Bom tempo agora para falar de
espaços verdes em Lisboa.
Os urbanistas (essa curiosa
espécie profissional...) usam pintar a guache verde nas plantas de apresentação
dos planos, certos intervalos entre as inevitáveis torres e as inevitáveis
cretinas habitações em banda contínua. Nas maquetas, o verde também fica muito
bem: realça o branco das paredes e o negro do asfalto.
Espaços verdes portanto,
correspondem a espaços pintados a verde nas plantas, e representam uma ideia aliciante:
lisos relvados vicejantes. Em França são «pelousas». Em Inglaterra são «greens».
Em Lisboa são «terras». Isto é,
espaços cor de pó, carecas só com uma espécie de restolho curtinho, cardos, um
ou outro arco de pipa, algum eventual gato morto, o pneuzito rebentado, as
várias embalagens de detergente — o complexo ecológico, em suma, dos espaços
livres da capital.
Se eu um dia viesse a ter que
aprovar ou reprovar os estudos de urbanização apresentados a Lisboa, chumbaria
logo ali, à partida, os que apresentassem espaços livres pintados a verde. Só
os aceitaria quando voltassem com o problema estudado, ou pelo menos,
honestamente, com os espaços livres na planta coloridos a cores quentes,
terrosas e variadas. Antes disso, não.
O prof. Caldeira Cabral, se não
estou em erro, pensou em tempos tentar adaptar para uso na jardinagem urbana
certos arbustos da flora espontânea portuguesa. Não sei se continua, ou outrem
continua, essa obra meritória — criar «espaços verdes» decentes, mas rudes, de
sequeiro, exigindo o mínimo de conservação.
Enquanto não se conseguir a
técnica, e antes da técnica, o gosto e a compreensão do que é natural e
apropriado ao nosso solo, ao nosso clima, às nossas finanças e aos nossos olhos,
continuará a viver-se na nostalgia macaca dos «rolling greens» do Midllessex,
em Chelas, ou nos «boulingrins» e «pelouses» da «Ile-de-France», em Telheiras.
As mesmas pessoas muito cultas,
muito evoluídas, muito «à la pague» que se riem da época em que se copiavam os
chalets suíços ou os castelos do Harz, nem pestanejam quando olham para uma descarada
macaqueação de um elemento paisagístico que nos é profundamente alheio. E aos profissionais paisagistas (aqueles,
evidentemente que não tenham tudo a
ganhar com o fornecimento de relvados pelas firmas com que trabalham...) sempre
direi que a função de recolha e absorção da água pluvial para compensar as
perdas da toalha freática, a retenção da humidade superficial durante o ciclo
diário e a criação de espaços laminares de ar parado perto do solo para
armazenamento da energia irradiada durante o dia, não implicam o uso de
relvados impecáveis, isentos do menor trevozinho ou escalracho!... Para mim,
não venham com essa! Vêm de carrinho.
E por trás da falta de coragem de
assumir o nosso clima e a nossa situação meridional (espécie de «pobreza
envergonhada» geográfica), há ainda mais quanto aos relvados:
— Dar a uma determinada espécie ou
raça privilegiada arbitrariamente, o exclusivo do direito de existir em
determinado espaço; vigiar constantemente a menor veleidade de fuga à
uniformidade imposta e proclamada como virtude ideal; exterminar cruelmente por
meio do violência física, de meios químicos e até de manipulações genéticas
outras espécies concorrentes; tudo isso foi condenado em Nuremberg como odioso
racismo totalitário, criminoso genocídio e terminal aberração fascista — quando
se trata de gente.
Mas torna-se louvável quando se
trata de erva!
Portanto:
«Abaixo o fascismo vegetal!
Abaixo o racismo das chamadas raças superiores de erva! Queremos espaços verdes
pluralistas e respeitadores dos direitos dos vegetais, antitotalitários e
ecologicamente livres! Relvados em Lisboa só servem o imperialismo da grama
vendidos às multinacionais químicas da «Shell» e da «Bayer»! Os genocidas fora
de Lisboa!»
E volto a afirmar que
(contrariamente ao que já tenho ouvido dizer), nesta coluna só se fala de
assuntos sérios. É preciso é lê-la com atenção.

