terça-feira, 7 de julho de 1981

Mãe já não quero ir para doutor, quero ir para deputado

A maioria AD na Assembleia da República votou favoravelmente, dominando a oposição, uma melhoria do estatuto e condições sociais dos deputados; e a Imprensa fez-se eco de certo mal-estar público com que tal deliberação foi acolhida.
Ora se foi mal acolhida, foi-o sem razão nenhuma.
Mais ainda! Levando a lógica da AD às suas consequências, vê-se que se começa a fazer justiça a um grupo indiscutivelmente minoritário, mas também, indiscutivelmente necessário à nossa sociedade (tal como o pessoal de voo da transportadora nacional, ou os maquinistas do caminho-de-ferro).
 
Esta coluna, que se situa desde sempre e corajosamente do lado das minorias desfavorecidas, mostrará o que deverão ser logicamente os passos seguintes a percorrer pela maioria AD:
 
— A FORMAÇÃO DO SINDICATO DOS DEPUTADOS
Os deputados estão escandalosamente sujeitos ao que é, no fundo, um contrato a prazo (1) — e sabe-se o que isto significa hoje em termos laborais! A Ordem dos Deputados, ou Sindicato dos Deputados («Sindeput»), exigirá que, uma vez estabelecido o vinculo inicial, nenhum dos associados possa vir a ser excluído do seu exercício sem justa causa conforme a legislação do trabalho em vigor.
Estando claramente definido o «numerus clausus» da corporação, só por morte, renúncia ou atingimento do limite de idade de um deputado é que se abrirá vaga para novas eleições para esse lugar. No entanto, por preocupação com a necessidade de renovação e de abertura de oportunidades aos novos, a idade da reforma será abaixada para os 40 anos.
 
— REGULAMENTAÇÃO DA CONCORRÊNCIA PROFISSIONAL ABUSIVA
Verifica-se que certos corpos profissionais ou instituições tendem a invadir franjas da área da competência dos deputados. Reprimir-se-á o exercício ilegal da função legislativa, cominando penas a quem o faça sem poder apresentar a carteira profissional de deputado e as quotas do Sindeput em dia.
 
— FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO
Será exigível progressivamente a formação especifica a nível superior para o exercício da função deputativa, que hoje ainda está largamente nas mãos de autodidactas ou velhos práticos. O MEIC, através da DGSup. deverá instituir uma Faculdade de Ciências da Deputação, com licenciatura e pós-graduação, conferindo acesso e qualificação à actividade legislativa.
 
— DESCENTRALIZAÇÃO REGIONAL
A concentração forçada em Lisboa da totalidade dos deputados é uma herança de um centralismo ultrapassado, e sinal da «macrocefalia» do País. Não sendo de admitir um SND (Serviço Nacional de Deputados) que relevaria de uma ideologia nitidamente conotada com alguns partidos da minoria, e atendendo a que esta actividade deve ser devolvida ao sector privado por razões de eficiência (2), convém no entanto, subsidiar um sistema de «Apoio à Periferia» em Deputados. As áreas deprimidas do interior estão desguarnecidas de deputados residentes e exercendo localmente.
 
 
— ADESÃO À CEE
O Tratado de Roma, prevendo a livre circulação de pessoas e bens, a livre escolha do local de exercício da profissão, abrirá as portas à invasão por deputados estrangeiros extremamente mais bem preparados, organizados e tecnicamente equipados. Ora, o deputado português não é ainda competitivo em termos internacionais, e não é admissível que nos países do Mercado Comum viesse a encontrar ocupação apenas como «manovra» na construção civil ou coisa assim. (3)
 
Há pois um largo caminho a percorrer no sentido da dignificação do deputado português, caminho agora felizmente encetado pela maioria AD.
 
 
(1) — «Risco Politico», por outras palavras...
(2) — Progressivamente deixar-se-ia a representação por círculos eleitorais e voltar-se-ia à prática antiga, multo mais eficaz e realista (deputado pela Companhia X, pelo Banco Y, pela Sociedade Z, etc...)
(3) — Temos, no entanto, deputados no Parlamento Europeu, multo apreciados, o que prova que os nossos deputados, em condições adequadas, são tão bons como os melhores do Mundo!