terça-feira, 4 de agosto de 1981

Rolarão cabeças

 
Não se trata de saber se devem ou não rolar, em certa situação, como afirmou recentemente o Dr. Alberto João Jardim ou não deverão rolar, noutra circunstância, como dizia o Dr. Mário Soares. O que se trata aqui é do facto de a Imprensa, os dirigentes e as «comères» políticas usarem alegre e impensadamente esta horrível expressão, evocadora do terror sangrento da guilhotina.
A maior violência verbal e a mais cruel ameaça já entraram, eufemisadas, levezinhas, na fala cortês e na ágil prosa do comentário politico. Parece-me isto de muito mau gosto, e sobretudo muito mau sinal: agressividade latente revelada no lapsus; racha no verniz da civilização aceite com um sorriso... Hum! Bom não é, acho eu.
Ou então leve-se a prática claramente, ate ao fim.
Então, um noticiário de um comentador político (estou a imaginara voz de Pedro Cid, por exemplo, na telefonia), soaria assim:
«O dia político foi assinalado por intensa actividade; alguns morticínios e várias conferências de Imprensa.
O Prof. Freitas do Amaral pôs as tripas de Francisco Balsemão à mostra e deu-lhe o coração a comer aos cães, como costuma fazer depois da cada conferência no top da AD. No PSD, Carlos Macedo debateu algumas divergências internas com a Comissão Politica, acabando por envenená-la toda com psicotrópicos. Os escalpes do casal Roseta estão pendurados na varanda da R. de Buenos Aires, conforme os próprios confirmaram ao jornalista. O jornalista soube também que no PSD as cabeças, quando rolam, é pela R. de S. Domingos à Lapa abaixo.
Ângelo Correia, depois de declarações aos jornalistas, apanhou finalmente com um trapo encharcado na cara (mas deu depois três razões diferentes para justificar essa sua atitude num contexto geoestratégico alargado ao Pacífico Sul e à Gambia).
Constou ao jornalista que o sangue escorre pela rua Soeiro Pereira Gomes, mas não lhe foi possível verificar.
No PS ainda subsistem alguns problemas, tendo o antigo secretariado sido encostado à parede da R. da Emenda e metralhado. Reuniu-se depois com os restantes membros dos corpos dirigentes do Partido para examinar o momento político nacional, e preparar armamento para a ofensiva do Outono, que se deseja mortífera.
A nível autárquico, os vereadores da oposição na C.M. de Lisboa no fim da última sessão pública amarraram Nuno Abecasis ao pelourinho, deixando-o alvo dos apupos e pedradas da populaça. Abecasis aproveitou a ocasião para anunciar a abertura de concurso para instalação dum pelourinho novo, inteiramente automatizado e muito mais rentável, a ser explorado por uma empresa privada.
Etc. Etc… »…
 
Tudo isto é horrível e condenável. Desprestígia a função política, mina a confiança, estraga a linguagem. As palavras, quando descontroladas seguem o seu caminho, corroendo, tingindo, envenenando.
É preciso cuidado com as palavras.
Bom seria que os políticos, os jornalistas e os contadores de «potins» se moderassem e evitassem expressões impensadas que se vão infiltrando nas mentalidades e abrindo o caminho para a violência, (os caminhos para a violência são muitos e escondidos, por vezes…)
 
E algum que eu apanhe a insistir nessa tecla, racho-o ao meio, arranco-lhe a pele faço-o em picadinho miudinho para croquetes.