sábado, 20 de junho de 1981

Sayago destruída

Bem, destruída, ainda não. Mas peio caminho que as coisas levam, não tarda multo. Repare-se: o alm. Pinheiro de Azevedo acha que os espanhóis, palavras não entendem, só entendem a força; os ecologistas acham que Sayago é um horror que deve ser eliminado; os israelitas, numa situação em que também não gostam de certa central no Iraque vão-se a ela e fazem-na em pomada com bombardeamentos...
Ponha-se tudo isto junto e tirem-se as consequências. Vá, tirem as consequências, leitores! Eu cá já as tirei, e por isso, para ajudar a Redacção do «DL» vou já redigindo a notícia para adiantar serviço.
 
 
«Sayago destruída!»
 
Esta semana, um comando formado por ecologistas, nacionalistas, sócios efectivos e correspondentes da Sociedade Histórica da independência de Portugal, cantores de baladas de protesto, anarcas, grupos de rock «new-português» da pesada, e um representante da Comissão de Planeamento da Região Norte com direito a voto, atacou a central atómica de Sayago, em pleno território espanhol. A horrível central (que além do mais era construída «à espanhola», isto é, aldrabada e assucatada) não voltará a ameaçar poluir e aquecer a água do Douro.
Um nosso repórter pôde estar presente na fulgurante acção (disfarçando-se de cultivador de energias doces ou renováveis).
Foi uma acção extremamente bem planeada e violenta - nos alvores da madrugada, era impressionante a determinação vincada nos rostos daqueles homens e mulheres que se preparavam para a feroz acção de que tanto e tanto iria depender. Ali se ultimavam os cartazes, se afinavam os instrumentos, se preparavam os mortíferos discursos. Depois o silêncio tenso da viagem no escuro até Sayago, no comboio de viaturas não poluentes; cada um pensando nos entes queridos que ficavam para trás, mães, filhos, professores, assistentes, bolseiros da Gulbenkian...
O ataque começou, por vagas: a primeira onda, comandada por P. de Azevedo, chegou junto aos portões e ao arame farpado, e começou a dizer ali umas coisas fortes, ali à preta, umas coisas de tal maneira fortes que obrigaram os espanhóis a abrir as portas por onde entraram de roldão os comandos da segunda onda, ecologistas. A situação pareceu confusa durante algum tempo; diz-se que Luís Coimbra, faiando de energias renováveis num comunitarismo monárquico pós-industrial rebentou com as últimas defesas e os guardas do reactor fugiram em pânico. Nessa altura, explorando o sucesso, a brigada de demolição deu o golpe de misericórdia - a acção conjugada dos UHF, Taxis, GNRs, etc. num concerto «impromptu» abateu os blocos da pilha nuclear, os breeders e os controlos de arrefecimento. Nada ficou em pé. O repórter viu um filtro de trítium de 10t. ser pulverizado a trinta metros por um único acorde dos «Arte e Ofício».
Os comandos regressaram ao amanhecer, sem perdas, e já em Bragança, tomaram o primeiro almoço (macrobiótico e com alheira e linguiça assada), confraternizando no sentido do dever cumprido. Um historiador da SHIP comentou um precioso incunábulo adequado ao momento.
 
Começaram a chegar reacções, à nossa Redacção:
- O Presidente Reagan ordenou o embargo temporário ao fornecimento a Portugal de dois lotes de raquettes de ténis que estavam para embarcar.
- «A ideia federativa ibérica sofreu um rude golpe» disse o prof. Oliveira Marques, que se ausentou para parte incerta, até ver em que param as modas.
- O Governo mandou regressar todas as criadas de servir portuguesas e o Embaixador no país irmão.
- O Governo decidiu proibir a expressão «pais irmão» substituindo-a oficialmente por «essa espanholada nojenta».
- A pesca da sardinha fica temporariamente sujeita a um comando unificado de intervenção, confiado a um almirante.
- O Conselho de Segurança reuniu-se de emergência, como de costume, todas as sextas-feiras.