Há profissões e actividades que
constituem, para quem não as conhece e pratica, mistérios mais espessos que as
outras.
Para mim, é a contabilidade.
Há muita coisa que me intriga
nela, a começar pelas designações «DEVE» e «HAVER». Quanto a mim, deveria ser
«DEVE» e «HÁ», ou então «DEVER» e «HAVER» — agora DEVE E HAVER não faz sentido
nem tem gramática. Vários contabilistas militantes apostados em salvar a minha
alma do erro mortal contabilístico, já me explicaram por que é assim, mas já me
esqueci e de toda a maneira devo dizer que era uma explicação muito fraca.
Há depois o mistério do rigor.
Lidam com milhões e milhões (às
vezes em empreendimentos ou firmas que, vamos lá, cala-te boca, a gente sabe
muito bem que andam na maior das bagunças) mas nas contas do fim do ano, ao
fundo de dois brutos riscos em diagonal, encontram-se sempre dois números
igualzinhos até ao avo, centavo, ou milavo. Eu cá, desculpem, acho isso
suspeito: Para já, acho suspeito, em sim
mesmo, um número deste género: 18.627.437$37, em contas de empresas ou
serviços públicos ou privados. Ninguém pode saber essas coisas num qualquer
momento dado, com esse rigor (na física chama-se a isto Principio de
Heisenberg). Depois há a história dos números iguais dos dois lados, tão
certinhos que até irrita. Desconfio que já achei o truque, mas é tão fácil que
até me custa a aceitar que seja assim (e se é, não é lá muito bonito!...): é
ver a diferença entre o que se tem na caixa ou na gavela, e o que lá deveria
estar, dizer que essa diferença é uma coisa qualquer ( «fundo de compensação
aleatório do equilíbrio precário» por exemplo, soa-me bem), somar outra vez,
dizer que está tudo certo e mandar para a tipografia.
Os contabilistas que têm tentado
converter-me (antes de desistirem) procuraram sempre dar, da contabilidade, uma
imagem de exactidão, impessoalidade, frieza, etc. A mim, no entanto, sempre
chegou a imagem de um mundo torvo, e ambíguo, percorrido por correntes subterrâneas
de ódios e traições.
Os «Deve» e os «Haver» são uma
espécie de Capuletos e Montecchios odiando-se mutuamente e lutando a golpes de
intriga e partidas dobradas. ( «Partidas dobradas» sempre me soou a duplicidade,
traição e veneno — a
contabilidade nasceu ou não na Itália renascentista? Estas coisas ficam sempre
marcadas...). Mas os «Deve» regem-se por um imperativo categórico de alto teor
ético: a noção do Dever, algo que transcende as contingências rasteiras da
administração — o verdadeiro domínio do ideal. Os «Haver», pelo contrário, são
sórdidos materialistas, capazes de tudo para atingir a posse e o poder (o «JR»
do «Dallas», por exemplo, é manifestamente um «Haver», chapado.)
Os contabilistas que conheço não
gostam desta minha interpretação.
Assim como também não gostam da
leitura que faço de uns livros deles que têm nomes bizarros — o «Razão» e o
«Diário».
Outro pontapé na gramática:
deveria ser «A Razão» e não «O Razão», mas os contabilistas, gramática, está
visto...Mas o «Razão» fascina-me — há nele qualquer coisa de Kantiano, no
estilo «Crítica do Razão Puro» ou «O Razão como categoria universal». O Razão
supõe-se cheio de silogismos no modo CESARE, CAMESTRES, BARBARA, etc. essa
mafia toda que se infiltrou na lógica. Suponho eu, pelo menos, que nunca li
nenhum.
Já o Diário não. O Diário
sente-se como registo intimo e subjectivo da evolução da atitude para com os
negócios da empresa, sensível a certos dias de «Vague a l'âme» comercial, e a
certos frémitos de angústia existencial e fiscal. Gabriel Marcel e Proust
aparecem como expoentes deste tipo de contabilidade.
Uma certa experiência de
juventude, em que tive, com outros, que manter as contas de um pequeno clube,
deu-me toda a perspectiva que marcaria a minha vida em relação à contabilidade:
fartos de verificar que o «DEVE» nunca condizia com o «HAVER», tomámos uma
decisão genial e drástica: reduzimos tudo a uma única coluna que dizia
realisticamente e rigorosamente.
«DEVE não HAVER!»
Dai, para diante bateu sempre
tudo certo. E o clube prosperou.
