(No último Conselho Nacional do PSD)
«…Natália Correia criticou a política da Cultura e o dr. Sá Carneiro
respondeu que para serem auxiliados os intelectuais têm de deixar de ser
medíocres».
(In «Tempo» pág. 32 30/Out/80)
— Vem habilitar-se ao subsídio?
— Sim. Sabe, eu acho que me posso
considerar intelectual e acontece que o trabalho que tenho entre mãos é até
importante (julgo eu...) para o País, mas é coisa que nunca virá a ter grande
público, é coisa que só pode interessar directamente uma minoria de
especialistas, mas que enfim, deve ser feita, até por uma questão de prestígio
nacional, não é? Porque senão serão os estrangeiros como de costume a
passar-nos à frente e...
— Chega! A ladainha do costume.
Isso não é com o nosso serviço. O que importa é o seguinte: traz os
documentozinhos? Plano de trabalho em triplicado? Recibo do Imposto
Complementar? Atestado de Residência? Certidão de Não-Mediocridade?
— Eu, essa certidão não tenho
ainda. Onde é que posso tirá-la e quem é que a passa?
— É aqui na Cultura. O senhor vai
ao oitavo andar com duas testemunhas, Bilhete de Identidade e meia folha de
papel selado. Espere aí! Há quanto tempo é que deixou de ser medíocre?
— Bem... Eu...
— É que quem já deixou de ser medíocre
há mais de seis anos consecutivos ou oito alternados tem direito a um
suplemento de subsídio e fica isento de sujeição ao teste.
— Isso para mim é surpresa. É
tudo surpresa. Não sabia nada desta Certidão de Mediocridade...
— De Não-Mediocridade, meu caro
senhor. É de facto uma coisa recente.
— É boa! Como é que é passada?
— Está tudo fixado no
decreto-lei. O senhor tem de fazer um teste no mediocrímetro e depois juntar
dois selos fiscais de 100$00 e paga os emolumentos respectivos.
— Mediocrímetro?
— É uma coisa americana, mas está
aferida para os valores nacionais. Até tem piada que o zero foi marcado a
partir da leitura das medidas do... chiça! Desculpe, mas ia-me descaindo! Nós
não temos autorização para revelar estas coisas. Ainda podia apanhar com um processo
disciplinar às costas …
— E é tudo?
— Depois o senhor faz a declaração
«do activo repúdio» e…
— O quê?
— Sabe muito bem. Aquela que faz
o activo repúdio de todas as formas de mediocridade e de não estar ligado a
organizações subversivas da cultura, etc… e tudo isso, o costume. A propósito,
aqui à parte, não é que eu deva dar nenhumas instruções a ninguém, claro, mas
se por acaso o senhor não tiver mesmo que citar a UNESCO, não é por nada, mas
evite, percebe? Não é ilegal evidentemente, toda a gente sabe, não é? Mas se
não tem mesmo de falar nisso, olhe, não fale. Só por curiosidade, alguma vez
trabalhou para o SNI? Não, claro, não tem idade para isso. É que...
— E fazendo isso tudo, fico
finalmente habilitado?
— Fica. A lei no entanto,
faculta-lhe uma excepção: pode substituir o teste pela apresentação do cartão
de eleitor e o cartão de filiado num dos partidos da maioria actual e fica
equiparado, a título oficioso, aos outros impetrantes. Paga os mesmos
emolumentos, mas vale a pena!
— Muito obrigado. Estou
esclarecido. Já entendi.

