Presidente tirou os óculos (com
os quais nunca era visto em público...), esfregou lentamente os olhos de cansaço,
levantou-se para sair finalmente do Oval Office, deu dois passos mas voltou a
sentar-se. Pegou de novo no processo confidencial do FBI e do Departamento da
Defesa sobre o desaparecimento de uma ogiva de neutrões do paiol nuclear de
Cayuga Flats.
Felizmente tratava-se de um
engenho de fraca potência, de tipo táctico, exigindo apenas um vector ligeiro
“terra-terra” de tipo já operacional nas infantarias dos dois blocos.
Mas o assunto era intrigante. Era
intrigante por ter sido claramente um «inside job»— conivência do interior que,
essa, acabaria por aclarar-se; e era intrigante por se tratar de uma única
ogiva ligeira, quando teria sido fácil levar várias. Este último facto, segundo
o relatório, levava a crer que o golpe teria sido montado por conta de uma
potência menor, em guerra declarada ou latente, para obter um êxito
espectacular. Talvez para uma chantagem militar sobre algum estado vizinho.
Talvez no Médio Oriente, talvez em África.
O Iraque? A Líbia?
A perspectiva de não se tratar de
um escalão continental, dado o âmbito exclusivamente táctico da arma, e o facto
de ser só uma, justificavam talvez a calma de Haih, logo que o primeiro susto
passou. E não tinha mesmo entrevisto um certo brilho malicioso no olhar do
general Zumweit ao afirmar que nem tudo era mau neste assunto? A velha raposa
aguerrida insinuava talvez que se uns iraquianos ou indianos ou pretos atirassem
a ogiva uns aos outros em condições reais no teatro de operações, se ficava a
ter o melhor dos testes de campo sem incorrer em riscos para vidas americanas
ou europeias nem condenação internacional sempre chata. Velho «coyote» manhoso!
Reagan sorriu… O que era necessário agora era manter o mais completo sigilo, e
estar preparado para tirar partido do que viesse a acontecer onde e quando
viesse a acontecer.
E se fossem os de Israel outra vez?
Lá tesos são, reflectiu o Presidente, com admiração.
De qualquer maneira, estavam
tomadas precauções no sentido de guardar as fronteiras e os portos, e através
da Intelligence seguir qualquer indício da presença da arma desaparecida em
qualquer das áreas de conflito mundial.
O camião pesado, coberto de
oleado com o emblema da companhia das águas, saiu lentamente do cruzamento da
Virgínia Avenue com a Constitution Avenue, como se andasse em busca de um ponto
de rotura a consertar. Acabou por parar em frente do edificio da Pan American Union,
com a luz intermitente do tejadilho a funcionar.
Desceram três homens que
começaram a descarregar vedações, lanternas e ferramentas, e a instalar uma barraca
de lona. O condutor, entretanto, andava para diante e para trás, abanando
energicamente os braços e batendo os pés, no ar fresco e estimulante da noite.
Olhava com indiferença para a Casa Branca intensamente iluminada para lá da
Elipse, por trás das árvores, o Capitólio ao fundo do Mall, e do outro lado do
Potomac, a silhueta pesadona do Pentágono. Àquela hora, o centro de Washington
estava muito esvaziado de gente, e o trânsito diminuíra muito.
Os homens descarregaram com
cuidado um caixote, pesado com um letreiro «Hidraulic Valve 10 inches/type II».
Trocavam poucas palavras para além das piadas usuais do trabalho, e enquanto
dois preparavam o material dentro da tenda, os outros cá fora aqueciam café e
fumavam o cigarrinho da praxe ao ritmo ronceiro de todos os trabalhadores dos
turnos da noite que se preparam para um trabalho longo e provavelmente penoso, sem
capataz para os vigiar.
Um carro da Policia, de ronda, abrandou. Os
guardas, sem grande interesse e verificando que as lanternas intermitentes e os
«stops» estavam acesos, seguiram esboçando um vago aceno para os trabalhadores,
que responderam também vagamente, também sem interesse.
No Oval Office, o Presidente
compulsava ainda os extractos diários da imprensa que o seu «staff»
impecavelmente elaborava.
Violência por todo o lado. E em
escalada. A vida humana, pensou Reagan mais uma vez, está barata, vale pouco — e
no entanto, caramba! Vale a pena ser vivida, quando se é um ganhador! Vencer é
uma necessidade da vida, é o último e único critério da verdade. Uma certa
violência é o preço inevitável da vitória; e voltavam-lhe à memória as frases
de incitamento do «coach» da sua equipa nos seus tempos de «footballer». É
certo que neste momento sentia uma inegável pena pelos pobres diabos do terceiro
mundo, mas não podia evitar pensar que
eram de facto «born-losers». Condenados a perder, esses. Que vida era aquela,
também? BanglaDesh? Sudão? Peru? Os das Caraíbas? Mais valera não terem
nascido. Neste Mundo, que é sem dúvida cruel, desaparecerem uns milhões, por
muito que isso impressione, até acaba por ser um bem para eles e para os que
ficam. Insuportável, isso sim, é o cinismo dos «liberais» americanos e dos
europeus comunistóides, que fazem o choradinho dos direitos humanos que no
fundo só serve o jogo dos russos.
Irritou-se ao pensar nestes maricas
todos, que no fim de tudo, conspiram para abater a América, e os piores de
todos são ainda são os «pinkies» infiltrados na administração; se calhar algum
deles está implicado na história do roubo em Cayuga Flats!
Decidiu-se mesmo a parar e ir-se
deitar. Pousou os óculos sobre um relatório do Federal Reserve Board muito animador sobre a situação monetária, por
acaso, e saiu da sala oval. Uma série de quase inaudíveis «clicks» e «whirrs»,
e o movimento discreto de vários vultos para trás das portas, fizeram-lhe sentir
mais uma vez a curiosa impressão de conforto pela presença invisível da Segurança
que o vigiava a cada momento, criando agora em seu redor uma armadura
impenetrável de electrónicas e dedicações pessoais, estabelecida de modo a que
novo atentado contra a sua vida fosse realmente e definitivamente impossível.
O carro da Polícia descia agora
de novo a Constitution Avenue. Distraidamente, os guardas repararam que o camião
da companhia ainda continuava no sítio, e os homens trabalhavam em qualquer
objecto pesado dentro da tenda de lona. Uma centena de metros depois, ouviram
um ruido abafado e pelo retrovisor, o condutor viu uma fraca luminosidade sair
da tenda que ainda abanava. Fez uma rápida volta em U, e sereia aberta e pneus
a guinchar, dirigiu para lá o carro.
O ardor espantoso espalhou-se-lhe
pelo corpo, um ardor de dentro para fora, como se o sangue se lhe tivesse
tornado em ácido sulfúrico. Deixou de ver. Num último paroxismo tentou parar o
carro. Morreu logo que o carro foi de encontro a um poste de iluminação e ficou
parado, com um farol ainda aceso e a sereia ainda a tocar.
Ali perto, junto da barraca de
lona esfacelada, os corpos dos quatros comandos suicidas estavam em posições
grotescas, por terra.
Sob o luar, os rododendros que
rodeiam a Tidal Basin, floridos de novo, continuavam a brilhar. Nem uma brisa
riçava a água do Potomac, reflectindo perfeitamente o Lincoln Memorial.
Um avião descia com as luzes
piscando preparando-se para aterrar.
Mas, num raio de dois quilómetros,
não havia um único, ser humano vivo.

