quarta-feira, 15 de julho de 1981

Contabilidade

Há profissões e actividades que constituem, para quem não as conhece e pratica, mistérios mais espessos que as outras.
 
Para mim, é a contabilidade.
Há muita coisa que me intriga nela, a começar pelas designações «DEVE» e «HAVER». Quanto a mim, deveria ser «DEVE» e «HÁ», ou então «DEVER» e «HAVER» — agora DEVE E HAVER não faz sentido nem tem gramática. Vários contabilistas militantes apostados em salvar a minha alma do erro mortal contabilístico, já me explicaram por que é assim, mas já me esqueci e de toda a maneira devo dizer que era uma explicação muito fraca.
Há depois o mistério do rigor.
Lidam com milhões e milhões (às vezes em empreendimentos ou firmas que, vamos lá, cala-te boca, a gente sabe muito bem que andam na maior das bagunças) mas nas contas do fim do ano, ao fundo de dois brutos riscos em diagonal, encontram-se sempre dois números igualzinhos até ao avo, centavo, ou milavo. Eu cá, desculpem, acho isso suspeito: Para já, acho suspeito, em sim mesmo, um número deste género: 18.627.437$37, em contas de empresas ou serviços públicos ou privados. Ninguém pode saber essas coisas num qualquer momento dado, com esse rigor (na física chama-se a isto Principio de Heisenberg). Depois há a história dos números iguais dos dois lados, tão certinhos que até irrita. Desconfio que já achei o truque, mas é tão fácil que até me custa a aceitar que seja assim (e se é, não é lá muito bonito!...): é ver a diferença entre o que se tem na caixa ou na gavela, e o que lá deveria estar, dizer que essa diferença é uma coisa qualquer ( «fundo de compensação aleatório do equilíbrio precário» por exemplo, soa-me bem), somar outra vez, dizer que está tudo certo e mandar para a tipografia.
 
Os contabilistas que têm tentado converter-me (antes de desistirem) procuraram sempre dar, da contabilidade, uma imagem de exactidão, impessoalidade, frieza, etc. A mim, no entanto, sempre chegou a imagem de um mundo torvo, e ambíguo, percorrido por correntes subterrâneas de ódios e traições.
Os «Deve» e os «Haver» são uma espécie de Capuletos e Montecchios odiando-se mutuamente e lutando a golpes de intriga e partidas dobradas. ( «Partidas dobradas» sempre me soou a duplicidade, traição e veneno   a contabilidade nasceu ou não na Itália renascentista? Estas coisas ficam sempre marcadas...). Mas os «Deve» regem-se por um imperativo categórico de alto teor ético: a noção do Dever, algo que transcende as contingências rasteiras da administração — o verdadeiro domínio do ideal. Os «Haver», pelo contrário, são sórdidos materialistas, capazes de tudo para atingir a posse e o poder (o «JR» do «Dallas», por exemplo, é manifestamente um «Haver», chapado.)
 
Os contabilistas que conheço não gostam desta minha interpretação.
Assim como também não gostam da leitura que faço de uns livros deles que têm nomes bizarros — o «Razão» e o «Diário».
Outro pontapé na gramática: deveria ser «A Razão» e não «O Razão», mas os contabilistas, gramática, está visto...Mas o «Razão» fascina-me — há nele qualquer coisa de Kantiano, no estilo «Crítica do Razão Puro» ou «O Razão como categoria universal». O Razão supõe-se cheio de silogismos no modo CESARE, CAMESTRES, BARBARA, etc. essa mafia toda que se infiltrou na lógica. Suponho eu, pelo menos, que nunca li nenhum.
Já o Diário não. O Diário sente-se como registo intimo e subjectivo da evolução da atitude para com os negócios da empresa, sensível a certos dias de «Vague a l'âme» comercial, e a certos frémitos de angústia existencial e fiscal. Gabriel Marcel e Proust aparecem como expoentes deste tipo de contabilidade.
 
Uma certa experiência de juventude, em que tive, com outros, que manter as contas de um pequeno clube, deu-me toda a perspectiva que marcaria a minha vida em relação à contabilidade: fartos de verificar que o «DEVE» nunca condizia com o «HAVER», tomámos uma decisão genial e drástica: reduzimos tudo a uma única coluna que dizia realisticamente e rigorosamente.
«DEVE não HAVER!»
 
Dai, para diante bateu sempre tudo certo. E o clube prosperou.