de um Pai Natal ou dois, o que é que faz? Vai ao guarda-roupa Paiva ou outro, aluga um fato de Pai Natal ainda a cheirar a naftalina e trata de arranjar um parceiro qualquer que se preste a fazer de parvo durante uns tempos, a troco de umas coroas e talvez uma sopa quente no refeitório da casa.
Provavelmente, então, o miolo humano da figura do Pai Natal vem a ser assim um malandro do Casal Ventoso ou da Curraleira, com uma barba de estopa pendurada a três quartos sobre a tez tisnada e deixando de fora a bigodaça negra; o olhinho lúbrico mirando as boas febras que descem à Baixa a acompanhar os rebentos às lojas; murmurando por entre o dentezito cariado e o bafo a bagaço algumas palavras de apreciação e convite às miúdas mais crescidotas.
O exterior da figura do Pai Natai tende também a uma presença pouco cuidada: a bota lapónica forrada a pele e lobo é transcrita para a bota de borracha de pescador, da Rua dos Remolares, com o autocolante da fábrica tudo — ou mesmo a bota preta cardada da tropa; oriunda da Feira da Ladra lado norte; o casaco vermelho de flanela fininha tocada das traças, convida à grossa camisola de gola virada, por baixo; à cintura, um cinto de plástico ostentando o emblema do Benfica na fivela, não é «de rigueur», é pelo menos aceitável.
O santo bispo de Bari, na sua actual figuração lisboeta, é, portanto, algo imperfeito e subdesenvolvido.
 
Há que tomar providências.
 
 
Creio que o esforço conjugado da Polícia Judiciária, da União de Grémios de Lojistas de Lisboa e da Associação Portuguesa de Designers, poderia produzir um Pai Natal digno, eficaz e adaptado a países de média tecnologia como o nosso. Mas digo já a minha ideia, valha o que valer:
— Em primeiro lugar, num agente de promoção económica como este, o espaço está mal aproveitado como suporte publicitário: prevejo espaços publicitários na frente e nas costas, cuja receita amortizaria o salário do figurante.
— Dada como possível uma remuneração condigna, o figurante poderia ser um agente da segurança, atento aos fananços das prateleiras, mas isso implicaria uma excelente visibilidade e mobilidade da cabeça. A barba, portanto (seguindo o que João Núncio fez para as casacas dos toureiros ao mudar as fitas que deveriam atar a cabeleira empoada para passarem a estar imbecil e ridiculamente penduradas na gola!) as barbas, dizia, ficariam presas ao peito ou até pintadas.
— Dada a importância crescente do audiovisual, um emissor portátil lançaria música de fundo, entre meada com anúncios e «Oh! Oh! Oh!» gravados em vários tons por uma boa voz barítono profissional (estou a pensar por exemplo em Álvaro Malta).
— Dado que a cor tradicional dos Pais Natais é um vermelho de um tom que evoca subliminarmente ideologias políticas pouco favoráveis a uma economia consumista, seria útil ensaiar jogos de cores mais adequa dos à sensibilidade dominante — e ocorre-me, evidentemente, como a toda a gente, a cor de laranja tremeado com azul, em faixas. É óbvio, caramba!
 
Eu já dei a minha opinião. Veremos então se para o ano que vem temos em Lisboa Pais Natais que não nos envergonhem perante os visitantes dos países evoluídos da CEE.