Escapou, possivelmente, aos
jornalistas que andam demasiadamente ocupados com a crise na AD, a vinda a
Lisboa de três membros importantes da AIHFGOU (Associação Intemporal dos Homens
que Fizeram Grandes Obras Urbanas) para informá-la acerca do pedido (feito «in
mente») pelo fosso Homem local em Lissba, para ingressar naquela organização.
Acontece que Ele não estava
disponível por ter de despachar com uns do CDS por causa de certos terrenos «a renovar»,
e depois ter que ir inaugurar um retiro de fados municipal, e por isso teve que
destacar um funcionário da D. S. de Urbanização da Câmara) para os acompanhar
numa visita breve à cidade.
O nosso repórter, sempre atento,
conseguiu gravar a maior parte dos diálogos havidos (que se reproduzem fielmente)
com os delegados da AIHFGOU: — O Papa Sisto V, que no séc. XV abriu os grandes
eixos viários ligando as basílicas de Roma; o Barão Haussman que, no tempo de
Napoleão III abriu os grandes boulevards de Paris; e Hippodamus de Mileto,
grego, primeiro grande teorizador da arte urbana.
Sisto V preside à Associação
durante este Século. A presidência é rotativa; Le Corbusier, por exemplo, não
terá chances de se candidatar antes do Século XXIII. A sede da Associação é em
Utopia, e tem como Secretário perpétuo Platão (espécie de Júlio Dantas
transecular que está em todas...).
O intérpretesé, um português,
Rafael Hitlodeu, marinheiro, pessoa muito relacionada com Utopia.
O funcionário da DSU, depois de
ter mostrado aos ilustres visitantes a Cidade, conduziu-os ao Largo de Martim
Moniz, onde se registou a conversa que foi possível registar e aqui se
reproduz:
Sisto V — Isto foi deitado abaixo
por Ele, ou foi guerra?
Funcionário — Não, Isto foi de
uns anteriores, mas que não se candidataram à Associação. Começaram, mas depois
hesitaram e isto foi ficando assim...
Haussman — Acho isso um bocado
estranho porque eu cá, quando deitei abaixo, construi logo. Cada «boulevar»,
rapazes!... Tudo bem alinhadinho por causa de conservar boas linhas de tiro
para conter a canalha em caso de motim. A mim, isto, para tiro de metralhadora,
parece-me curto e largo de mais. E como negócio, ao menos é bom? Ao menos para
os amigos?
Hippodamus — Lá está! Eu cá fico todo roído
sempre que ouço falar nisso. Em Mileto não havia sobrevalorização nem especulação,
só os grandes ideais, os grandes conceitos simbólicos e místicos e essa treta
toda, e com isso não se ganha nada. Se ao menos eu tivesse ganho algum por
fora, para uma vivenda de férias em Samos... que raio de tempos em que vivi!...
S.V. — Hippodamusl Dignidade!
Está gente de fora a ouvir!...
Hipp. — Ao menos umas caixas de
ânforas de vinho de Cos, que diabo! Mas não havia empresas de construtores
civis e promotoras, nem nada! Soubesse eu o que sei agora...
Hauss. — Mon cher Hippo! Antes de
Cristo não podia haver Democracia Cristã, obviamente...
S.V. - E daí? Não comece, Barão
Haussman, não comece. Essa do cristianismo é comigo que fui Papa? E além do
mais democracia era até coisa de gregos. Nunca fui muito nisso, ouviu?
F — Bem, ghum, hum, eu começaria
por dizer que aqui, o que se pretendeu foi fazer uma obra bem necessária, para
acabar com o estado deplorável desta zona demolida, dar nova fisionomia a tudo
isto, que de resto era uma velharia infecta antes de ser demolida. Isto é uma
grande coisa. hein! é ou não é bom?
S.V – Bom, você é novinho e
portanto, para não o desmoralizar com estas nossas conversas de velhos
brincalhões que têm a eternidade toda para caturrar, vamos então falar-lhe a
sério.
Oiça, isso, como diz, é bom, em
princípio. Como muitas outras coisas são boas em princípio, e é bom respeitar
os princípios. Mas é preciso percebê-los e defini-los bem. Ora ao longo dos
séculos ou dos anos, onde há muitos homens, muitas vidas, multas memórias, muitas
necessidades, muitas vontades, muita história acumulada que foi ditando e
formando essa coisa complexa que é uma Cidade, não pode enunciar-se assim com
tanta simplicidade esse princípio.
Repare: se toda a gente se lembra
ainda de nós, é porque fizemos intervenções que julgamos necessárias, em
grande, obedecendo a uma ideia de conjunto, para determinado fim, e fizemo-lo,
ah! lá isso fizemo-lo. Fizemo-lo brutalmente, violentamente. Não é que nós
fossemos pessoas violentas, percebe? Pessoalmente até somos gente cordata...
O que fizemos é que foi uma
violência, em si mesma, por ser um corte brusco e instantâneo na corrente da
acção acumulada de gerações e gerações de homens. Acontece que, com o passar do
tempo, o resultado do que fizemos acabou por trazer algumas vantagens, que
talvez façam esquecer agora as malfeitorias que então tivemos de fazer. Talvez...
mas passados tantos séculos ainda temos dúvidas.
Hauss — E há os outros, os
tais...
S.V. — Ah, pois! Aqui está uma
coisa que você deve saber: na nossa Associação estão os que a História lembra
como tendo conseguido resultados que se podem chamar positivos. Mas, e os
outros? Sabe você quantos sacripantas que tiveram o poder nas unhas o
aproveitaram para fazer violências urbanísticas indescritíveis, e agora ninguém
quer ouvir falar neles? Sabe? Não sabe, nunca pensou nisso. Nunca ouviu por
essas cidades fora as recriminações, as acusações, os mamarrachos anónimos, os
desastres paisagísticos e urbanísticos em que já ninguém quer senão esquecer
quem os cometeu?
Hipp. — Cá de mim nunca ouvi
dizer nada...
Hauss. — Outros tempos, Hippo. Você
trabalhava em campo aberto, ali, de novo, onde pouco ou nada havia. Em cima da
prancheta, e em campo aberto, não há grande perigo de fazer injustiças ou
violências. Podem é fazer-se coisas chatas ou coisas duvidosas ou erradas. Como
é que se chamam aqueles rapazes novinhos do Brasil?
F. — Mas aqui não há perigo de
incompetência, porque Ele vai escolher entre três dos melhores grupos de
projectistas cá da cidade, e pode gostar-se ou não mas são muito bons!
S.V. — E nós, não os tínhamos
bons, também? Não confunda, meu rapaz, não confunda! Olhe que não se trata da
mesma coisa. Com certeza que esses três são muito bons. Disso não tenho dúvida.
O que você tem de perceber (pode é levar uns seculozitos... desculpe-me a
piada...) é que a qualidade do
projecto que formaliza a intervenção, não anula a natureza da intervenção, e esta é violenta. Os projectistas pouco
podem fazer, quanto a isso.
F. — Mas a violência já estava
feita — foram os outros, antes, que deitaram isto abaixo! Este, só quer
aproveitar para fazer uma obra que é necessária e fazer umas coroas para a Câmara,
que bem precisa...
S.V. — Isso das coroas é ainda
outra história que eu não tenho agora tempo para lhe explicar. Talvez você
possa aparecer lá pelo século XV? Não? Bom, mas quanto à outra questão, meu
rapaz, pense bem e veja a que é que isso conduz, quando se aceita que as coisas
sejam assim: não foi guerra nem desastre que causou esta demolição. Certo? Foi
a acção de uma vontade, com que se pode concordar ou não, mas que criou um facto, que exigiu depois
solução. Certo? Então, uma vontade semelhante pode, a qualquer momento, criar
um facto semelhante — olhe, noutra zona desta cidade, por exemplo no Bairro
Alto, onde almoçamos hoje: sabe você que nos nossos arquivos, temos um plano aí
do meio deste século, que previa prolongar essa Rua Castilho por cima do Jardim
Botânico, rasgando o Bairro Alto até àquela praça do Ca- mões? O que é que você diria a isto, hoje se
se tivesse cumprido a vontade de esse ou esses fulanos que hoje já ninguém
relaciona com essa ameaça? Era preciso agora dar solução a essa monstruosidade
que na altura parecia a consagração de alguém, uma ideia genial aos olhos do megalómano
de serviço na época não era? Era ou não era?
F. — Mas isso não se faria agora.
Sei lá, haveria protestos e tudo. Sei lá, não aconteceria, com certeza...
S.V. — Repito: era ou não era?
F. — Mas não é o caso, reparo
que... sei lá... olhe…
S.V. — Mas você não percebe,
realmente? Não estão em causa pessoas (que caem no esquecimento muito rapidamente)
nem competências. O que está em causa é o princípio: o assumir-se como natural
uma coisa que é manifestamente uma arbitrariedade. Vocês têm princípios? Ou já
não se usam? Vai muito mal a vocês se não conseguirem perceber os princípios,
nem entender que tem real importância. Olhe que muitas coisas desastrosas têm
acontecido — e não estou só a pensar em urbanismo — quando não se tomam a sério
os princípios.
F. — Mas então Santidade, então
nas cidades velhas não se faz nada nunca porque é violência? Fica tudo sempre
na mesma?!
S.V. — Em primeiro lugar não seja
impertinente, que não tem idade nem categoria para me falar nesse tom. E em
segundo lugar, se eu lhe digo que fazer as coisas de determinada maneira é
perigoso e errado, isso quer dizer porventura que não se devem fazer coisas nenhumas?
Se você tivesse dois dedos de juízo perceberia que pelo contrário, o que eu
digo é que se devem fazer coisas, e muitas, mas não assim. Como dizem no
Brasil, onde fomos há tempos por causa de uns que fizeram uma certa coisa lá
num planalto. — «Não dá para entender»?
F. — Então como era? Repare que
aqui havia mesmo um facto, errado sem dúvida, violento — o que quiser — mas
havia!
S.V. — Portanto, uma violência
corrige-se com outra, é? Vai longe por aí, rapaz. Vai, vai. Aqui, quanto a mim,
convinha bem pelo contrário, adoçar o conflito, proceder por sucessivos e
pequenos ajustamentos, tenteando, procurando que o tecido se reconstituísse — evidentemente
governado por uma ideia, uma directriz, um controlo discreto, permanente e
razoável, actuando sobre uma solução adequada para as infraestruturas. E não se
esqueça que estas também mudam muito...
Porque o mais simples, meu rapaz,
sempre! Sempre! É recorrer à acção espectacular, à grande composição unitária —
ao projecto, à arquitectura com A grande ou com H aspirado... «H'arquitectura»!
Mesmo que às vezes seja notável...
Mas não o fazer, para fugir à
rotina, ao «estado da arte», à facilidade, ao que se usa, ao que dá origem e oportunidade
à grande afirmação da personalidade, requere-se muita coisa, e isso não me
parece que esteja ao vosso alcance. Porque não é questão de talento ou técnica —
isso vocês têm. Uma certa prudência, uma certa cultura colectiva, uma certa
coragem para não fazer o óbvio incriticamente aceite, um certo entendimento de
como funciona e como se cria o enquadramento de uma sociedade, o extraordinário
atrevimento necessário para assumir a modéstia, isso tudo, não creio que vocês
tenham.
Todos, em conjunto, repare! — não
estou a designar ninguém em particular.
F. — Então quanto ao nosso Homem
de agora em Lisboa... acham que...
S.V. — Bem...
Hauss. — Sabe, na nossa
Associação... Convém ter provas dadas... compreende... uma certa experiência...
S.V. — A Comissão Secular terá de
reunir, nós não nos podemos pronunciar como representando a Associação, não
estamos mandatados para isso... e depois ainda há o Conselho Superior Crítico
do Tempo Histórico que tem que dar parecer...
Rafael Hitlodeu (à parte, para o
repórter) — Oiça, você não faz uso disto.,mas a verdade é que há um sócio aqui
de Portugal que entrou no séc. XVIII lá para a Associação, o tal Pombal, que
anda a fazer um escarcéu tremendo. Diz que se admitirem este gajo, ele se
demite da Associação e faz uma campanha nos jornais e o denúncia aos Jesuítas.
Imagine! Aos Jesuítas! Por isso é que mandaram esta delegação averiguar,
discretamente, percebe? Mas não fala nada disto, ouviu?
F. — Mas não são boas as
intenções dele, e o que diz?
Hipp. — As intenções. As palavras.
E as ideias? Não chega, sabe?
S.V. — Enfim, de qualquer modo,
apreciamos muito o acolhimento desta bela cidade, etc. você sabe, o costume, os
laços que nos unem desde tempos longínquos, os mares nunca dantes navegados e
tudo isso. Novos mundos ao Mundo, e coisa e tal. Agora, importante mesmo é que
pensem muito bem em não criar nesta Cidade, que ainda é realmente notável, nada
de brutal ou de irreversível, e, por amor de Deus deixem-se de ambições provincianas
disfarçadas...
F. — Entendi. Já entendi. Já
entendi tudo. Muito obrigado a V. Exas. Vou agora conduzi-los à partida das
18.35 para a Eternidade. Costuma ser pontual, se não houver greve dos controladores
no séc. XIX.



