Sou de Lisboa e já estou farto, farto até aos olhos, de ouvir acusar
Lisboa de ser a cabeça de um corpo macrocéfalo, origem de todos os vícios e
erros de este País. Como se nós tivéssemos a culpa! Porquê nós? Aconteceu,
olha, aconteceu. Podia ter acontecido a outros, por exemplo a Santarém, que
também foi capital do Reino de D. Afonso Henriques durante um tempo. Se tivesse
continuado a sê-lo, hoje, o semanário regionalista e independente «O Intransigente
Lisboeta» ler-se ia porventura assim:
EDITORIAL
Cada vez mais a província sofre
com a desmesurada importância de Santarém. Parece que este País é Santarém, só
Santarém e nada mais. Tudo ali se decide, no anonimato dos gigantescos
ministérios que rodeiam a Praça que o Marquês construiu junto ao rio.
Na verdade, e além do mais, é o
País real, a província (isto é, nós!), quem tem de pagar os custos daquela
brutal expansão urbana, os seus permanentes engarrafamentos e obras de viação
caríssimas, os seus equipamentos sofisticados e ruinosos: basta ver que agora o
acesso ao novo Aeroporto Intercontinental da Chamusca que vai substituir o de
Benfica do Ribatejo já pequeno e saturado, vai exigir uma ligação em
metropolitano sob os densos e tristes subúrbios industriais de Almeirim e
Alpiarça, e ainda exigir mais um túnel sob o Tejo para além dos dois que já há
e das catorze pontes sempre cheias de tráfego!
A especulação fundiária e
imobiliária na zona metropolitana de Santarém são o escândalo conhecido, e o
próprio Banco de Portugal já assinalou nos seus relatórios o perigo que
representa a excessiva imobilização de capitais que isso origina. E no entanto,
quem não conhece os extensos bairros de barracas que se estendem em toda a orla
da cidade, desde Vale de Figueira até Alcanhões, e que são a prova evidente da incapacidade
dos governos para lutar contra as pressões que actuam no interior das
incontroláveis massas urbanas.
Nem as três Universidades, nem a
intensa vida cultural de Santarém podem esconder a degradação, a corrupção e a
imoralidade que grassam nesta metrópole fumarenta e cosmopolita, onde tudo,
finalmente se decide, neste País.
Mas somos nós, as pequenas vilas
de província que suportamos aquele monstro; nós, onde, por outro lado, se
conserva ainda a real fibra moral deste País. Aqui, em Lisboa, somos como que
esquecidos e marginalizados pelo centralismo de Santarém, e pior do que isso:
durante anos e anos, a flor da nossa juventude, os homens no máximo vigor das
suas vidas abandonaram esta sua terra, este torrãozinho de açúcar cujo viço
poderiam fazer brotar em torrentes de frutos com o adubo do suor das suas
frontes erguidas bem alto com os olhos postos num futuro ridente, esses homens
dizíamos, abandonaram-nos pela miragem dourada dos bairros elegantes de
Almoster e arranha-céus do centro. Hoje, até de barbeiros estamos mal em
Lisboa, e de canalizadores. A nossa população activa deixa o saudável trabalho
nas vinhas de Campolide ou na pesca ribeirinha (esta, na verdade, prejudicada
pela poluição do intenso tráfego de cargueiros e petroleiros que se dirige pelo
canal ao Porto de Santarém-Vila Franca).
Lisboa, porém, tem grandes
potencialidades para tomar o seu lugar no Mundo diferente que se avizinha (e
estamos a pensar na iminente adesão à CEE) Assim os seus filhos o queiram, com
a vontade férrea que sempre os caracterizou. Poder-se-ia:
— Desenvolver a produção das tão
típicas caixas com figos seco
— Estimular o artesanato de velas
de cera pintadas
— Estabelecer uma pousada no
Castelo, com dez quartos para atrair o Turismo à nossa vila.
Já temos o Ciclo Preparatório em
Lisboa. Há que lutar agora pelo Liceu, que Santarém continua a negar-nos.
Bastantes delegações, chefiadas pelo nosso Presidente já se dirigiram a vários
departamentos do Ministério e até se avistaram com o Senhor Secretário de
Estado, em Santarém, até agora sem resultado a não ser o de prometer passar por
Lisboa na próxima saída à província. E nem falamos no caso bem conhecido do
Hospital, agora que o idoso Dr. Simões já não pode, e que o tal P2 fez o que
fez e foi corrido!
Há muito e muito a fazer em prol
desta antiga Vila.
DA CÂMARA MUNICIPAL
— O Presidente, Sr. Abecasis,
inaugura amanhã solenemente as instalações sanitárias para os três vereadores,
nos Paços do Concelho.
— O Fundo de Fomento da Habitação
vai pôr a concurso a construção dos oito fogos com que ficará finalmente
resolvido o problema da habitação, em Lisboa.
— Na última reunião da Câmara foi
votada uma moção proposta pelo Presidente, exigindo a imediata cessação das
hostilidades entre o Iraque e o Irão, e a total retirada das tropas soviéticas
de outro país acabado em «ão» mas que o Presidente não se lembrava de momento
mas que quando trouxesse as notas que tinha deixado no CDS se punha na acta,
certo.
No resto da reunião, que era
pública, foi debatido o problema de a vereadora do PSD ouvir a radionovela no transístor
e fazer tricot durante as sessões, e se isso era falta de respeito pelo Poder
autárquico. O público constituído como de costume pelo Julinho, popular mas
inofensivo minimizado mental da nossa Vila, foi mandado retirar por conduta
indecorosa, sendo sala imediatamente limpa pelos serviços municipalizados.
CAÇA
Na batida organizada pela
Comissão Venatória, foram abatidas duas corpulentas raposas nos matos da Lapa.
O nosso correspondente no Lumiar assinala a abundância de perdizes nos campos
de Alvalade e da Luz, mas queixa-se de que são chacinadas pelos grupos que vêm
de Santarém ao domingo e levam tudo raso.
VIDA SOCIAL
Faz hoje anos a menina
Severianinha, gentil filha do nosso assinante, conceituado comerciante e
industrial de figos secos, senhor Hermenegildo Santos da Silva Figueiredo, a
quem saudamos desejando à neófita as maiores felicidades.

