Não se trata de saber se devem ou
não rolar, em certa situação, como afirmou recentemente o Dr. Alberto João
Jardim ou não deverão rolar, noutra circunstância, como dizia o Dr. Mário
Soares. O que se trata aqui é do facto de a Imprensa, os dirigentes e as «comères»
políticas usarem alegre e impensadamente esta horrível expressão, evocadora do
terror sangrento da guilhotina.
A maior violência verbal e a mais
cruel ameaça já entraram, eufemisadas, levezinhas, na fala cortês e na ágil
prosa do comentário politico. Parece-me isto de muito mau gosto, e sobretudo
muito mau sinal: agressividade latente revelada no lapsus; racha no verniz da
civilização aceite com um sorriso... Hum! Bom não é, acho eu.
Ou então leve-se a prática
claramente, ate ao fim.
Então, um noticiário de um
comentador político (estou a imaginara voz de Pedro Cid, por exemplo, na
telefonia), soaria assim:
«O dia político foi assinalado
por intensa actividade; alguns morticínios e várias conferências de Imprensa.
O Prof. Freitas do Amaral pôs as
tripas de Francisco Balsemão à mostra e deu-lhe o coração a comer aos cães,
como costuma fazer depois da cada conferência no top da AD. No PSD, Carlos
Macedo debateu algumas divergências internas com a Comissão Politica, acabando
por envenená-la toda com psicotrópicos. Os escalpes do casal Roseta estão
pendurados na varanda da R. de Buenos Aires, conforme os próprios confirmaram
ao jornalista. O jornalista soube também que no PSD as cabeças, quando rolam, é
pela R. de S. Domingos à Lapa abaixo.
Ângelo Correia, depois de
declarações aos jornalistas, apanhou finalmente com um trapo encharcado na cara
(mas deu depois três razões diferentes para justificar essa sua atitude num
contexto geoestratégico alargado ao Pacífico Sul e à Gambia).
Constou ao jornalista que o
sangue escorre pela rua Soeiro Pereira Gomes, mas não lhe foi possível
verificar.
No PS ainda subsistem alguns
problemas, tendo o antigo secretariado sido encostado à parede da R. da Emenda
e metralhado. Reuniu-se depois com os restantes membros dos corpos dirigentes
do Partido para examinar o momento político nacional, e preparar armamento para
a ofensiva do Outono, que se deseja mortífera.
A nível autárquico, os vereadores
da oposição na C.M. de Lisboa no fim da última sessão pública amarraram Nuno
Abecasis ao pelourinho, deixando-o alvo dos apupos e pedradas da populaça.
Abecasis aproveitou a ocasião para anunciar a abertura de concurso para instalação
dum pelourinho novo, inteiramente automatizado e muito mais rentável, a ser
explorado por uma empresa privada.
Etc. Etc… »…
Tudo isto é horrível e condenável.
Desprestígia a função política, mina a confiança, estraga a linguagem. As
palavras, quando descontroladas seguem o seu caminho, corroendo, tingindo,
envenenando.
É preciso cuidado com as
palavras.
Bom seria que os políticos, os
jornalistas e os contadores de «potins» se moderassem e evitassem expressões impensadas
que se vão infiltrando nas mentalidades e abrindo o caminho para a violência, (os
caminhos para a violência são muitos e escondidos, por vezes…)
E algum que eu apanhe a insistir nessa
tecla, racho-o ao meio, arranco-lhe a pele faço-o em picadinho miudinho para
croquetes.

