Ver o presidente da CML no remelexe, dando às cadeiras, caindo no samba, óba, baiano de St.° António de Lisboa, S. Salvador da Avenida, meu nêgo foi um deslumbramento e uma lição. Assim sim. Assim é que se cimenta na base a amizade luso-brasileira, não é com discursos e tratados, disse ele. Abriu-se uma nova frente (sem alusão ao traje das baianas) nas relações transnacionais, coreograficamente remexidas.
As tão tradicionais marchas da Cidade (tradicionais pelo menos desde que o rotundo Norberto de Araújo e Leitão de Barros as inventaram a pretexto de não sei que passado «ao folambó») são assim um instrumento privilegiado das relações exteriores.
Então porquê só o Brasil?
Abecassis, como bom conservador, acaba de inventar uma tradição, mais uma das inventadas pelos conservadores professos ou profissionais.
Então, vamos a isso!
Há que espalhar o «goodwill» português a todos os povos do Mundo, estabelecer laços profundos sob o arquinho e balão, ao som do «cavalinho» («little horse», «pferdchen», «petit cheval», «loxadka»). Num primeiro tempo, as marchas dos países amigos virão entremeadas com as dos bairros, mas depois seguir-se-á a antiquíssima tradição alfacinha, bem castiça: os bairros virão de «estrangeiros amigos».
Não a mais fidalgos do séc. XVIII, marinheiros de opereta, tafuis à Júlio Dantas, saloios do Parque Mayer, granadeiros do Guarda Roupa Paiva; coisas já sem significado algum. Não! Agora, Alfama virá à escocesa dançando um «reel» bem português; Campolide, como é sua antiga tradição, virá de «bayadera» indonésia; o Castelo, berço da Cidade, virá como nos tempos de antanho, isto é, dançando a square-dance dos cowboys do Far West ao som do fiddle; a antiga valsa vienense, bem lisboeta, alegrará a marcha de Benfica. Alcântara, obviamente, virá de «cossacos do Don».
Assim, também o manjerico e o edelweiss, a sardinha assada e o fish-&-chips, a febra na brasa e o bratwurst fundirão aromas e gostos num universal festim em que a Lusitanidade, sob a égide Antoniana, abraçará num amplexo místico todos os povos da Terra realizando a final Parúsia do Império das Quinas. O Santelmo brotará dos arcos e dos balões, formando o Sinal, o grande Sinal oculto e revelado às gentes, a luz Sagrada da Promissão Lusíada, a Sexta e a Sétima Esferas do Reino Indizível do Ocidente de Sagres.
Então «O Desígnio» cumprir-se-á.
Entre o Marquês e os Restauradores, pelo menos.

