quarta-feira, 17 de dezembro de 1980

Macrocefalia e centralização

Sou de Lisboa e já estou farto, farto até aos olhos, de ouvir acusar Lisboa de ser a cabeça de um corpo macrocéfalo, origem de todos os vícios e erros de este País. Como se nós tivéssemos a culpa! Porquê nós? Aconteceu, olha, aconteceu. Podia ter acontecido a outros, por exemplo a Santarém, que também foi capital do Reino de D. Afonso Henriques durante um tempo. Se tivesse continuado a sê-lo, hoje, o semanário regionalista e independente «O Intransigente Lisboeta» ler-se ia porventura assim:
 
EDITORIAL
Cada vez mais a província sofre com a desmesurada importância de Santarém. Parece que este País é Santarém, só Santarém e nada mais. Tudo ali se decide, no anonimato dos gigantescos ministérios que rodeiam a Praça que o Marquês construiu junto ao rio.
Na verdade, e além do mais, é o País real, a província (isto é, nós!), quem tem de pagar os custos daquela brutal expansão urbana, os seus permanentes engarrafamentos e obras de viação caríssimas, os seus equipamentos sofisticados e ruinosos: basta ver que agora o acesso ao novo Aeroporto Intercontinental da Chamusca que vai substituir o de Benfica do Ribatejo já pequeno e saturado, vai exigir uma ligação em metropolitano sob os densos e tristes subúrbios industriais de Almeirim e Alpiarça, e ainda exigir mais um túnel sob o Tejo para além dos dois que já há e das catorze pontes sempre cheias de tráfego!
A especulação fundiária e imobiliária na zona metropolitana de Santarém são o escândalo conhecido, e o próprio Banco de Portugal já assinalou nos seus relatórios o perigo que representa a excessiva imobilização de capitais que isso origina. E no entanto, quem não conhece os extensos bairros de barracas que se estendem em toda a orla da cidade, desde Vale de Figueira até Alcanhões, e que são a prova evidente da incapacidade dos governos para lutar contra as pressões que actuam no interior das incontroláveis massas urbanas.
Nem as três Universidades, nem a intensa vida cultural de Santarém podem esconder a degradação, a corrupção e a imoralidade que grassam nesta metrópole fumarenta e cosmopolita, onde tudo, finalmente se decide, neste País.
Mas somos nós, as pequenas vilas de província que suportamos aquele monstro; nós, onde, por outro lado, se conserva ainda a real fibra moral deste País. Aqui, em Lisboa, somos como que esquecidos e marginalizados pelo centralismo de Santarém, e pior do que isso: durante anos e anos, a flor da nossa juventude, os homens no máximo vigor das suas vidas abandonaram esta sua terra, este torrãozinho de açúcar cujo viço poderiam fazer brotar em torrentes de frutos com o adubo do suor das suas frontes erguidas bem alto com os olhos postos num futuro ridente, esses homens dizíamos, abandonaram-nos pela miragem dourada dos bairros elegantes de Almoster e arranha-céus do centro. Hoje, até de barbeiros estamos mal em Lisboa, e de canalizadores. A nossa população activa deixa o saudável trabalho nas vinhas de Campolide ou na pesca ribeirinha (esta, na verdade, prejudicada pela poluição do intenso tráfego de cargueiros e petroleiros que se dirige pelo canal ao Porto de Santarém-Vila Franca).
Lisboa, porém, tem grandes potencialidades para tomar o seu lugar no Mundo diferente que se avizinha (e estamos a pensar na iminente adesão à CEE) Assim os seus filhos o queiram, com a vontade férrea que sempre os caracterizou. Poder-se-ia:
— Desenvolver a produção das tão típicas caixas com figos seco
— Estimular o artesanato de velas de cera pintadas
— Estabelecer uma pousada no Castelo, com dez quartos para atrair o Turismo à nossa vila.
 
 
Já temos o Ciclo Preparatório em Lisboa. Há que lutar agora pelo Liceu, que Santarém continua a negar-nos. Bastantes delegações, chefiadas pelo nosso Presidente já se dirigiram a vários departamentos do Ministério e até se avistaram com o Senhor Secretário de Estado, em Santarém, até agora sem resultado a não ser o de prometer passar por Lisboa na próxima saída à província. E nem falamos no caso bem conhecido do Hospital, agora que o idoso Dr. Simões já não pode, e que o tal P2 fez o que fez e foi corrido!
Há muito e muito a fazer em prol desta antiga Vila.
 
DA CÂMARA MUNICIPAL
— O Presidente, Sr. Abecasis, inaugura amanhã solenemente as instalações sanitárias para os três vereadores, nos Paços do Concelho.
— O Fundo de Fomento da Habitação vai pôr a concurso a construção dos oito fogos com que ficará finalmente resolvido o problema da habitação, em Lisboa.
— Na última reunião da Câmara foi votada uma moção proposta pelo Presidente, exigindo a imediata cessação das hostilidades entre o Iraque e o Irão, e a total retirada das tropas soviéticas de outro país acabado em «ão» mas que o Presidente não se lembrava de momento mas que quando trouxesse as notas que tinha deixado no CDS se punha na acta, certo.
No resto da reunião, que era pública, foi debatido o problema de a vereadora do PSD ouvir a radionovela no transístor e fazer tricot durante as sessões, e se isso era falta de respeito pelo Poder autárquico. O público constituído como de costume pelo Julinho, popular mas inofensivo minimizado mental da nossa Vila, foi mandado retirar por conduta indecorosa, sendo sala imediatamente limpa pelos serviços municipalizados.
 
CAÇA
Na batida organizada pela Comissão Venatória, foram abatidas duas corpulentas raposas nos matos da Lapa. O nosso correspondente no Lumiar assinala a abundância de perdizes nos campos de Alvalade e da Luz, mas queixa-se de que são chacinadas pelos grupos que vêm de Santarém ao domingo e levam tudo raso.
 
VIDA SOCIAL
Faz hoje anos a menina Severianinha, gentil filha do nosso assinante, conceituado comerciante e industrial de figos secos, senhor Hermenegildo Santos da Silva Figueiredo, a quem saudamos desejando à neófita as maiores felicidades.