sexta-feira, 14 de agosto de 1981

Distâncias

«Trás-os-Montes é a região portuguesa que se encontra geograficamente mais perto da Europa»
 (Pinto Balsemão, em Mirandela)
 
 
O que significa, logicamente, que o Algarve seria a região portuguesa mais longe da Europa — mas não sei se o Primeiro-Ministro se sentiria à vontade para o ir dizer aos algarvios.
Em si mesmas, estas frases de circunstância, que lisonjeiam as sensibilidades locais e provocam aplausos não fazem grande mal, e não interessa (nem seria de bom gosto) comentá-las jocosamente fora do momento e do texto. Mas esta revela mais do que o que estritamente nela se quis dizer e dá muito que pensar, exactamente porque poderia ser dita por muita gente, com real convicção.
 
Se se afirma que determinada coisa está (“geograficamente»!) próxima de outra, afirma-se implicitamente que não lhe pertence. Se, por exemplo, em cima de esta mesa, aquela mão está perto de mim, isso quer dizer que não é a minha mão — a minha mão não está perto de mim; é parte de mim; é «eu». A minha cabeça, (graças a Deus!) não está perto de mim, é parte de mim, por enquanto pelo menos, e espero que continue...
Portanto, para o P.M., Portugal não é «geograficamente» Europa— porque está perto da Europa ou então, vamos lá a esclarecer isso!...
 
Mas se a Europa é alguma coisa que, pelos vistos, fica na direcção de Trás-os-Montes (mas mais para lá, talvez mesmo depois de Puebla de Sanabria ou de La Bañeza), e está a uma certa distância, digamos, de Bragança, menor que a distância a contar de, por exemplo, Coimbra, então é preciso saber onde é. Se é apenas uma direcção, a partir de Lisboa, então a Europa vai parar à Carélia ou à Lapónia. Não me parece uma Europa recomendável para o «estilo» de Trás-os-Montes. Suspeito que a Europa, a partir da qual Balsemão mede a distância a Mirandela, se deve situar algures entre o Sena e o Reno. Talvez em Estrasburgo.
 
Havia uma piada, nos meus tempos de rapaz, que consistia em dizer em voz alta e enfática: «Lisboa é a primeira cidade da Europa!» e acrescentar em voz baixa mas audível: «... para quem vem de Cascais...» Temo que seja esta a métrica e a topologia que regem as afirmações em causa. Temo que a frase denuncie uma irremediável consciência de que nós estamos , e a Europa é ; e que as chamadas, obscuramente, «teses terceiro-mundistas» que tanto afligem os vultos grados da AD se revelem, pelo «lapsus», bem entranhadas no seu subconsciente...
 
Temo porém mais ainda, que a Europa em causa se situe de facto em Bruxelas (perto da Rue de La Loi, nuns edifícios novos). Em relação a «essa» Europa, infelizmente, infelizmente, Trás-os-Montes não é a região portuguesa mais próxima. Essa região está à distância «dessa» Europa a que estão a Kabília e os Cárpatos, para nosso mal e nossa tristeza. Mas essa não é uma distância «geográfica», e é muito importante não o esquecer (ou esconder), nem ter exageradas esperanças na acção de Fundos da CEE (o FEDER e outros) bem como outras acções comunitárias desejáveis mas incertas, no sentido de diminuir essas distâncias. E não só a distância a Trás-os-Montes. A distância ao Terreiro do Paço, também.