O director do semanário «O Tempo»
acha que estamos sob uma ditadura militar desde o 25 de Abril. Vi, há tempos na
TV o eng. Azevedo Coutinho, que tem ministrado a Defesa, aceitando as honras
militares devidas ao seu cargo.
Estes dois factoides não
relacionados despertaram-me a reflexão, uma reflexão de tal maneira profunda
que resolvi pô-la sob o imponente título de Alfred de Vigny - «Servitude et
Grandeur Militaire». Se não se aproveitar nada dela, pelo menos aproveita-se o título
que, tem de concordar-se, é magnífico.
Da ditadura militar em questão,
confesso que não me apercebi ainda. Isso preocupa-me, porque as ditaduras
militares costumam ver-se bem, e de longe. (Conheço uruguaios um chileno, um
líbio, conheci dois gregos no tempo dos coronéis, enfim...). Tenho que aceitar
o facto de que o director do «Tempo» tem conhecimentos e argúcia que estão
muito acima dos meus (mas então quem será, o Victor Alves de pistolas à cinta,
óculos escuros como o Videla, mandando patriotas para as masmorras, ladeado por
guarda-costas? o Eanes? o Melo Antunes? Aquele da aviação? Algum almirante? Tenho
que estar mais atento, está visto).
Mas são as voltas que o Mundo dá
(mesmo o mundo militar) que neste momento me fascinam.
É que conheci o eng. Azevedo
Coutinho reduzido então à aborrecida mas tolerável situação em que, com mais
150 garbosos mancebos, servíamos ambos a Pátria como cadetes milicianos de
Artilharia, em Queluz.
A guerra colonial não tinha ainda
começado — os «satyagrahs» só nesses anos tinham feito a sua aparição, e eram
mais motivo de curiosidade que o sinal do começo de um certo fim. A nossa
guerra diária resumia-se a descobrir razões para conseguir umas licenças para
fazer exames ou dispensas de recolher para ir para a ramboia, inventar maneiras
tortuosas para escapar à chatice da instrução, etc. A virtude militar mais
patente e mais exigida era o «atavio», e os melhores cadetes eram
substancialmente os que conseguiam ter as botas altas mais brilhantes: e os
mais aptos no uso judicioso da solarine nos metais da farda.
Tiros, marchas, exercícios
cansativos e tudo isso, eram reduzidos ao mínimo — fizemos, de facto, pouco
mais de 30 tiros de Mauser cada um na Carregueira e chegou, que as balas eram
caras. Com as peças fazia-se mentalmente «Pan-Pan-Pan» nos exercícios, porque
granadas era luxo de país rico, só serviam para a guerra (e nós estávamos em
paz!).
Mas era uma tropa «de senhores».
O «brain-power» conjunto quando os cadetes se reuniam na formatura era formidável:
— tomados colectivamente, não haveria muito que ensinar-nos de novo, quanto à
História de Arte, Agronomia, Engenharia Química e Electrotecnia, Pecuária,
Mecânica Racional e Celeste, Pintura e Decoração — mas quanto às artes da
guerra, éramos um desastre. Uma paisanagem irrecuperável, que fazia o desespero
de uns oficiais do quadro permanente, dos quais, dois ou três vagamente
fascistoides e limitaditos se constituíam castigadores e mentores.
Berravam, tomavam ares marciais,
cuspiam ferro e fogo, mas para nós eram figuras patéticas e algo cómicas — guerreiros
sem guerra, falcões «avant la lettre», equipados com sucata sobrante da guerra
de 39-45, que já não servia nem na Coreia, cheios de fome de «heroísmos» retumbantes
e sem ter onde os satisfazer senão massacrando com castigos os inferiores.
(Alguns deles vieram depois a
justificar na guerra essa sede de heroísmo; de outros, porém, o mais misericordioso
que se pode dizer é que não a justificaram...).
Ora, no meio de tudo isto, o eng.
Azevedo Coutinho (que incidentalmente é portador de um nome ilustrado militarmente
em África, noutra geração, e de que maneira! Além de ser a perfeita versão
portuguesa do gentleman britânico que todos conhecem) estava perfeitamente como
o peixe fora da água. No meio da grosseria caserneira, da estupidez e dos
berros da tropa de pouca qualidade que todos tínhamos que suportar, exprimia,
como todos nós também, a mesma irreprimível, espontânea azeda fúria de todos os
tropas menores perante as prepotências dos tropas maiores em todos os tempos:
— «Ah! se eu um dia mandasse
nestes gajos!...»
Os mecanismos próprios da
organização de todas as tropas do Mundo em todos os tempos, fazem porém que
isso não passe de um desejo incontido, mas nada mais que um desejo incontido,
na prática.
Calcula-se portanto o meu
requintado gozo ao ver o ex-cadete na Televisão, aceitando gravemente a
continência de uns quantos generais sortidos e de um molho de coronéis e
majores perante filas e filas de soldadesca:
- «Lembra-te, Luís, agora, lembra-te!...»
pensei, para mim.
Mas fiquei com dúvidas de que ele
se tenha lembrado...
Mas mesmo que o Luís se lembrasse
e quisesse, não chegaria a fazer nada de desagradável aos tropas (naquele
sentido jocoso em que eu estava a pensar, claro...). Não poderia.
Não poderia porque na tropa (em
todas as tropas!) há uma ambivalência e uma ambiguidade permanente: há a
«tropa», e há os tropas. Os tropas proclamam insistentemente certas virtudes — que
na maioria não têm; e a «tropa» tem certas grandes virtudes, que usualmente
tende a minimizar.
O militar, militarão, tende a
ver-se como o defensor de uma certa ideia de pátria, algo patrioteira, mas
respeitável. Mas, de facto, o militarão, cuspidor de fogo e metralha, falcão
com material de segunda ou emprestado por outros países defende, percebendo-o
claramente ou não, algo que está para lá (senão mesmo à margem, ou com
desprezo) das pátrias.
A ideia nacional defende-se agora
mais do que nunca, defendendo a identidade
cultural nacional, e para isso não são precisos bombardeiros estrangeiros
na nossa terra — são precisos livros, professores, homens de ciência artistas,
pensadores. A tropa, disso, infelizmente gasta pouco. Não o perceber, é, para
ela, uma real «servidão».
Mas por outro lado, o âmbito
militar é uma inegável escola de disciplina. A disciplina, mais do que uma das
chamadas virtudes militares, é uma virtude de todo um povo, e não pode negar-se
que a tropa é uma real «conservatória» de disciplina — ainda que por vezes a
sua prática seja um pouco rude, um pouco analfabeta. Essa é uma real, ainda que
às vezes incómoda «grandeza».
Os tropas como efectivos
detentores da violência pública e legal, tendem a ver-se como detentores da
violência «legítima». De aí até à convicção de serem os legitimadores da violência vai um passo, e a arrogância que transparece
dos tropas em acto de detenção da
violência é característica — traduz-se até na simbólica e na mimica.
Fardas, atitudes, vozes e ritmos manifestadores do poder potencialmente
violento são semelhantes por todo o lado: de um generalzeco de uma República
das bananas, até um marechal cheio de galões vendo filas espessas de botas
batendo na Praça Vermelha em passo de ganso, ou um general de verde seco
olhando com olhos de águia para maciças legiões verde seco na National Square,
vai uma diferença de grau, não de natureza. Negá-lo por qualquer razão, seria
inteira falta de vergonha.
Os capitãezecos da minha tropa, ao
berrar para uns cadetes paisanões, berravam «in mente» para uma impecável
falange de cadetes de West-Point,
Saint-Cyr eu AIdershot.
Esta antipática faceta da tropa,
que os próprios sentem e praticam como sendo reflexo da sua grandeza, é
realmente outra «servidão».
O auge do ridículo atinge-se
entre nós com a marcha de parada dos paraquedistas, que é uma maravilha freudiana.
A mal velada intenção de projectar a imagem de potência não já fálica mas testicular
(reveladora sobretudo de potenciais e tristes recalcamentos...) aparece ao
público mais como se fosse devida ao incómodo devido a dilatação local causada
pela inflamação de um mal não mencionável, do que imponente coreografia
militar. O símbolo e a mímica quando são intencionalmente usados, tem de o ser
com muito cuidado, ou saem do avesso. Mas os «paras» coitados parecem muito
felizes com o espectáculo que dão.
Há, portanto, a «tropa» — a coisa
militar em abstracto, o estado de serviço armado nacional: e há os «tropas» — a
sua realização humana concreta; e esta, há que reconhecer que por vezes é fraca.
A Escola de Guerra tem cultivado a ideia
curiosa de que os seus produtos são os legítimos herdeiros dos homens dos
Atoleiros e de Aljubarrota, inculcando neles essa ideia.
Não o são, assim como os
verdadeiros herdeiros dos marinheiros das descobertas são os pescadores e não
os diplomados pela Escola da Marinha. Isso seria outra história a debater...
Mas conheci e conheço «tropas»
notáveis, homens de elevada estatura moral e intelectual a quem devo até muitos
ensinamentos, e que da tropa «tropa» faziam e inculcavam aos cadetes e oficiais
jovens a ideia de que era a última
possibilidade de educação cívica para massas inteiras de rapazes
analfabetos e toscos; que era, uma importante escola de treino para a
disponibilidade e vontade de lutar quando e onde preciso por um ideal; que era
uma certa maneira de compreender as técnicas em acção no Mundo actual; que era
para nós um certo momento de reflectir sobre os problemas da responsabilidade,
à entrada do mundo adulto e hierarquizado.
Esses tropas não eram
particularmente bem vistos pela maioria — talvez esta pensasse que por parte
deles isso era uma «servidão» — mas realmente, era uma «grandeza» militar.



