Tenho que rever uns apontamentos
da Faculdade de Letras (Histórica da Cultura Clássica, talvez?) onde tinha
apontado o significado de «crise». Parece-me que vem de «Krasis» (corte,
interrupção), e que o «corte» do vinho com a água se fazia em apropriados vasos
de boca larga («Kratera») na antiga Grécia. Se não é isso é muito parecido; de
qualquer maneira, fiquei sempre a associar mentalmente «crise» com fabrico de
vinho a martelo na época clássica mas esta é uma associação de ideias que o
Prof. Manuel Antunes reprovaria, certamente.
«Crise» é portanto um corte
temporal, um momento de mudança, um cotovelo da História.
Os economistas (ignorantes da
Cultura Clássica, apesar de eventualmente estudiosos dos custos de produção do
vinho a martelo) é que introduziram a ideia de «crise» como um estado de carência,
baixo nível, debilidade, incerteza, etc. e isso é perfeitamente errado. Por
exemplo, dizer-se que «desde» 1967 se verifica uma crise de, digamos, carne de
porco, ou eurodollars, ou lá do que for, é disparate: não faz sentido.
«Crise» é um momento. Zás, Ali!
Depois desse momento, é já outra
coisa — crise é que já não.
A crise na política também dá que
pensar. Veja-se: a morte de uma figura importante, uma sublevação, etc. são
crises, inegavelmente. Mas mudar de governo de três em três meses, e de regime
de dois em dois anos, como se usa na América do Sul, não é crise — é sistema, é
modo de vida, ou se calhar é até só vício...
Entre nós, as chamadas crises
políticas (que começaram no Séc. XII) são já uma reconfortante certeza — se
forem vistas correctamente e sem preconceito, as cinco décadas de Estado Novo é
que foram uma anomalia, e até uma anomalia que marcou o nosso Povo fundamente.
Uma consequência de este estado
não estável mas estacionário (Vd. Teoria Geral dos Sistemas) que erradamente se
designa por «crise permanente» — é a de que o Povo começa a desconfiar dos
governos que duram mais, porque acabam por fazer pouca coisa.
Que os governos realmente só
possam fazer muito menos do que aquilo que prometem, é coisa que o Povo também
já percebeu, e há muito tempo. Mas mesmo dentro dessa limitação, o que acontece
é que o Povo começa a aperceber-se de que os governos que produzem mais ainda
são os de transição, de gestão e provisórios.
Pudera! Como sabem que estão com
o pé no estribo, é um vê se te avias, é aproveitar enquanto se pode fazer ainda
alguma coisa irreversível antes que venha a oposição, é deixar algumas marcas
tão fundas quanto possível, na coisa pública com o máximo pragmatismo (porque
filosofar e justificar fica para depois, quando passa a ser a vez de vigiar os
outros). Os outros, governos estáveis, apoiados em maiorias etc., com horizonte
temporal que se assume garantido, sempre à procura de um projecto global (que
deviam ter à partida, mas a verdade é que nunca resiste ao contacto com o
concreto...), empenhados em reformular a fundo o enquadramento da sociedade e
repensar do principio a organização do aparelho de Estado, estabelecer em novas
e sólidas bases as componentes mestras do tecido sociopolítico e em discutir a
fundo o real projecto colectivo nacional na base de um amplo consenso de raiz,
e tudo isso, acabam mas é por não fazer raspas de nada, a não ser o mínimo de
gestão corrente.
Eu tenho solução para isto. Exige,
claro, ligeira revisão constitucional:
— Todos os governos e direcções
de partidos seriam sempre e unicamente provisórios; ao menor sinal de
ineficácia ou indício da permanência já sabiam o que os espera — Rua! E venham
outros! (a minha cultura clássica diz-me até que isso se poderia fazer com
conchas de ostra...).
A estabilidade e eficiência de um
regime destes seria fabulosa.
Crises, mesmo crises, já só
haveria no futebol.
