Um ramo da medicina que se desenvolve muito agora é a gerontologia — a medicina do envelhecimento. Os médicos gerontólogos apontam insistentemente para o facto de que a velhice se prepara e se defende na idade madura e até antes: saber envelhecer é coisa que se deve aprender em novo e praticar em adulto.
Por outro lado, as escavações arqueológicas, que felizmente já começam a interessar à nossa juventude, mostram cidades que já foram vivas e agora estão mortas: e sabemos, através da História e da Arqueologia como envelheceram, declinaram e morreram cidades antigas. Mas não nos acostumamos à ideia do seu declínio nem queremos obstinadamente reconhecer os seus sinais, quando se trata das cidades contemporâneas, da civilização industrial.
É certo que destas não temos senão poucos e mal conhecidos exemplos de mortes recentes, e por isso, todos pensamos que o melhor é não falar nisso... e afastar essas ideias tristes!
Como certas velhas que se recusam a reconhecer a passagem dos anos, as rugas já patentes e a flacidez que se instala, ou os velhos gaiteiros que não querem enfrentar a evidência do reumatismo e da impotência, as grandes cidades do nosso tempo não estão a envelhecer bem. E Lisboa, que nem sequer tem uma compleição muito robusta, está a declinar muito depressa.
Ora a principal, a mais funda acusação a fazer à actual gestão municipal da maioria AD não reside nas ridículas manifestações de provincianismo, megalomania ou mau gosto que tem animado tanto o lado bem humorado da opinião pública (e até, vamos lá, uma vez por outra, esta coluna...). O perigo real da inconsciência ou ignorância em acção em Lisboa está no seu carácter de bomba de retardamento: os efeitos far-se-ão sentir muito mais tarde — talvez até quando a sua origem já não for manifestamente apontável à acção presente.
(Confesso que gostaria de acreditar até que os que assim procedem não estejam deliberadamente a contar com isso. Porque a título pessoal conheço e estimo alguns, desejo acreditar — sem grandes razões para isso, de facto — que não se apercebem do mal que estão a fazer, em consciência).
Mas qual é essa acusação?
A intensificação desregrada da edificação no interior do núcleo urbano (sob o alibi de solução para as carências habitacionais, solução manifestamente errada ou falsa solução, até! Como é evidente, se o afluxo populacional continuar por falta de uma política regional que o contenha), é eminentemente especulativa.
A iniciativa privada só funciona se estimulada por uma expectativa de lucro; da sua legitimidade não pode aqui ser questão, pois que é um valor indiscutível e primário para a ideologia dominante na AD, e ela tem de ser coerente. A origem desse lucro é que tem que ser examinada— resulta da incorporação dos resultados do investimento público sob todas as formas, necessário para manter a cidade em funcionamento como tal. Mas a acumulação e concentração de habitação e actividades no «organismo» urbano implica investimentos públicos e despesas públicas crescentes mais do que proporcionais — e esses tem de vir de algum lado. Sabe-se de onde vêm! Vêm do agravamento constante das solicitações ao contribuinte e ao consumidor citadino que não é forçosamente (em rigor, nem sequer é principalmente!) o beneficiário directo das vantagens criadas...
Assim, a Cidade vai vivendo cada vez mais como um organismo envelhecido, que vive queimando as próprias reservas.
Como os corpos humanos mal alimentados, Lisboa já não está a queimar as suas gorduras, mas sim já a queimar as suas proteínas, os seus músculos. Acelera o seu envelhecimento.
A próxima «Barca sem os corvos» não se chamará já «O Declínio» como esta, mas sim «O Estertor», e, ao leitor que não veja nela um exercício de ficção futurológica, mas reconheça certos sinais, dará alguns calafrios.

