Num jornal da Colômbia, li várias
vezes uma coluna extremamente cortante e escrita com argúcia por alguém que
assinava Klim. Apurei depois que Klim é de facto um nome importante no
jornalismo latino-americano. Um acaso permitiu-me ver na televisão de lá, uma
entrevista com esse tal Klim — um elegante ancião, magríssimo, de barba em
ponta e olhos faiscantes, espécie de D. Ramon del Valle-lnclan com sotaque
andino.
Em directo, um espectador pôs-lhe
a seguinte pergunta:
— Se você tem sempre críticas a
fazer a tudo o que os Governos fazem e sabe sempre tudo, porque é que nunca se
fez político e pôs em prática as criticas que faz?
A resposta, fulminante, foi:
— Nem por sombras! O jornalismo é
a permanente «má consciência» do Poder; não tem nada a fazer de positivo. É
apenas o «teste do ácido» à acção dos que exercem qualquer poder, e se deixa de
o ser, não serve para mais nada!
Pareceu-me na altura uma atitude
bera, escapista e irresponsável. Agora, já não tanto.
Por outro lado, é bem caro que
«le Journalisme méne a tout, a condition d'en sortir». Vê-se. E sabe-se. O
jornalismo conduz de facto a tudo, com a condição de sair dele. Mas sair de
facto, de vez, em hábitos mentais e tudo.
A posição do Jornalista, assumida tão
linearmente por Klim, é a da explicitação, da análise, da desmontagem — não a
da síntese, da execução, da composição, da criação de factos.
Da mesma maneira o Historiador.
Enquanto Historiador, interpreta, ordena, explica factos — a criá-los, é
geralmente uma nódoa, um desastre; quando, invocando a sua qualidade de
Historiador, se propõe agir no presente e diz como, é usualmente de uma pesporrência,
insuficiência e convencimento intoleráveis. (Ocorrem-me neste momento três
casos nacionais bem conhecidos, cientificamente valiosos e ideologicamente
diferentes — mas livro-me, evidentemente, de os mencionar...)
Porque é isto assim? O Historiador
e o Jornalista guiam-se, na sua função, por um «prévio» assumido, um método, um
ponto de vista: separam e ordenam factos dados, perante uma determinada regra,
procurando ver se se organizaram ou não segundo determinado princípio. O
Político enfrenta factos novos, e organiza-os
ele em vista a determinado fim.
Ora, «ninguém pode ao mesmo tempo
ser actor e espectador de si mesmo», pelo menos é o que me impingiram na
Filosofia do Liceu — e duvido que verdadeiros jornalistas consigam perder os
hábitos entranhados de examinar e expor os factos criados por outrem. Na
verdade, é essa a sua específica maneira de criar factos: através da opinião,
isto é, de maneira indirecta.
Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo
de Sousa, imagino-o e pressinto-o, agirão fundamentalmente como políticos
«vendo-se agir», como jornalistas que são, comentando-se a si mesmos,
analisando-se inteligentemente, penetrantemente.
Estão tramados.

