quarta-feira, 26 de agosto de 1981

Servidão e grandeza militar

O director do semanário «O Tempo» acha que estamos sob uma ditadura militar desde o 25 de Abril. Vi, há tempos na TV o eng. Azevedo Coutinho, que tem ministrado a Defesa, aceitando as honras militares devidas ao seu cargo.
Estes dois factoides não relacionados despertaram-me a reflexão, uma reflexão de tal maneira profunda que resolvi pô-la sob o imponente título de Alfred de Vigny - «Servitude et Grandeur Militaire». Se não se aproveitar nada dela, pelo menos aproveita-se o título que, tem de concordar-se, é magnífico.
 
Da ditadura militar em questão, confesso que não me apercebi ainda. Isso preocupa-me, porque as ditaduras militares costumam ver-se bem, e de longe. (Conheço uruguaios um chileno, um líbio, conheci dois gregos no tempo dos coronéis, enfim...). Tenho que aceitar o facto de que o director do «Tempo» tem conhecimentos e argúcia que estão muito acima dos meus (mas então quem será, o Victor Alves de pistolas à cinta, óculos escuros como o Videla, mandando patriotas para as masmorras, ladeado por guarda-costas? o Eanes? o Melo Antunes? Aquele da aviação? Algum almirante? Tenho que estar mais atento, está visto).
 
Mas são as voltas que o Mundo dá (mesmo o mundo militar) que neste momento me fascinam.
É que conheci o eng. Azevedo Coutinho reduzido então à aborrecida mas tolerável situação em que, com mais 150 garbosos mancebos, servíamos ambos a Pátria como cadetes milicianos de Artilharia, em Queluz.
A guerra colonial não tinha ainda começado — os «satyagrahs» só nesses anos tinham feito a sua aparição, e eram mais motivo de curiosidade que o sinal do começo de um certo fim. A nossa guerra diária resumia-se a descobrir razões para conseguir umas licenças para fazer exames ou dispensas de recolher para ir para a ramboia, inventar maneiras tortuosas para escapar à chatice da instrução, etc. A virtude militar mais patente e mais exigida era o «atavio», e os melhores cadetes eram substancialmente os que conseguiam ter as botas altas mais brilhantes: e os mais aptos no uso judicioso da solarine nos metais da farda.
Tiros, marchas, exercícios cansativos e tudo isso, eram reduzidos ao mínimo — fizemos, de facto, pouco mais de 30 tiros de Mauser cada um na Carregueira e chegou, que as balas eram caras. Com as peças fazia-se mentalmente «Pan-Pan-Pan» nos exercícios, porque granadas era luxo de país rico, só serviam para a guerra (e nós estávamos em paz!).
Mas era uma tropa «de senhores». O «brain-power» conjunto quando os cadetes se reuniam na formatura era formidável: — tomados colectivamente, não haveria muito que ensinar-nos de novo, quanto à História de Arte, Agronomia, Engenharia Química e Electrotecnia, Pecuária, Mecânica Racional e Celeste, Pintura e Decoração — mas quanto às artes da guerra, éramos um desastre. Uma paisanagem irrecuperável, que fazia o desespero de uns oficiais do quadro permanente, dos quais, dois ou três vagamente fascistoides e limitaditos se constituíam castigadores e mentores.
Berravam, tomavam ares marciais, cuspiam ferro e fogo, mas para nós eram figuras patéticas e algo cómicas — guerreiros sem guerra, falcões «avant la lettre», equipados com sucata sobrante da guerra de 39-45, que já não servia nem na Coreia, cheios de fome de «heroísmos» retumbantes e sem ter onde os satisfazer senão massacrando com castigos os inferiores.
(Alguns deles vieram depois a justificar na guerra essa sede de heroísmo; de outros, porém, o mais misericordioso que se pode dizer é que não a justificaram...).
 


 
Ora, no meio de tudo isto, o eng. Azevedo Coutinho (que incidentalmente é portador de um nome ilustrado militarmente em África, noutra geração, e de que maneira! Além de ser a perfeita versão portuguesa do gentleman britânico que todos conhecem) estava perfeitamente como o peixe fora da água. No meio da grosseria caserneira, da estupidez e dos berros da tropa de pouca qualidade que todos tínhamos que suportar, exprimia, como todos nós também, a mesma irreprimível, espontânea azeda fúria de todos os tropas menores perante as prepotências dos tropas maiores em todos os tempos:
— «Ah! se eu um dia mandasse nestes gajos!...»
Os mecanismos próprios da organização de todas as tropas do Mundo em todos os tempos, fazem porém que isso não passe de um desejo incontido, mas nada mais que um desejo incontido, na prática.
Calcula-se portanto o meu requintado gozo ao ver o ex-cadete na Televisão, aceitando gravemente a continência de uns quantos generais sortidos e de um molho de coronéis e majores perante filas e filas de soldadesca:
- «Lembra-te, Luís, agora, lembra-te!...» pensei, para mim.
Mas fiquei com dúvidas de que ele se tenha lembrado...
Mas mesmo que o Luís se lembrasse e quisesse, não chegaria a fazer nada de desagradável aos tropas (naquele sentido jocoso em que eu estava a pensar, claro...). Não poderia.
Não poderia porque na tropa (em todas as tropas!) há uma ambivalência e uma ambiguidade permanente: há a «tropa», e há os tropas. Os tropas proclamam insistentemente certas virtudes — que na maioria não têm; e a «tropa» tem certas grandes virtudes, que usualmente tende a minimizar.
O militar, militarão, tende a ver-se como o defensor de uma certa ideia de pátria, algo patrioteira, mas respeitável. Mas, de facto, o militarão, cuspidor de fogo e metralha, falcão com material de segunda ou emprestado por outros países defende, percebendo-o claramente ou não, algo que está para lá (senão mesmo à margem, ou com desprezo) das pátrias.
A ideia nacional defende-se agora mais do que nunca, defendendo a identidade cultural nacional, e para isso não são precisos bombardeiros estrangeiros na nossa terra — são precisos livros, professores, homens de ciência artistas, pensadores. A tropa, disso, infelizmente gasta pouco. Não o perceber, é, para ela, uma real «servidão».
 
Mas por outro lado, o âmbito militar é uma inegável escola de disciplina. A disciplina, mais do que uma das chamadas virtudes militares, é uma virtude de todo um povo, e não pode negar-se que a tropa é uma real «conservatória» de disciplina — ainda que por vezes a sua prática seja um pouco rude, um pouco analfabeta. Essa é uma real, ainda que às vezes incómoda «grandeza».
 
Os tropas como efectivos detentores da violência pública e legal, tendem a ver-se como detentores da violência «legítima». De aí até à convicção de serem os legitimadores da violência vai um passo, e a arrogância que transparece dos tropas em acto de detenção da violência é característica — traduz-se até na simbólica e na mimica. Fardas, atitudes, vozes e ritmos manifestadores do poder potencialmente violento são semelhantes por todo o lado: de um generalzeco de uma República das bananas, até um marechal cheio de galões vendo filas espessas de botas batendo na Praça Vermelha em passo de ganso, ou um general de verde seco olhando com olhos de águia para maciças legiões verde seco na National Square, vai uma diferença de grau, não de natureza. Negá-lo por qualquer razão, seria inteira falta de vergonha.
Os capitãezecos da minha tropa, ao berrar para uns cadetes paisanões, berravam «in mente» para uma impecável falange de cadetes de West-Point,  Saint-Cyr eu AIdershot.
Esta antipática faceta da tropa, que os próprios sentem e praticam como sendo reflexo da sua grandeza, é realmente outra «servidão».
O auge do ridículo atinge-se entre nós com a marcha de parada dos paraquedistas, que é uma maravilha freudiana. A mal velada intenção de projectar a imagem de potência não já fálica mas testicular (reveladora sobretudo de potenciais e tristes recalcamentos...) aparece ao público mais como se fosse devida ao incómodo devido a dilatação local causada pela inflamação de um mal não mencionável, do que imponente coreografia militar. O símbolo e a mímica quando são intencionalmente usados, tem de o ser com muito cuidado, ou saem do avesso. Mas os «paras» coitados parecem muito felizes com o espectáculo que dão.
 
Há, portanto, a «tropa» — a coisa militar em abstracto, o estado de serviço armado nacional: e há os «tropas» — a sua realização humana concreta; e esta, há que reconhecer que por vezes é fraca.
A Escola de Guerra tem cultivado a ideia curiosa de que os seus produtos são os legítimos herdeiros dos homens dos Atoleiros e de Aljubarrota, inculcando neles essa ideia.
Não o são, assim como os verdadeiros herdeiros dos marinheiros das descobertas são os pescadores e não os diplomados pela Escola da Marinha. Isso seria outra história a debater...
Mas conheci e conheço «tropas» notáveis, homens de elevada estatura moral e intelectual a quem devo até muitos ensinamentos, e que da tropa «tropa» faziam e inculcavam aos cadetes e oficiais jovens a ideia de que era a última possibilidade de educação cívica para massas inteiras de rapazes analfabetos e toscos; que era, uma importante escola de treino para a disponibilidade e vontade de lutar quando e onde preciso por um ideal; que era uma certa maneira de compreender as técnicas em acção no Mundo actual; que era para nós um certo momento de reflectir sobre os problemas da responsabilidade, à entrada do mundo adulto e hierarquizado.
Esses tropas não eram particularmente bem vistos pela maioria — talvez esta pensasse que por parte deles isso era uma «servidão» — mas realmente, era uma «grandeza» militar.