Cá em Lisboa, por agora, de ponte estamos servidos.
O Porto está muito mais bem servido de pontes que Lisboa. Mas ao contrário de Lisboa, onde como não havia nenhuma apenas começamos a habituar-nos a esta, nova o Porto incorporou já na sua paisagem, sobretudo na sua consciência mesmo da paisagem, as maravilhosas pontes que tem.
Temos uma ponte normal, decente que funciona e é solida. Vimo-la construir, aos poucos, e habituamo-nos a ela, e ela a pouco e pouco foi-se inserindo na paisagem, fundindo a sua linha com a linha doce das colinas da outra banda.
Como já nos habituamos a ela não chegamos a ter saudades da oportunidade de ver no seu lugar a maravilhosa concepção (que é a que deveria lá estar!) do projecto do eng. Edgar Cardoso. Era ousada de mais, dizia-se! Ousada de mais...
De resto, o Tejo quanto a pontes é bastante desinteressante.
A de Vila Franca, coitada, é uma coisa burocrática, engenharia de galochas e cachecol. Basta dizer que é constituída por vigas Langer, que são já por si uma concepção das mais híbridas que se possa imaginar: cada tramo é uma viga reforçada por um arco! e portanto desagradável como tudo o que é híbrido.
As outras, para cima (Santarém, Abrantes, Golegã. Ródão) são «treillis» próprios da época - importante patrimônio cultural mas engenharia sem grande inspiração mas também sem grande exigência. Os vãos, também, não eram particularmente estimulantes...
Porque isto, leitor, os engenheiros são uns artistas que têm de ser muito espicaçados para não adormecer. Tendem aflitivamente para uma coisa que eles chamam «técnica» mas que usam frequentemente como um alibi contra o esforço que representa a real técnica. E tendem a perder de vista também outros valores, que não consideram «técnica»...
As outras, para cima (Santarém, Abrantes, Golegã. Ródão) são «treillis» próprios da época - importante patrimônio cultural mas engenharia sem grande inspiração mas também sem grande exigência. Os vãos, também, não eram particularmente estimulantes...
Porque isto, leitor, os engenheiros são uns artistas que têm de ser muito espicaçados para não adormecer. Tendem aflitivamente para uma coisa que eles chamam «técnica» mas que usam frequentemente como um alibi contra o esforço que representa a real técnica. E tendem a perder de vista também outros valores, que não consideram «técnica»...
O Porto está muito mais bem servido de pontes que Lisboa. Mas ao contrário de Lisboa, onde como não havia nenhuma apenas começamos a habituar-nos a esta, nova o Porto incorporou já na sua paisagem, sobretudo na sua consciência mesmo da paisagem, as maravilhosas pontes que tem.
Aí é que já não é tão fácil mexer — fazem parte de uma coisa que para toda a gente (e não só para os tripeiros) é a inconfundível e maravilhosa imagem do Porto.
A D. Luís e a Maria Pia lá vão fazendo a sua função, mas há exigências de adaptação a maior volume de serviço ferroviário que esta segunda tem dificuldade em satisfazer tal como está. E assim, neste momento, nos gabinetes e corredores do poder há intenções confusas e contraditórias acerca delas — estão em jogo razões e interesses regionais, técnicos, económicos e urbanísticos complexos. Tão complexos que fazem temer que aconteça o que é costume quando estão em jogo interesses complexos, isto é, vence o mais forte ou o que consegue mais rapidamente criar situações de facto irreversíveis. Aparecem agora ideias de pontes de várias formas e tamanhos ao lado da ponte Maria Pia.
Muitas soluções nestes casos são soluções da técnica pela técnica (abstraindo do contexto real urbanístico, histórico, cultural e emocional da questão, portanto soluções estúpidas disfarçadas...). A par de essas soluções de que tenho noticia, aparece agora uma ideia que é ao mesmo tempo imprevista e glorificadora da técnica: — reconstruir a ponte Maria Pia que foi construída em ferro pela firma Eiffel sob o projecto, creio, de Bresse mas agora em aço de alta resistência e suportando alegremente as duplicações de vias e cargas que se desejam.
Atendendo a que para os fins ferroviários em questão ela está numa excelente posição; que ela é uma primorosa relíquia do período neotécnico considerável mesmo em termos mundiais; que a sua imagem já está firmada na paisagem do Porto - os engenheiros bem poderiam fazer este belo gesto de cultura, que seria ao mesmo tempo um gesto de refinada técnica!
