terça-feira, 18 de agosto de 1981

Reflexão confusa sobre a crise

Tenho que rever uns apontamentos da Faculdade de Letras (Histórica da Cultura Clássica, talvez?) onde tinha apontado o significado de «crise». Parece-me que vem de «Krasis» (corte, interrupção), e que o «corte» do vinho com a água se fazia em apropriados vasos de boca larga («Kratera») na antiga Grécia. Se não é isso é muito parecido; de qualquer maneira, fiquei sempre a associar mentalmente «crise» com fabrico de vinho a martelo na época clássica mas esta é uma associação de ideias que o Prof. Manuel Antunes reprovaria, certamente.
 
«Crise» é portanto um corte temporal, um momento de mudança, um cotovelo da História.
Os economistas (ignorantes da Cultura Clássica, apesar de eventualmente estudiosos dos custos de produção do vinho a martelo) é que introduziram a ideia de «crise» como um estado de carência, baixo nível, debilidade, incerteza, etc. e isso é perfeitamente errado. Por exemplo, dizer-se que «desde» 1967 se verifica uma crise de, digamos, carne de porco, ou eurodollars, ou lá do que for, é disparate: não faz sentido.
«Crise» é um momento. Zás, Ali!
Depois desse momento, é já outra coisa — crise é que já não.
 
A crise na política também dá que pensar. Veja-se: a morte de uma figura importante, uma sublevação, etc. são crises, inegavelmente. Mas mudar de governo de três em três meses, e de regime de dois em dois anos, como se usa na América do Sul, não é crise — é sistema, é modo de vida, ou se calhar é até só vício...
 
Entre nós, as chamadas crises políticas (que começaram no Séc. XII) são já uma reconfortante certeza — se forem vistas correctamente e sem preconceito, as cinco décadas de Estado Novo é que foram uma anomalia, e até uma anomalia que marcou o nosso Povo fundamente.
Uma consequência de este estado não estável mas estacionário (Vd. Teoria Geral dos Sistemas) que erradamente se designa por «crise permanente» — é a de que o Povo começa a desconfiar dos governos que duram mais, porque acabam por fazer pouca coisa.
Que os governos realmente só possam fazer muito menos do que aquilo que prometem, é coisa que o Povo também já percebeu, e há muito tempo. Mas mesmo dentro dessa limitação, o que acontece é que o Povo começa a aperceber-se de que os governos que produzem mais ainda são os de transição, de gestão e provisórios.
Pudera! Como sabem que estão com o pé no estribo, é um vê se te avias, é aproveitar enquanto se pode fazer ainda alguma coisa irreversível antes que venha a oposição, é deixar algumas marcas tão fundas quanto possível, na coisa pública com o máximo pragmatismo (porque filosofar e justificar fica para depois, quando passa a ser a vez de vigiar os outros). Os outros, governos estáveis, apoiados em maiorias etc., com horizonte temporal que se assume garantido, sempre à procura de um projecto global (que deviam ter à partida, mas a verdade é que nunca resiste ao contacto com o concreto...), empenhados em reformular a fundo o enquadramento da sociedade e repensar do principio a organização do aparelho de Estado, estabelecer em novas e sólidas bases as componentes mestras do tecido sociopolítico e em discutir a fundo o real projecto colectivo nacional na base de um amplo consenso de raiz, e tudo isso, acabam mas é por não fazer raspas de nada, a não ser o mínimo de gestão corrente.
 
Eu tenho solução para isto. Exige, claro, ligeira revisão constitucional:
— Todos os governos e direcções de partidos seriam sempre e unicamente provisórios; ao menor sinal de ineficácia ou indício da permanência já sabiam o que os espera — Rua! E venham outros! (a minha cultura clássica diz-me até que isso se poderia fazer com conchas de ostra...).
 
A estabilidade e eficiência de um regime destes seria fabulosa.
Crises, mesmo crises, já só haveria no futebol.