sábado, 25 de julho de 1981

Lutemos contra os divisionistas

Continuação do texto "Manifesto do MLL"

O MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO DE LISBOA (MLL) AMEAÇADO POR CISÕES INTERNAS 
Lutemos contra os divisionistas!
 
Com pesar devo comunicar à população lisboeta que o glorioso movimento em prol da Autonomia sofre algumas vicissitudes temporárias é certo, mas que atrasarão a vitória final.
Depois da publicação do Manifesto do MLL neste jornal, registou-se um afluxo enorme de adesões entusiásticas — não couberam mesmo no 3° banco da Avenida (ponto de reunião da célula central, secreto, como todos sabem), e tiveram de extravasar para o 4° banco. Mas, e isto é o mais grave, houve infiltrações de elementos adversos e perigosos.
 
A primeira adesão firme, foi a de um pintor com poiso na Brasileira, que insistia que o Chiado era o único e verdadeiro centro de Lisboa e só dali deveria partir o comando das operações. Infelizmente, vim a verificar que a sua intenção era tão somente ter uma organização em que se apoiasse para combater a Fundação Gulbenkian que lhe linha recusado uma bolsa: considerava ele que era um ocupante estrangeiro (a Fundação!) que devia ser exterminado. Ora isto revela uma visão curta dos problemas — não nego que haja muitos provincianos naquela instituição, mas, em globo, não são hostis aos lisboetas — e o dito elemento, perante a minha censura, decidiu afastar-se e criar o seu próprio Movimento dissidente MLL (AG) isto é: «Anti-Gulbenkian».
Por vias escusas e pouco explicáveis fui abordado por elementos do Exército Vermelho Internacional, que se ofereciam para ajudar a destruir o «Establishment colonial provinciano» dinamitando todo o Terreiro do Paço, matando todos os funcionários com direito a uso de automóvel do Estado, desviando um cacilheiro para exigir o resgate de um preso politico deles em Wellington, (N. Zelândia) ameaçando metê-lo ao fundo cheio de gente.
Perante a minha óbvia recusa, pois que isso iria pôr em risco muitos lisboetas verdadeiros e até eventuais provincianos inocentes, um dos nossos, mais exaltado e pouco sensato, resolveu criar o seu próprio movimento dissidente: o MLL (8V), isto é, «Brigadas Vermelhas».
 
 
Fui em certa altura acostado no banco perto do Palladium por uma tipa com sotaque americanizado, excepcionalmente boa (mas aqui devo acentuar que era excepcionalmente boa, destacando-se de longe das senhoras que frequentam aquele trecho da Avenida). Conversámos, e isto e aquilo e tal e coisa e acertar uns pormenores que afinal não ficaram muito claros ou então eu percebi mal; e em vez de ir para o lado do Conde Redondo, levou-me para um quarto do Sheraton onde ao contrário do que eu esperava estavam era uns tipos de cabelo cortado à escovinha que começaram com uma tanga bastante suspeita. Em resumo e para encurtar, mesmo sem ser nomeada pareceu-me que era a CIA a fazer propostas ao nosso heroico Movimento. O que é que eles propunham? Bem, eles muniam o nosso Movimento com fundos praticamente ilimitados, um computador IBM-760, e armamento sobrante do Vietnam a crédito muito favorável, quase dado, — a troco da garantia de que, uma vez que tomássemos o poder e conquistássemos a Autonomia, lhes comunicássemos os nossos ficheiros sobre os comunistas provincianos (e é chato porque nunca nos lembrámos de os fazer e não é fácil inventar à pressa), assegurássemos a liberdade de passagem no Aeroporto a aviões militares para o Médio Oriente, e permitíssemos a instalação de uma poderosa antena de escuta no Castelo (na torre a nascente).
Ora é evidente que eu não poderia aceitar estas condições, o que criou uma atitude rígida e desagradável por parte dos agentes secretos. Sobretudo a agente secreta tomou uma atitude de tal maneira rígida que impossibilitou qualquer colaboração íntima ulterior — e isso, c'oa breca! é pena. Material daquele não anda na Avenida todos os dias!
Fiquei depois a saber com desgosto que conseguiram contactar um dos nossos aderentes da primeira hora que, acto contínuo, criou o seu próprio movimento dissidente MLL (P.O.), isto é, «Pró-Ocidente», e anda para ai a abarrotar de dólares e ainda por cima enrolado com a agente lasca.
 
 
Por um puro acaso, dois marinheiros eslavos sentaram-se ao lado de mim no banco, e acabaram por meter conversa comigo. É certo que eu achei estranho marinheiros tão descorados e de sobretudo e attaché-case — mas foram muito amáveis e levaram-me a visitar o navio deles que estava atracado no cais do Poço do Bispo a carregar vinho. Nunca vi tanta aparelhagem electrónica num cargueiro vulgar; lá isso técnica têm eles em barda!
Bebemos muita vodka, excelente, mas mesmo essa não me toldou ao ponto de não perceber que não eram marujos nenhuns; eram mas era funcionários diplomáticos tentando estabelecer contactos discretos com o nosso glorioso Movimento. Resumindo, o que eles queriam era oferecer-nos todo o seu suporte, proporcionar a jovens lisboetas cursos em universidades de Leste e dezenas de outras vantagens, a troco de que o nosso Movimento, inevitavelmente vitorioso segundo as inexoráveis leis da dialéctica da História, evitasse totalmente qualquer contacto com a China. Queriam também saber se, quando o MLL vencesse, aceitaria que a Estação Marítima de Alcântara servisse como base de submarinos.
Ora é preciso sermos claros: o MLL tem que aceitar todas as ajudas, vindas de qualquer quadrante — mas que sejam desinteressadas. Recusei, liminarmente, e ai tornaram-se desagradáveis, pondo-me de maneira francamente brusca no cais, torci um pé na escada do portaló, e só muito tarde e muito tonto da vodka que é mais forte do que parece é que arranjei um táxi para Campolide a altas horas da noite.
Vim a saber depois (e estas coisas entristecem e magoam), que um dos nossos melhores aderentes tinha sucumbido às promessas dos falsos marinheiros, e tive de o expulsar da organização, ao que ele prontamente respondeu criando a facção MLL {O.P.), isto é, «Oriental-Progressista», que é contrária da P.O. que se vendeu ao imperialismo ianqui.
 
 
Estando nós na clandestinidade mais rigorosa e mais rodeada de sigilo, não chego a compreender que nos tenham vindo entregar no terceiro banco da Avenida da Liberdade um telegrama em alemão, e endereçado assim mesmo, em alemão e tudo. «Dritte sitzbank nächst Palladium, Freiheit Allee, Lissabon». Só posso atribuir isto a uma extraordinária (mas preocupante) eficácia dos nossos CTT. Anunciava a chegada de alguns representantes de um grupo alemão e marcava logo uma hora. De facto, à hora exacta, chegou um Mercedes dos grandes que parou em contravenção sem se ralar nada, e fui convidado a subir. Entraram logo no assunto, enquanto o Mercedes arrancava de volta para o Aeroporto; entretanto uma fraulein muito loura e sisuda, boazona (não tanto como a agente americana. mas vamos lá! em todo o caso...) foi-me passando para as mãos 5 (cinto) dossiers de que já consegui ler o essencial nos resumos em português. Cinco dossiers! Diferentes! Estes alemães...
 
 
É tudo um bocado confuso. Propõem um empréstimo enorme ao MLL a juro muito baixo, até e só no caso de ele ser vitorioso no prazo de 180 dias, findo o qual terá o empréstimo de ser renovado, até à vitória definitiva, mas ai já em condições muito diferentes de taxas e amortizações. Exigem igualmente a redução drástica das despesas públicas da Cidade, para diminuir a taxa de desvalorização do «carcanhol» lisboeta, que ficaria integrado na área do marco (do marco «Deutschmarke» não do marco dos dois amores que é um tal Marco Pauto, e não tem área). Então se o «carcanhol» ainda nem sequer está em curso, é só ainda uma ideia nossa, como é que eles já sabem que se vai desvalorizar em relação ao Marco? Em contrapartida querem ter a concessão exclusiva da instalação de um complexo siderúrgico em Belém, e de um complexo químico no Terreiro do Paço, porque tem bons acessos portuários, fariam concorrência a Sines, e não estão sujeitos às normas antipoluição que estão para entrar em vigor no Ruhr e que saem caríssimo. Não podemos aceitar estas condições, é evidente. Mas quando fiz as contas numa calculadorazinha de bolso que eu tenho (e até toca musica!) fiquei estarrecido! Tanta massa! Será possível? É que mesmo que eu me tivesse enganado num zero ou dois ainda era tanto cacau que me custa crer…
De qualquer modo, a cláusula de que, se o MLL não for vitorioso no prazo de 180 dia, ficará a pagar o empréstimo ao juro de 21%, e em DM depositados num banco de Frankfurt, torna a proposta inaceitável. Inaceitável e ridícula até — se o patrão ou gerente ou lá o que é do Banco de Portugal visse os números do que a gente teria de ficar a pagar, dava-lhe uma coisa logo!
Porque nos batemos por um ideal, não por dinheiro. Queremos Lisboa livre da opressão das multiprovincianas: não é para ir cair nas mãos das multinacionais como outros movimentos autonomistas que nem vale a pena referir, cala-te boca! aí para os lados do mar, percebem, não é?
Mas lamento dizer que um dos aparentemente mais ardorosos aderentes ao MLL se tornou agente daquele grupo em Lisboa, e tive que o expulsar. Felizmente não criou um movimento dissidente: este ficou a trabalhar à comissão, o que prova que nem sequer um idealismo errado o moveu. Também, olha, esta bem para alemães e não se fala mais nisso.
 
Mas o complexo interprovinciano não desarma no seu intuito de colonizar Lisboa, procurando corromper a pureza dos nossos princípios revolucionários e autonomistas. Apareceu-me um, de Trancoso propondo-se vender ao MLL uma partida de 200 casais de corvos, que são o emblema do nosso amado e heroico Movimento. Não pudemos aceitar Corvos, só criados em Lisboa ou vindos do Algarve numa barca (a razão histórica desta restrição é evidente).
Do Porto veio um oferecer baratos 100.000 autocolantes com propaganda do MLL, desde que trouxessem também publicidade a uma marca de «binho bierde» como ele dizia. Fizemos contas e verificámos que faziam preços abaixo do preço do custo do material — típico exemplo do «dumping» do complexo provinciano para esmagar a nossa indústria tipográfica do Bairro Alto. Nossa, isto é, a parte que não está nas mãos deles: e portanto inaceitável. Seja como for, o problema é académico porque não temos fundos neste momento para uma bandeira quanto mais para autocolantes. E até para a bandeira, pensando bem, não faz falta, como nos observou um dos nossos aderentes: na clandestinidade, as bandeiras não se usam.
 
Os perigos a que está sujeita uma organização clandestina e revolucionária como a nossa são na realidade enormes. Imagine-se que se acercou de nós, no nosso banco secreto da Avenida um oriental, chapadamente japonês, que depois de muitas mesuras pronunciou correctissimamente a nossa conhecida senha secreta «léo LisboódiérioieóLisboa». A cada mesura fazia ouvir a frase mas de modo perfeitíssimo, inconfundível. Era alucinante; estávamos mudos e varados. Não há lisboetas assim, de pata curta, com cara de Mister Toyota e tantas máquinas fotográficas penduradas ao pescoço. Até que por fim, com largo sorriso que lhe fez desaparecer ainda mais os olhos, nos mostrou um gravador minúsculo metido na lapela, de onde saia a intervalos a nossa senha que linha feito gravar antes a um ardina no Rossio.
Incríveis, estes japoneses. Incríveis.
Em resumo este propunha-se equipar gratuitamente o MLL com material electrónico e televisores a cores desde que este, quando vitorioso, obtivesse a autorização para a entrada em Lisboa Autónoma, sem direitos de importação e de reexportação para a Europa de todos os produtos das firmas do grupo que representava, isto assumindo que nós, quando Lisboa Autónoma ingressássemos na CEE como membros de pleno direito. Caramba! E o que ele tinha no mostruário! Desde transístores a petroleiros de 1.000,000t!
O mais desagradável de tudo isto é que um rapaz que eu contava como futuro lugar-tenente, e tem uma lojazinha de rádios, aproveitou-se da situação e ficou com a representação, formando uma dissidência MLL (L-M.N-L), isto é, «Lisbo-Mitsubishi-Nissan Ldal E tive também que o expulsar.
 
 
O Movimento vê-se assim rodeado de sérios perigos. Os Ideais tendem a corromper-se, e quando se instala a divisão no seio daquilo que se destina a dar um futuro radioso aos mais legítimos anseios de uma minoria oprimida, vê-se que o imperialismo provinciano está de mãos dadas com os imperialismos internacionais.
Mas a fé indomável dos alfacinhas não irá esmorecer perante a traição daqueles que, esquecendo-se do passado nobre desta cidade, se vendem aos interesses do sistema provinciano-internacional.
Lisboa será livre e autónoma.
 
O Movimento de Libertação de Lisboa continuará. Os que caírem no campo do dever cumprido serão substituídos por outros heróis até à vitória que nos acena, lá muito ao longe. As primeiras lutas da insurreição travam-se já. Com o maior júbilo comunico que um nativo de Xabregas, simpatizante do MLL e contínuo do Ministério do Trabalho fez engolir uma mosca a um chefe de repartição que é de Castelo Branco. É apenas uma pequena vitória mas é já um passo na luta de gigantes que se aproxima.
O colonizador provinciano desmascarado será expulso, e nunca mais se dirá que são os lisboetas os culpados do que de mau acontece à província e que até é muito bem feito, quem é que os mandou vir para cá? Ficassem lá a tratar do gado e das terras que já não tinham razão de queixa — mas é a Inveja, é o costume...
 
UNIDADE! UNIDADE! LISBOETAS? ALCEMOS BEM ALTO A BANDEIRA DOS TRIÂNGULOS BRANCO-NEGROS CONTRA O PROVINCIANO OPRESSOR, MARCHEMOS, CANTANDO O NOSSO HINO!
 
Hino afinal que até nem está pronto, porque descobrimos que o fadista que o estava a compor é de Portalegre, portanto inaceitável. Mas por enquanto cantemos o «Ai, Mouraria«, e ao som dos seus empolgantes compassos, lutemos por uma Lisboa dos lisboetas, verdadeiramente antíprovinciana.
 
Lutemos contra os movimentos divisionistas, falsos defensores da autonomia gloriosa dos alfacinhas!
 
UNIDADE! UNIDADE!
 
J. P. Martins Barata
Presidente e infelizmente ainda o único membro do único Movimento de Libertação de Lisboa verdadeiramente ortodoxo.
(Na clandestinidade).