segunda-feira, 17 de agosto de 1981

Atentado

Presidente tirou os óculos (com os quais nunca era visto em público...), esfregou lentamente os olhos de cansaço, levantou-se para sair finalmente do Oval Office, deu dois passos mas voltou a sentar-se. Pegou de novo no processo confidencial do FBI e do Departamento da Defesa sobre o desaparecimento de uma ogiva de neutrões do paiol nuclear de Cayuga Flats.
Felizmente tratava-se de um engenho de fraca potência, de tipo táctico, exigindo apenas um vector ligeiro “terra-terra” de tipo já operacional nas infantarias dos dois blocos.
Mas o assunto era intrigante. Era intrigante por ter sido claramente um «inside job»— conivência do interior que, essa, acabaria por aclarar-se; e era intrigante por se tratar de uma única ogiva ligeira, quando teria sido fácil levar várias. Este último facto, segundo o relatório, levava a crer que o golpe teria sido montado por conta de uma potência menor, em guerra declarada ou latente, para obter um êxito espectacular. Talvez para uma chantagem militar sobre algum estado vizinho. Talvez no Médio Oriente, talvez em África.
 
O Iraque? A Líbia?
 
A perspectiva de não se tratar de um escalão continental, dado o âmbito exclusivamente táctico da arma, e o facto de ser só uma, justificavam talvez a calma de Haih, logo que o primeiro susto passou. E não tinha mesmo entrevisto um certo brilho malicioso no olhar do general Zumweit ao afirmar que nem tudo era mau neste assunto? A velha raposa aguerrida insinuava talvez que se uns iraquianos ou indianos ou pretos atirassem a ogiva uns aos outros em condições reais no teatro de operações, se ficava a ter o melhor dos testes de campo sem incorrer em riscos para vidas americanas ou europeias nem condenação internacional sempre chata. Velho «coyote» manhoso! Reagan sorriu… O que era necessário agora era manter o mais completo sigilo, e estar preparado para tirar partido do que viesse a acontecer onde e quando viesse a acontecer.
E se fossem os de Israel outra vez? Lá tesos são, reflectiu o Presidente, com admiração.
De qualquer maneira, estavam tomadas precauções no sentido de guardar as fronteiras e os portos, e através da Intelligence seguir qualquer indício da presença da arma desaparecida em qualquer das áreas de conflito mundial.
 
O camião pesado, coberto de oleado com o emblema da companhia das águas, saiu lentamente do cruzamento da Virgínia Avenue com a Constitution Avenue, como se andasse em busca de um ponto de rotura a consertar. Acabou por parar em frente do edificio da Pan American Union, com a luz intermitente do tejadilho a funcionar.
Desceram três homens que começaram a descarregar vedações, lanternas e ferramentas, e a instalar uma barraca de lona. O condutor, entretanto, andava para diante e para trás, abanando energicamente os braços e batendo os pés, no ar fresco e estimulante da noite. Olhava com indiferença para a Casa Branca intensamente iluminada para lá da Elipse, por trás das árvores, o Capitólio ao fundo do Mall, e do outro lado do Potomac, a silhueta pesadona do Pentágono. Àquela hora, o centro de Washington estava muito esvaziado de gente, e o trânsito diminuíra muito.
Os homens descarregaram com cuidado um caixote, pesado com um letreiro «Hidraulic Valve 10 inches/type II». Trocavam poucas palavras para além das piadas usuais do trabalho, e enquanto dois preparavam o material dentro da tenda, os outros cá fora aqueciam café e fumavam o cigarrinho da praxe ao ritmo ronceiro de todos os trabalhadores dos turnos da noite que se preparam para um trabalho longo e provavelmente penoso, sem capataz para os vigiar.
Um carro da Policia, de ronda, abrandou. Os guardas, sem grande interesse e verificando que as lanternas intermitentes e os «stops» estavam acesos, seguiram esboçando um vago aceno para os trabalhadores, que responderam também vagamente, também sem interesse.
 
No Oval Office, o Presidente compulsava ainda os extractos diários da imprensa que o seu «staff» impecavelmente elaborava.
Violência por todo o lado. E em escalada. A vida humana, pensou Reagan mais uma vez, está barata, vale pouco — e no entanto, caramba! Vale a pena ser vivida, quando se é um ganhador! Vencer é uma necessidade da vida, é o último e único critério da verdade. Uma certa violência é o preço inevitável da vitória; e voltavam-lhe à memória as frases de incitamento do «coach» da sua equipa nos seus tempos de «footballer». É certo que neste momento sentia uma inegável pena pelos pobres diabos do terceiro mundo,  mas não podia evitar pensar que eram de facto «born-losers». Condenados a perder, esses. Que vida era aquela, também? BanglaDesh? Sudão? Peru? Os das Caraíbas? Mais valera não terem nascido. Neste Mundo, que é sem dúvida cruel, desaparecerem uns milhões, por muito que isso impressione, até acaba por ser um bem para eles e para os que ficam. Insuportável, isso sim, é o cinismo dos «liberais» americanos e dos europeus comunistóides, que fazem o choradinho dos direitos humanos que no fundo só serve o jogo dos russos.
Irritou-se ao pensar nestes maricas todos, que no fim de tudo, conspiram para abater a América, e os piores de todos são ainda são os «pinkies» infiltrados na administração; se calhar algum deles está implicado na história do roubo em Cayuga Flats!
Decidiu-se mesmo a parar e ir-se deitar. Pousou os óculos sobre um relatório do Federal Reserve Board  muito animador sobre a situação monetária, por acaso, e saiu da sala oval. Uma série de quase inaudíveis «clicks» e «whirrs», e o movimento discreto de vários vultos para trás das portas, fizeram-lhe sentir mais uma vez a curiosa impressão de conforto pela presença invisível da Segurança que o vigiava a cada momento, criando agora em seu redor uma armadura impenetrável de electrónicas e dedicações pessoais, estabelecida de modo a que novo atentado contra a sua vida fosse realmente e definitivamente impossível.
 
 
O carro da Polícia descia agora de novo a Constitution Avenue. Distraidamente, os guardas repararam que o camião da companhia ainda continuava no sítio, e os homens trabalhavam em qualquer objecto pesado dentro da tenda de lona. Uma centena de metros depois, ouviram um ruido abafado e pelo retrovisor, o condutor viu uma fraca luminosidade sair da tenda que ainda abanava. Fez uma rápida volta em U, e sereia aberta e pneus a guinchar, dirigiu para lá o carro.
O ardor espantoso espalhou-se-lhe pelo corpo, um ardor de dentro para fora, como se o sangue se lhe tivesse tornado em ácido sulfúrico. Deixou de ver. Num último paroxismo tentou parar o carro. Morreu logo que o carro foi de encontro a um poste de iluminação e ficou parado, com um farol ainda aceso e a sereia ainda a tocar.
Ali perto, junto da barraca de lona esfacelada, os corpos dos quatros comandos suicidas estavam em posições grotescas, por terra.
Sob o luar, os rododendros que rodeiam a Tidal Basin, floridos de novo, continuavam a brilhar. Nem uma brisa riçava a água do Potomac, reflectindo perfeitamente o Lincoln Memorial.
Um avião descia com as luzes piscando preparando-se para aterrar.
Mas, num raio de dois quilómetros, não havia um único, ser humano vivo.