sábado, 11 de julho de 1981

Manifesto do MLL

MLL (Movimento de Libertação de Lisboa)
Libertemos Lisboa do imperialismo provinciano opressor
 
J. P. Martins Barata
(Presidente, e por enquanto único membro do Movimento de Libertação de Lisboa na clandestinidade)
 
Não há dia nenhum em que nos jornais, na TV, na Rádio e em tudo isso não venha a acusação insidiosa ou velada ou então mesmo descaradamente brutal, que pretende traduzir a opinião de uma província pseudo-abandonada e desprotegida:
«Pois claro, quem manda são os tipos de Lisboa; deles é que vem o mal todo, tudo nesta terra é decidido por eles, são os senhores disto tudo, etc. etc.».
Se um alfacinha se arrisca a ir passear à província, é tratado com sete pedras na mão: no café local, se abre a boca e lhe reconhecem o sotaque, é imediatamente alvo de olhares sarcásticos, trocas de palavras em voz baixa, costas que se viram ostensivamente. Como se se tratasse de americanos ou de uma raça inferior com a qual não deve haver contactos que não sejam os que permitam sacar-lhe a maior quantidade de dinheiro possível. Quando volta para o carro, encontra os pneus esvaziados e escrito no pó dos vidros o equivalente a «Go Home!» escrito em português. E uma vez fanaram-me os limpa pára-brisas.
 
O lisboeta é ao mesmo tempo o pária e o maldito deste País (qualquer coisa como ser ao mesmo tempo irlandês e inglês em Belfast...), e estupidamente tem-se resignado a este triste papel. Mas tem de sentir que chegou finalmente a hora de lutar. Chegar, ela até já chegou há que tempos mas ninguém deu por isso, de modo que é agora.
 
Isto tem que acabar.
 
A realidade é outra, e tem que ser proclamada.
O lisboeta é hoje o colonizado pela província.
Trás-os-Montes, ou o Algarve ou a Madeira queixam-se de que os de Lisboa é que mandam e não lhes dão nada. Ah é? Ah é? Pois vá-se aos governos (qualquer dos governos), vá-se às direcções dos Bancos e das grandes companhias, ao Estado (directores-gerais, alguém já viu um, um único, de Lisboa?), aos directórios dos partidos políticos, e contem-se quantos são os lisboetas que lá se encontram em posições de real importância.
Quantos, hein! Quantos?
E a vereação, a Vereaçãozinha da Cidade, a quem é que está confiada? Alguém durante a campanha eleitoral lutou por uma maioria de alfacinhas na CML?
Nada. Nada. É entre os outros, isso sim, que se travam as surdas ou declaradas lutas pelo Poder, as sujas coligações oligárquicas dos interesses regionalistas antilisboetas — os Minhotos tentam tramar os Algarvios, os Transmontanos tentam tramar os Alentejanos, os Beirões e os Madeirenses tentam tramar todos, e quanto ao dr. Mota Amaral ainda está nos Açores (por enquanto). Tudo isto é próprio dos grandes conluios imperialistas, não surpreende ninguém... O que é sujo é fazerem-no de modo a inculcar que a culpa é dos lisboetas!
E estes? Estes, coitados, não passam de escriturários de 3° nunca promovidos, artífices, contínuos, guardas de parques de estacionamento, etc.
Lisboa é verdadeiramente (e literalmente) a capital dos provincianos.
Mas este jornal que, gloriosamente e desde tão longe ostenta orgulhosamente no cabeçalho o nome augusto de Lisboa, qual precioso rubi cintilando na fronte altivamente erguida para o soberbo opressor, este jornal indomável vai ser o veiculo do sinal da revolta —o anúncio da alvorada que despontará, ridente, sobre a Praça do Município como outrora na jornada imperecível de 5/10/10.
 
Levantai-vos contra esta opressão, irmãos do Tejo!
 
Tu, humilde contínuo nascido e criado na Graça, obrigado a levar o copo de água ao soberbo director-geral transmontano, entre mesuras! Tu, digno herdeiro de Ulisses, obrigado a vergar a espinha perante os bárbaros da província, que ainda te acusam de explorares! Tu, laborioso mecânico do Alto do Pina, em cujas veias corre ainda o sangue generoso dos heróis que aclamaram o Mestre, obedeces com sorriso triste e subserviente aos berros do ricaço administrador, feudal recem-chegado das Beiras ou do Alentejo, incapaz de compreender e apreciar uma tecnologia avançada como a nossa!
Tu, lisboeta com tabacaria na esquina (sim, porque os grandes comércios estão nas mãos do colonizador, claro!), tens de aturar a arrogância da Minhota nova-rica; tu, que és um dos já raros descendentes das grandes dinastias de poetas árabes de Ulixbona, e herdeiro legítimo da sua requintada cultura, reduzido a vender a «Surda» e a «Crónica» às filhas dos bárbaros!
Tu, pai apreensivo, que vês nas escolas professores com ominosas origens coimbrãs tentarem fazer perder aos teus filhos a melodiosa e viva linguagem de Alcântara ou Campolide de Baixo e a sua tão peculiar gramática; toda uma riqueza cultural a saque por hordas de pseudo-intelectuais que ainda há pouco guardavam gado ai pelos brejos...
 
Ergamo-nos contra o colonizador, e lutemos!
 
A luta vai ser longa e difícil, amigos alfacinhas!
Eles têm tudo: a riqueza, o poder, o controle dos meios de comunicação de massa, a força bruta. Sim, a força bruta — reparaste já como, maquiavelicamente, os quartéis e as esquadras de polícia estão cheias de soldadesca brutal, vinda da estepe meridional ou das florestas nortenhas, bruta, mal cheirosa, embasbacada perante o que resta de uma civilização superior, e sempre pronta a apalpar, nos bailes, as belas filhas dos lisboetas. O que os ingleses fizeram soltando os «Black and Tan» na Irlanda mártir do séc. XVIII o que foi, senão isto?
O opressor sabe que a coragem indómita dos alfacinhas só pode ser dominada pela força bruta dos tipos que falam «axim».
 
É preciso lutar!
 
São muito poucos os verdadeiros lisboetas, já. É preciso denunciar o genocídio, perpetrado diariamente pelos senhorios vendidos ao opressor, e pelos transportes públicos, poderoso e cruel meio de exterminar lisboetas. Recorreremos à ONU.
Não temos aliados. Os próprios Tripeiros são suspeitos — em qualquer conselho de administração importante lá ressoa o odioso sotaque da Cedofeita ou de Paranhos.
Pior de que tudo isto é a campanha difamatória que o jornalismo e a TV nos movem — até fizeram um programa diário de manipulação antilisboeta, «Pais-Pais». Isto é anticonstitucional até à raiz dos cabelos, claro, mas mostra bem o domínio que as multiprovincianas têm nos «media», lacaios servis do multiprovincianismo imperialista. Por acaso há algum programa diário chamado «Lisboa-Lisboa»? Era logo censurado, sim, censurado pela força dos interesses em jogo, a quem convém amordaçar a voz alfacinha. (Nota a lembrar: investigar de onde é o Proença.)
Aos contínuos lisboetas dos jornais, da RTP e da Rádio peço que, usando das manhas que são próprias dos oprimidos, façam a lista de tudo quanto é jornalista, director, colunista, locutor, etc. de origem provinciana. O mesmo quanto aos serviços públicos e às grandes empresas, até ao nível de chefe de repartição.
Precisamos desses dados para apresentar na Comissão de Descolonização da ONU; então se verá quem dirige realmente este País, se os lisboetas se os provincianos. Então se verá quem tem realmente a responsabilidade do estado a que as coisas chegaram. Então será a bronca, tão esperada e tão necessária, que fará voltar os ocupantes usurpadores, envergonhados, para os seus sertões e Lisboa Livre resplandecerá de novo! Mas tudo isto tem de ser feito no maior segredo porque
 
O inimigo opressor vigia!
 
Organizar-se-ão células do MLL (Movimento de Libertação de Lisboa). Encontrar-se-ão no 3° banco da Avenida, do lado do Palladium, e dirão como senha «léo LisboódiérioieóLisboa», apregoando em voz baixa. É seguro. Só quem for realmente de Lisboa conseguirá pronunciar correctamente estas palavras e ser reconhecido. Imagine-se por exemplo um açoriano, ah, ah essa é boa, um açoriano ou um madeirense por exemplo, ah ah! a anunciar o «Lisboa»... Ah! Ah! Um de S. Miguel, estão a imaginar... Ah, Ah! «lu Lesbua»! Ah! Ah! enfim...
 
A luta será cruel
 
Trata-se de sobreviver, como Cidade, como Cultura, como Raça. Que o contínuo lisboeta oprimido quando levar um copo de água ao arrogante transmontano diretor-geral não hesite em lhe pôr uma mosca dentro (do copo, claro!) — dentro do próprio director-geral, isso só mais tarde, se for necessário recorrer a formas superiores de luta.
Que o aparentemente dócil mecânico alfacinha, perante a altivez descarada do administrador beirão ou algarvio insultuoso, ponha uma pasta de óleo no lugar onde ele se vier a sentar (mas aqui atenção! pode não ser no lugar do condutor — estes tipos costumam ter «choféres» lisboetas a quem escravizam, e isso poderia ir atingir um irmão membro do MLL. Estes cuidados aprendem-se na luta e na observação; por exemplo, nenhum membro da ETA ou da OLP poria impensadamente uma nódoa de óleo no lugar do condutor.)
Que o capelista ou a senhora capelista, quando venderem o «Jours de France» às bárbaras recém-chegadas, impinjam números rasgados, e de preferência que tenham estado à chuva. Idealmente até, a bárbaras que tenham estado à chuva também e fazer o possível para que continuem.
As nobres mulheres lisboetas (a graça e o perfume desta cidade) — também elas devem, como caras companheiras e senhoras a quem endereço daqui as minhas respeitosas homenagens — também elas devem estar na mesma luta e usar de todos os recursos para o combate permanente e impiedoso.
Cabeleireiras lisboetas! Quando uma madeirense ou uma ribatejana vier lavar o cabeio e fazer mise, por exemplo, deixem-lhes subtilmente shampoo na trunfa ou aqueçam-lhes exageradamente as tontas cabeças com aqueles aparelhos que parecem de astronautas. Isto é um exemplo que eu estou a dar, não é? Mas é só um exemplo, há de haver milhentas outras maneiras, mas só me lembrei agora desta. O engenho dos oprimidos não tem, como se sabe, limites.
A luta é de todos.
 
Está a ser composto um fado apropriado para hino do MLL. Infelizmente até já há numerosos provincianos infiltrados nos meios fadistas — a seu tempo se cuidará deles. Amigos! Concidadãos nascidos à sombra venerável do Castelo! (é imagem literária, é um modo de dizer. Podem não ser mesmo da sombra do Castelo, que é o meu caso que sou de Campolide).
 
Queremos uma Lisboa livre e autónoma
 
Temos saídas para o mar, temos reservas florestais em Monsanto, riquezas mineiras em pedra para britar de primeira qualidade para betão armado, procuradíssima; uma agricultura que pode vir a ser florescente se se libertar dos monopólios do complexo agro-provinciano (vejam-se as magníficas hortas para os lados do Aeroporto, veja-se a pecuária ovina nos taludes da Av. Gulbenkian e já agora veja-se a própria Gulbenkian — mas neste caso como Museu).
Temos o Turismo, o Bairro Alto, a Estufa-fria, o elevador da Glória.
Preparemo-nos desde já para a altura em que possamos emitir moeda própria, abandonando a ridícula designação «escudo» imposta peio visigodo invasor ao numerário corrente, e usando entre nós apenas o venerável «carcanhol». E selos, também. Então a Madeira já emite selos, como é? Até talvez se possam emitir já provisoriamente umas séries e ver se os filatelistas os papam: tem-se visto cada coisa que não me espantava.
Demonstremos ao Mundo, e aos pategos da província que a Cidade que festejou os 8 séculos do seu foral, fora o que escorre desde o neolítico, quer voltar a ser livre — sacudindo o jugo das multiprovincianas (que é a forma interna das multinacionais, mas muito mais perigosa e destruidora).
 
Por Lisboa — morte ou glória!
 
Morte ou glória! (de preferência glória, porque a morte é certa já dizia o outro).
Mostremo-nos dignos de Ulisses, de S. Vicente e de Ali-el-Hassan Ben Mussa (este último, pouco conhecido, foi um ilustre comerciante do «souk», de Ulixbona que denunciou, tardiamente, os perigos da invasão dos alanos, dos visigodos, e, curiosamente, dos marçanos de Arganil, o que na época não foi compreendido. E viu-se)