quinta-feira, 4 de dezembro de 1980

What’s in a name?

Como na presente campanha para as presidenciais se tem ouvido já toda a espécie de patetices possíveis, sinto-me relativamente desinibido para apresentar certas ideias muito minhas. Em nenhum caso serão mais patetas do que muito do que já ouvi. E até, de qualquer modo, Ângelo Correia já tem feito intervenções, portanto...
Acontece que o meu nome de família, felizmente honrado, não é realmente agradável. Há piores, claro, mas é evidente que a evocação do animalejo a que os Baratas da minha tribo estão para sempre ligados, estimulou uma certa sensibilidade ao conteúdo dos nomes das pessoas.
Vem isto a propósito do facto inconcebível de que os elementos da comissão de candidatura do Presidente Eanes não se aperceberam ainda de que um dos maiores, se não o maior trunfo latente daquela figura política está no seu nome.
Anos e anos (e aqui sinto-me até tentado ao fácil «pun»: «Eanos, Eanos...») as gerações deste país foram nutridas no culto dos heróis da gesta das Navegações. Qualquer terreola onde tenha nascido um piloto ou um capitão de Quinhentos, lá tem uma estátua com um figurante de franjinha, cabelo à pajem, botas com vira e grosso gibão, espada e astrolábio, tudo em granito. Se for importante, a estátua pode até ser boa, do Francisco Franco; se não for, é doutros quaisquer que as faziam — para esmifrar umas coroas ao MOP e às Câmaras e quem não passou por isso que atire a primeira pedra.
Portanto, um parceiro que tem, à partida, a vantagem inaudita de se chamar Eanes, tem a seu favor, logo ali, secos, 500 anos de História.
Eanes, imagine-se!
 
 
Eanyes, Eannies, ou de qualquer outra grafia quatrocentista que aportuguese o ilustre nome flamengo ao serviço do Infante — é um «asset» eleitoral formidável. Atrás deste nome há mar tormentoso, Escola de Sagres, Fé e Quinto Império, cruzes de Cristo, ouro da Mina, coragem, ilhas na bruma.
Só por acaso é que o suporte actual do nome é um militar lacónico, magrinho, de patilhas e com um permanente mas indefinível ar de estar escalado para serviço, na Ordem do Dia. Se a comissão de candidatura conseguisse que o Presidente, ao visitar uma fábrica, ou inspeccionar um hospital, não o fizesse como se estivesse a passar a ronda do oficial de dia ao quartel; se o embaixador que vai entregar as credenciais não se sentisse friamente perscrutado como o cabo de dia ao render da guarda (e há embaixadores que já confessaram ter saído de Belém felizes por não virem de lá com os cabelos cortados à Eça e sem dispensas de fim de semana...); se o Presidente uma vez, pelo menos, alargando a cintadinha farda número 1 do regulamento, e jeitando-lhe por riba o Doblête, assymesmo bradasse em alta voz «Eia sus, pardeus, cant'elles vyram às uurnas e hi os bateremos!» nem valia a pena ao Supremo Tribunal aceitar mais candidaturas Estava ganha a eleição; desde já.
Ou se é Eanes, ou não se é Eanes; isso é o que eu penso. Como é que alguém chamado Brito, Rodrigues, Carneiro, Otelo (!), Alves, Melo ou Pires poderia alguma vez opor-se à força deste nome?
Eu cá, se fosse ao Presidente que se recandidata, estaria tranquilo, perfeitamente tranquilo. Mas pediria a Deus que nunca, em tempo algum, se me apresentasse como opositor qualquer candidato chamado Pero Zarco da Ançã, ou Lopo Vaz Escudeiro, ou Dinizdyas Soeiro, ou Álvaro Vazques Gil d'Albergaria.
Então nem a CNARPE o safava.