«Trás-os-Montes é a região portuguesa que se encontra geograficamente
mais perto da Europa»
(Pinto Balsemão, em Mirandela)
O que significa, logicamente, que
o Algarve seria a região portuguesa mais longe da Europa — mas não sei se o
Primeiro-Ministro se sentiria à vontade para o ir dizer aos algarvios.
Em si mesmas, estas frases de
circunstância, que lisonjeiam as sensibilidades locais e provocam aplausos não
fazem grande mal, e não interessa (nem seria de bom gosto) comentá-las jocosamente
fora do momento e do texto. Mas esta revela mais do que o que estritamente nela
se quis dizer e dá muito que pensar, exactamente porque poderia ser dita por
muita gente, com real convicção.
Se se afirma que determinada coisa está (“geograficamente»!)
próxima de outra, afirma-se implicitamente que não lhe pertence. Se, por
exemplo, em cima de esta mesa, aquela mão está perto de mim, isso quer dizer
que não é a minha mão — a minha mão
não está perto de mim; é parte de mim; é «eu». A minha cabeça, (graças a Deus!)
não está perto de mim, é parte de mim, por enquanto pelo
menos, e espero que continue...
Portanto, para o P.M., Portugal
não é «geograficamente» Europa— porque está perto da Europa ou então, vamos lá a esclarecer isso!...
Mas se a Europa é alguma coisa
que, pelos vistos, fica na direcção de Trás-os-Montes (mas mais para lá, talvez
mesmo depois de Puebla de Sanabria ou de La Bañeza), e está a uma certa
distância, digamos, de Bragança, menor que a distância a contar de, por
exemplo, Coimbra, então é preciso saber onde é. Se é apenas uma direcção, a
partir de Lisboa, então a Europa vai parar à Carélia ou à Lapónia. Não me
parece uma Europa recomendável para o «estilo» de Trás-os-Montes. Suspeito que
a Europa, a partir da qual Balsemão mede a distância a Mirandela, se deve
situar algures entre o Sena e o Reno. Talvez em Estrasburgo.
Havia uma piada, nos meus tempos
de rapaz, que consistia em dizer em voz alta e enfática: «Lisboa é a primeira
cidade da Europa!» e acrescentar em voz baixa mas audível: «... para quem vem
de Cascais...» Temo que seja esta a métrica e a topologia que regem as
afirmações em causa. Temo que a frase denuncie uma irremediável consciência de
que nós estamos cá, e a Europa é lá; e que as chamadas, obscuramente,
«teses terceiro-mundistas» que tanto afligem os vultos grados da AD se revelem,
pelo «lapsus», bem entranhadas no seu subconsciente...
Temo porém mais ainda, que a
Europa em causa se situe de facto em Bruxelas (perto da Rue de La Loi, nuns
edifícios novos). Em relação a «essa» Europa, infelizmente, infelizmente,
Trás-os-Montes não é a região portuguesa mais próxima. Essa região está à
distância «dessa» Europa a que estão a Kabília e os Cárpatos, para nosso mal e
nossa tristeza. Mas essa não é uma distância «geográfica», e é muito importante
não o esquecer (ou esconder), nem ter exageradas esperanças na acção de Fundos
da CEE (o FEDER e outros) bem como outras acções comunitárias desejáveis mas
incertas, no sentido de diminuir essas distâncias. E não só a distância a
Trás-os-Montes. A distância ao Terreiro do Paço, também.

