Há no estrangeiro publicações bem
conhecidas, que dão conta pormenorizada de quem é alguém com destaque na nossa
sociedade.
Há também os colunistas sociais,
as revistas de escândalos, a bisbilhotice e má língua organizada, atingindo
mais ou menos «gente». Em conjunto, essas publicações têm a função social
importante de dar às pessoas que nelas são mencionadas, uma confirmação
suplementar da sua própria existência (a maior parte dos colunáveis, na
verdade, têm sérias dúvidas sobre a sua própria existência) e isso é muito bom
para eles do ponto de vista do equilíbrio psicológico e da dúvida metafísica.
Na «D. Xepa» via-se a luta suja que uma fulana mantinha para ser colunável.
«Colunável» significa ser mencionada por uma pessoa que até, à partida, nem
sequer nos merece a menor consideração...
Mas aqui não.
Nestas páginas vão consagrar-se
figuras realmente importantes e significativas da Cidade — e isto, numa das
mais prestigiadas publicações periódicas portuguesas. As invejas e as cunhas
para aparecer nesta página, vão ser mais do que muitas, portanto. Por isso,
para evitar melindres, far-se-á o contrário do costume: em vez de pessoas com
nomes verdadeiros mas muito pouco reais, como costumam aparecer nos Who's Who,
aqui, pessoas bem mais plausíveis aparecerão com nomes supostos, o que é muito
mais divertido!
De vez em quando, iremos
completando e actualizando esta visão implacável de «quem é quem» nesta cidade.
JOSÉ VASCO NUNO MIGUEL MARIA DE BRAUN E SARMIENTO VON GEROLSTEIN Y
ALBACEROS REYNOLDS DU BESANÇON E LOPES (n. em Lisboa, 1936)
Zé Lopes é actualmente 3º
escriturário na Junta dos Produtos Pecuários. Será eventualmente ministro da
Protecção da Zona Bentónica e sua Fauna, se for necessário meter mais um PPM no
Governo. Se não for, tem mesmo de candidatar-se ao 6º lugar na lista da AD para
a Freguesia de Arroios, porque já não há mais nenhum militante do PPM
disponível (o último dos 57 foi para a lista dos deputados).
O charme e a classe de Zé Lopes
são bem conhecidos, mas não o são tanto as suas preocupações ecológicas: —
propôs uma vez que saísse um decreto-lei que favorecesse a criação
(comunitária, claro) de novas zonas de aluvião quaternário, novas linhas de
água, e novos estuários para os nossos rios visto que ouviu uma vez o Gonçalo
dizer que os que há estão estragados, já.
E há aquela dos pássaros de bico
mole, mas essa, o Gonçalo não o deixou dizer sem lhe explicar melhor o que
aquilo era, e que não era bem o que ele pensava.
Dr. EUFRASINO SOUSA (n. em Lisboa (?) em (?))
Conhecido no seu tempo de
faculdade por «a lêndea» o «invisível» ou o «mole». Nenhum colega se lembra
dele nesse tempo a não ser, vagamente, de um tipo que teve sempre 20 em Direito
Comercial e 20 em Direito Fiscal.
Pessoa muito modesta, e vivendo
sempre longe das luzes da publicidade. Politicamente, julga-se que foi aderente
à União Nacional, ao PCP, à Liga dos antigos Graduados da MP, ou ao PSO, ou ao
CDS, ou até à LCI ou à UDP. Julga-se que é consultor e advogado em Lisboa de
Betlehem Steel, da Exxon, da General Dynamics, da Lever, da Krupp-Thyssen mas
não há a certeza. É presidente da União dos Pequenos Accionistas (UPA!), constituída
por detentores de não mais de 1 % DO CAPITAL DE CADA SOCIEDADE — e ele dá o
exemplo, com a sua proverbial discrição e modéstia e limitação de ambições, tão
necessária à nossa sociedade materialista: tem só 1% DO CAPITAL DA MERCEARIA «Primorosa
da Damaia».
Tem também só 1% dos Supermercados
«Pão de milho»; 1% da «Nigéria Oil» 1% da «Birmânia Rubber»; 1% da «Nippom-Maru
Shipping»; 1% da «Rheinische Allgemeine». Diz-se que aspira modestamente a ter
1% da «General Motors Dupont de Nemours».
Não se lhe conhecem quaisquer
outros gostos, «hobbies» ou amigos.
Não se sabe ao certo onde mora.
Não se sabe se é casado.
DÁDÁ CORALES DE SOUSA (n. em Cascais em 1948)
É tudo mentira, tudo mentira, o
que se diz por aí. Para já não era um milionário grego, em Cannes, era um
italiano vendedor de automóveis e foi em Biarritz. Sei porque a Tucha
Aljustrel, que sabe tudo, me disse como foi. E o colar, ainda por cima, era
falso!
ILDEBERTO BORDALINHAS (n. em Lisboa, em 1940)
Arquitecto. Desde muito novo,
militante progressista e antifascista. Lutou sempre nas Belas-artes, contra o
academismo reinante, chateando o Cristino e o Cunha, situando-se sempre na
vanguarda de todos os movimentos, quer dizer, assinou sempre as revistas todas
e farejou sempre antes dos outros o que se iria usar. Cita-se dele uma frase
memorável, que consensa por assim dizer todo o seu pensamento: «Isto é uma proposta
formalmente capaz de pôr em causa a apropriação do espaço formalmente compreendido
como social pelas classes detentoras, pá, do capital, pá. Eu faço uma
arquitectura frontalmente anti-burguesa e anti-imperialista, sem concessões,
pá, a qualquer decadentismo».
É (agora) um pós-moderno de
tendência johnsoniana. Obras principais: Moradia para os Viscondes do Abelhal,
em Cascais, Projecto (não construído) para o Monumento aos Heróis caídos na
defesa do Ultramar Português, em Cotomil; Agência em Lisboa do Chase-Manhattan
Bank; Boutique «Hom's & Fem’s» em Cascais; novas instalações para a Policia
em Oeiras; urbanização «As Camélias» para a Urbicol-Construtal, em
Odivelas-Norte.
ANTÓNIO ABRAVEZES (n. em Cotomil, em 1929)
Começou como empregado de
armazém, trabalhando de sol a sol carregando sacos de milho. Depois começou a
negociar com milho e abriu uma pequena loja de rações para aviários. Expandiu
depois a sua actividade para a exploração de aviários e óleo de milho. Criou
firmas de importação de milho e de exportação de óleo de milho. É um dos maiores
exportadores de óleo de milho e importador de milho. Criou o «Banco do Milho»
hoje integrado na Sociedade Nacional de Bancos, com interesses no milho, no óleo
de milho, na Petroquímica, na construção naval, na actividade imobiliária, no
turismo e na siderurgia. Colecciona obras de arte, sendo um dos mecenas do
revival do ponto de Cruz em Cotomil onde criou a Fundação Abravezes para esse
fim. A Fundação, com fins não lucrativos, é evidentemente dedutível para
efeitos fiscais. O consultor fiscal da Fundação é o Dr. Eufrasino Sousa, que também
tem 1% das acções do Banco do Milho. As novas instalações da F.A. em Cotomil,
são projecto do Arq. I. Bordalinhas.
JOÃO CANAVEZES (n. em Cotomil, em 1927)
Começou como empregado de armazém,
trabalhando de sol a sol carregando sacos de aveia. Depois começou a negociar
com aveia e abriu uma pequena loja de rações para aviários. Expandiu depois a
sua actividade para a exploração de aviários e farinha de aveia. Criou firmas
de importação de aveia e de exportação de farinha de aveia, é um dos maiores exportadores
de farinha de aveia e importador de aveia. Pensa entrar na actividade
financeira a partir da sua actividade comercial.
JOAQUIM PALAVEZES (n. em Cotomil, em 1968)
Começou como empregado de
armazém, trabalhando de sol a sol carregando sacos de centeio. Tem um largo
futuro à sua frente.
DR. JOSÉ DA SILVA E SILVA DE SOUSA E SOUSA FERREIRA E FERREIRA
Bem conhecido nos seus tempos de
Coimbra pela sua espirituosa mas austera defesa da Praxe (ainda dentro do Seminário!)
contra as novidades introduzidas na Igreja por Leão XIII. Depois, na Universidade,
também foi a favor da Praxe. Tem feito a sua carreira na magistratura,
distinguindo-se pela sua perfeita isenção e abertura. Essa abertura de espirito
manifesta-se até na apreciação tolerante que faz dos jovens progressistas: —
«Não aceito as ideias destes rapazes novos revolucionários como este Freitas do
Amaral, mas com o tempo, ainda pode vir a ser um moderado, e até um conservador.»
Recusa, liminarmente, toda e
qualquer insinuação de não ser imparcial politicamente, nos tribunais de
diversa plenitude a que pertenceu. Em relação a todas as ideias políticas ele é,
e sempre foi, inteiramente imparcial. O que há é o seguinte: para ele,
socialistas e comunistas e essa corja toda, isso é tudo de direito comum, como carteiristas,
vígaros, etc. Portanto, em relação a ideias propriamente políticas ele é
inteiramente imparcial, como sempre foi e tem demonstrado.
O «GUGAS DA LEITARIA» (n. em Odivelas, em 1965)
Não se conhece o seu nome exacto.
Foi aprendiz de mecânico na Musgueira. Apareceu integrado no grupo «Gillette de
Duas Lâminas» e saltou logo para a primeira fila com a criação do célebre tema
«Porra, porra, abre a lata» que atingiu 27.000 singles. Passou para a fase
punk, criando então o seu próprio grupo «Os Rebitadores a Frio da Lisnave», que
com a saída do Roque do Gamanço por causa de ter ido dentro, passou a ser «Os
Controladores Aéreos».
Agora, está em cheio no êxito
nacional e internacional, tendo convites para actuar em Los Angeles, Berlim,
Chicago, Manchester, Liverpool e Aveiro.
Aveiro já está em vias de concretização
se se arranjar camioneta para a tralha e o grupo.
É um profundo conhecedor do
fenómeno musical moderno, mas é controversa a sua afirmação, feita debaixo de
grande pedrada, de que os Reggae são música de Pretos que regam os parques de
Londres. Com a sua prática inicial de mecânico, pensa iniciar um «revival
Motown», recriando o «Detroit Sound» sob a forma «Odivelas Sound». Se não
conseguir, volta a tentar o exame da 4ª classe, e pedirá ao Sr. Teixeira para
voltar para a oficina da Musgueira, rodar válvulas.









