sábado, 29 de novembro de 1980

Mediocrímetria

(No último Conselho Nacional do PSD)
«…Natália Correia criticou a política da Cultura e o dr. Sá Carneiro respondeu que para serem auxiliados os intelectuais têm de deixar de ser medíocres».
(In «Tempo» pág. 32 30/Out/80)
 
 
— Vem habilitar-se ao subsídio?
— Sim. Sabe, eu acho que me posso considerar intelectual e acontece que o trabalho que tenho entre mãos é até importante (julgo eu...) para o País, mas é coisa que nunca virá a ter grande público, é coisa que só pode interessar directamente uma minoria de especialistas, mas que enfim, deve ser feita, até por uma questão de prestígio nacional, não é? Porque senão serão os estrangeiros como de costume a passar-nos à frente e...
— Chega! A ladainha do costume. Isso não é com o nosso serviço. O que importa é o seguinte: traz os documentozinhos? Plano de trabalho em triplicado? Recibo do Imposto Complementar? Atestado de Residência? Certidão de Não-Mediocridade?
— Eu, essa certidão não tenho ainda. Onde é que posso tirá-la e quem é que a passa?
— É aqui na Cultura. O senhor vai ao oitavo andar com duas testemunhas, Bilhete de Identidade e meia folha de papel selado. Espere aí! Há quanto tempo é que deixou de ser medíocre?
— Bem... Eu...
— É que quem já deixou de ser medíocre há mais de seis anos consecutivos ou oito alternados tem direito a um suplemento de subsídio e fica isento de sujeição ao teste.
— Isso para mim é surpresa. É tudo surpresa. Não sabia nada desta Certidão de Mediocridade...
— De Não-Mediocridade, meu caro senhor. É de facto uma coisa recente.
— É boa! Como é que é passada?
— Está tudo fixado no decreto-lei. O senhor tem de fazer um teste no mediocrímetro e depois juntar dois selos fiscais de 100$00 e paga os emolumentos respectivos.
— Mediocrímetro?
— É uma coisa americana, mas está aferida para os valores nacionais. Até tem piada que o zero foi marcado a partir da leitura das medidas do... chiça! Desculpe, mas ia-me descaindo! Nós não temos autorização para revelar estas coisas. Ainda podia apanhar com um processo disciplinar às costas …
— E é tudo?
— Depois o senhor faz a declaração «do activo repúdio» e…
— O quê?
— Sabe muito bem. Aquela que faz o activo repúdio de todas as formas de mediocridade e de não estar ligado a organizações subversivas da cultura, etc… e tudo isso, o costume. A propósito, aqui à parte, não é que eu deva dar nenhumas instruções a ninguém, claro, mas se por acaso o senhor não tiver mesmo que citar a UNESCO, não é por nada, mas evite, percebe? Não é ilegal evidentemente, toda a gente sabe, não é? Mas se não tem mesmo de falar nisso, olhe, não fale. Só por curiosidade, alguma vez trabalhou para o SNI? Não, claro, não tem idade para isso. É que...
— E fazendo isso tudo, fico finalmente habilitado?
— Fica. A lei no entanto, faculta-lhe uma excepção: pode substituir o teste pela apresentação do cartão de eleitor e o cartão de filiado num dos partidos da maioria actual e fica equiparado, a título oficioso, aos outros impetrantes. Paga os mesmos emolumentos, mas vale a pena!
— Muito obrigado. Estou esclarecido. Já entendi.