Desligada, a TV em minha casa é
uma caixa de plástico amarelo, de correcto mas insípido design, que serve de suporte
a um ou outro jornal velho e a objectos indiscriminados trazidos pelo fluir e
refluir da vida caseira. Pura aparência. Insidiosa aparência até, que faz com
que um aparelho de TV esteja hoje camuflado de «electrodoméstico», apenas um
pouco acima de uma fritadeira, e certamente abaixo de uma máquina de lavar
automática, com programas para lã e seda. Um dia tem que se examinar isto. Aqui
há golpe.
Por trás desta aparência há um
cosmos ominoso científico e tecnológico, esmagador. Olho para o vídeo morto,
neutro, expectante, e a apetência nasce. Há certa solenidade latente no gesto.
O gesto é simples mas carregado de significados. O dedo avança para o botão — o gesto vai desencadear a
liturgia das micro-ondas, o mistério dos semicondutores, as coreografias infinitesimais
dos electrões no meio de fenómenos de campo, torrentes de fotões. Algures (em
Sidney, em Ulan-Bator, «nos nossos estúdios do Lumiar»...) grupos de gente
atarefada sob projectores ofuscantes afadigam-se a transformar uma imagem
óptica em impulsos eléctricos e a irradiá-la, migada fininho à escala dos
nanossegundos, perdida pelo éter e milagrosamente recuperada pelas ridículas
antenas em forma de esparrela de pássaros, recomposta em luminescências
cintilantes de sais no vácuo, sob o choque de partículas aceleradas e
deflectidas.
O meu dedo avança, aproxima-se do
botão e vai soltar para a realidade da luz e do som o trabalho de cientistas,
engenheiros, técnicos e operários incontáveis — a física do estado sólido, as
matemáticas de fourier misturam-se com os ferros que soldam micro circuitos, em
linhas de montagem onde convergem miríades de produtos de milhentas indústrias;
tudo isso vai pôr à minha disposição uma «quantidade de informação» na ordem de
dez vírgula zero elevado a cinco vezes aquela, que era acessível a S. Tomás de
Aquino ou a Aristóteles. Sem pergaminho ou papiro — por entre florestas de sinusoides,
filtros triangulares, black-boxes, amplificadores de fase, harmónicas,
white-noise, bits.
A vertigem do privilégio cultural
até dói: em alguns minutos, a Biblioteca de Alexandria é reduzida à
insignificância pela exponencial de sinais que vou libertar; o tempo, esse
passou a uma quarta dimensão concreta — em dois segundos «realtime» passo do
neolítico para uma comédia de Keith Waterhouse, daí para a Nicarágua de ontem à
tarde, daí para um satélite de Júpiter há bocado. A vertigem que se próxima. O
dedo que avança, trémulo, para o botão.
O momento em que o dedo preme o
botão atinge paroxismos de espanto: Mc Luhan dá as mãos a Hertz para que no
instante sublime, ali, na ponta do meu dedo esteja a chave do Universo, o
domínio maravilhoso do Mundo feito informação, da informação feita imagem, da
imagem feita sinal, do sinal feito impulso, do impulso comandado pelo gesto, da
final assunção do Ver e do Saber pelo Ser, de um Zen eletromagnético, do final
Satori electrónico unificador.
CLICK!
“... e a prosseguir de Lisboa, o
Telejornal com Fernando Balsinha“.
CLICK!
A televisão volta a ser uma caixa
de plástico amarelo, com um vidro cinzento e cego (com dedadas de compota,
reparo agora), e um jornal de ontem em cima.
O «Diário de Lisboa», parece-me,
daqui.
O de anteontem, com as palavras
cruzadas meio feitas.
Palmeira da Amazónia com 7 letras
começada por B. Não sei.
Foi isso.

