quarta-feira, 10 de dezembro de 1980

Mistério e grandeza na TV

Desligada, a TV em minha casa é uma caixa de plástico amarelo, de correcto mas insípido design, que serve de suporte a um ou outro jornal velho e a objectos indiscriminados trazidos pelo fluir e refluir da vida caseira. Pura aparência. Insidiosa aparência até, que faz com que um aparelho de TV esteja hoje camuflado de «electrodoméstico», apenas um pouco acima de uma fritadeira, e certamente abaixo de uma máquina de lavar automática, com programas para lã e seda. Um dia tem que se examinar isto. Aqui há golpe.
Por trás desta aparência há um cosmos ominoso científico e tecnológico, esmagador. Olho para o vídeo morto, neutro, expectante, e a apetência nasce. Há certa solenidade latente no gesto. O gesto é simples mas carregado de significados. O dedo avança para o botão o gesto vai desencadear a liturgia das micro-ondas, o mistério dos semicondutores, as coreografias infinitesimais dos electrões no meio de fenómenos de campo, torrentes de fotões. Algures (em Sidney, em Ulan-Bator, «nos nossos estúdios do Lumiar»...) grupos de gente atarefada sob projectores ofuscantes afadigam-se a transformar uma imagem óptica em impulsos eléctricos e a irradiá-la, migada fininho à escala dos nanossegundos, perdida pelo éter e milagrosamente recuperada pelas ridículas antenas em forma de esparrela de pássaros, recomposta em luminescências cintilantes de sais no vácuo, sob o choque de partículas aceleradas e deflectidas.
O meu dedo avança, aproxima-se do botão e vai soltar para a realidade da luz e do som o trabalho de cientistas, engenheiros, técnicos e operários incontáveis — a física do estado sólido, as matemáticas de fourier misturam-se com os ferros que soldam micro circuitos, em linhas de montagem onde convergem miríades de produtos de milhentas indústrias; tudo isso vai pôr à minha disposição uma «quantidade de informação» na ordem de dez vírgula zero elevado a cinco vezes aquela, que era acessível a S. Tomás de Aquino ou a Aristóteles. Sem pergaminho ou papiro — por entre florestas de sinusoides, filtros triangulares, black-boxes, amplificadores de fase, harmónicas, white-noise, bits.
 
 
A vertigem do privilégio cultural até dói: em alguns minutos, a Biblioteca de Alexandria é reduzida à insignificância pela exponencial de sinais que vou libertar; o tempo, esse passou a uma quarta dimensão concreta — em dois segundos «realtime» passo do neolítico para uma comédia de Keith Waterhouse, daí para a Nicarágua de ontem à tarde, daí para um satélite de Júpiter há bocado. A vertigem que se próxima. O dedo que avança, trémulo, para o botão.
O momento em que o dedo preme o botão atinge paroxismos de espanto: Mc Luhan dá as mãos a Hertz para que no instante sublime, ali, na ponta do meu dedo esteja a chave do Universo, o domínio maravilhoso do Mundo feito informação, da informação feita imagem, da imagem feita sinal, do sinal feito impulso, do impulso comandado pelo gesto, da final assunção do Ver e do Saber pelo Ser, de um Zen eletromagnético, do final Satori electrónico unificador.
 
CLICK!
 
“... e a prosseguir de Lisboa, o Telejornal com Fernando Balsinha“.
 
CLICK!
 
A televisão volta a ser uma caixa de plástico amarelo, com um vidro cinzento e cego (com dedadas de compota, reparo agora), e um jornal de ontem em cima.
O «Diário de Lisboa», parece-me, daqui.
O de anteontem, com as palavras cruzadas meio feitas.
Palmeira da Amazónia com 7 letras começada por B. Não sei.
Foi isso.