Os lordes Ingleses fazem correr
cavalos puro-sangue e hunters irlandeses. Os boyardos russos regalavam-se com o
espectáculo dos seus borzoi em acção contra os lobos. Os emires do Nedjed, nos
seus belos e murzelos de genealogia milenária (oh! maravilhoso «Silfire, para
quem saiba de que é que eu estou a falar...), corriam a gazela vendo o arranque
do Saluki a areia do deserto.
Até o touro de combate era um
espectáculo, em si mesmo, quando ainda não era um gordo animal alimentado a
rações como os frangos de aviário (depois de uma recente e intensa campanha
publicitária a uma certa corrida de touros em Lisboa, a «Queda dos Graves»
deixou até de significar um principio da física Newtoniana...)
Cavalos, galgos, touros, galos,
mastins: o animal levado ao extremo da eficiência, da rapidez, da força, da
coragem e da nobreza. O passatempo dos fidalgos e dos ricos, o «hobby» por
excelência dos snobes, a delícia dos estetas abonados. Coisas, portanto,
claramente fora do alcance do lisboeta médio, empregado ou quadro, nove às
cinco e mês de férias, condenado a encontrar o auge da estesia na telenovela e
no futebol.
Nunca criará um puro-sangue.
Nunca soltará uma trela de
greyhounds à lebre (e onde o faria? no Rossio, porventura?). Nunca verá,
certamente, o seu gerifalte abater a garça sobre os pauls.
O animal finíssimo, da raça mais
apurada, em pleno paroxismo da acção para que está maximamente dotado, é coisa
que lhe está vedada.
Mas não a mim.
Eu não. Eu tenho os meus puros-sangues privativos, e todos os dias gozo deles,
a partir de Maio ou Junho até fins de Agosto, altura em que os mando para
Africa a retemperar.
Ano após ano
desde a adolescência, espero o dia ou a noite emocionante de cada primavera em
que, ao virar a esquina de uma rua ou ao sair de alguma casa, o guincho curto e
acre vem do alto anunciar que chegaram. Nem preciso de olhar, — para mim, a
plenitude do ano começa aí, e não com o renascer da folha.
A malta tosca
chama-lhes guinchos, andorinhões, zirros, sei lá! E não percebe, nem está
preparada para isso, a soberana beleza dos seres alados mais perfeitos que é
possível contemplar. Os citadinos esses não lhes chamam nada e até vagamente e
confusamente os julgam andorinhas (essas estúpidas avezinhas com um voo
enjoativo de patinador vienense, todo em glissandos e tremolos; até a
designação «Dellcon Urbica» é sugestiva de poesias para meninas delicodoces...)
Os zirros não.
Os zirros são outra coisa.
Ninguém lhes
toca, ninguém os vê de perto, parados; estão quando e onde querem, altíssimos a
perder de vista ou raiando vertiginosamente os beirais e as janelas em bando
súbito e estridente; distantes, auto-suficientes, acrobáticos; loucos e
fantásticos; ignorando sobranceiramente o voo burocrático e desinteressante
desses honrados operários de asa que são os pombos; vadios impenitentes,
orgulhosos senhores da vertical, poetas do tridimensional acasalando-se em voo
(setas cadentes momentaneamente unidas no céu, detonações orgásmicas ignoradas
em baixo, sob os telhados, onde a dona de casa põe a mesa ouvindo o folhetim, o
contabilista confronta interminavelmente o Deve com o Haver, e o intelectual
persegue a descriptagem do conceito estruturado ao nível do noema
consciencializante e dado como tal).
Morrem quase de
certeza se caem no chão, porque as asas são tão compridas que não lhes permitem
levantar voo sem se lançarem de qualquer altura ou parapeito: maldição de
tragédia grega. Não são fauna, são mito.
E são meus. Não
os vendo a Rotschild nenhum, não os mando a exposições, não têm prémios nem
livros de pedigree. Mas não me Importo que olhem para eles. Dou licença. Não
tentem perturbá-los (nem conseguiriam, nada os perturba...) mas vejam se os
compreendem e admiram. E se virem um casal de “Cypselus Melba» (maiores, de
barriga franca) que em certos anos voa entre Colares e o Monserrate, queiram
fazer o favor de anotar que também é meu.

