segunda-feira, 14 de setembro de 1981

Jornalistas no poder

Num jornal da Colômbia, li várias vezes uma coluna extremamente cortante e escrita com argúcia por alguém que assinava Klim. Apurei depois que Klim é de facto um nome importante no jornalismo latino-americano. Um acaso permitiu-me ver na televisão de lá, uma entrevista com esse tal Klim — um elegante ancião, magríssimo, de barba em ponta e olhos faiscantes, espécie de D. Ramon del Valle-lnclan com sotaque andino.
 
Em directo, um espectador pôs-lhe a seguinte pergunta:
— Se você tem sempre críticas a fazer a tudo o que os Governos fazem e sabe sempre tudo, porque é que nunca se fez político e pôs em prática as criticas que faz?
 
A resposta, fulminante, foi:
— Nem por sombras! O jornalismo é a permanente «má consciência» do Poder; não tem nada a fazer de positivo. É apenas o «teste do ácido» à acção dos que exercem qualquer poder, e se deixa de o ser, não serve para mais nada!
 
Pareceu-me na altura uma atitude bera, escapista e irresponsável. Agora, já não tanto.
Por outro lado, é bem caro que «le Journalisme méne a tout, a condition d'en sortir». Vê-se. E sabe-se. O jornalismo conduz de facto a tudo, com a condição de sair dele. Mas sair de facto, de vez, em hábitos mentais e tudo.
A posição do Jornalista, assumida tão linearmente por Klim, é a da explicitação, da análise, da desmontagem — não a da síntese, da execução, da composição, da criação de factos.
 
Da mesma maneira o Historiador. Enquanto Historiador, interpreta, ordena, explica factos — a criá-los, é geralmente uma nódoa, um desastre; quando, invocando a sua qualidade de Historiador, se propõe agir no presente e diz como, é usualmente de uma pesporrência, insuficiência e convencimento intoleráveis. (Ocorrem-me neste momento três casos nacionais bem conhecidos, cientificamente valiosos e ideologicamente diferentes — mas livro-me, evidentemente, de os mencionar...)
 
Porque é isto assim? O Historiador e o Jornalista guiam-se, na sua função, por um «prévio» assumido, um método, um ponto de vista: separam e ordenam factos dados, perante uma determinada regra, procurando ver se se organizaram ou não segundo determinado princípio. O Político enfrenta factos novos, e organiza-os ele em vista a determinado fim.
Ora, «ninguém pode ao mesmo tempo ser actor e espectador de si mesmo», pelo menos é o que me impingiram na Filosofia do Liceu — e duvido que verdadeiros jornalistas consigam perder os hábitos entranhados de examinar e expor os factos criados por outrem. Na verdade, é essa a sua específica maneira de criar factos: através da opinião, isto é, de maneira indirecta.
Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa, imagino-o e pressinto-o, agirão fundamentalmente como políticos «vendo-se agir», como jornalistas que são, comentando-se a si mesmos, analisando-se inteligentemente, penetrantemente.
 
Estão tramados.