Da entrevista do Dr. Sousa Tavares ao «Tempo» (13/Nov./80-pg.12)
T. (...) aceitaria entrar para o Governo? É um «ministeriável»?
ST — É evidente que eu me
considero «ministeriável». Porque é que eu não havia de ser ministeriável se já
houve tanto imbecil que foi ministro? O problema não está em saber se estou ministeriável,
mas em saber se a minha presença é desejada e se poderia ser útil dentro de uma
determinada política. É evidente que eu não aceito todas as políticas...
Vinte jocosidades evidentes e
fáceis bailam na ponta da caneta, prontas a sair. Não sairão. Uma fria e até
triste meditação sobre o Poder e serviço público, é a borra amarga que fica no
fundo de uma potencial caneca de água-pé colunística, quando se lhe retira o
picante fornecido por uma personalidade afectuosamente tolerável até pela insensibilidade
colonesca à própria insuficiência, atraente até pela granítica e antiga
imunidade ao sentimento do próprio ridículo, que abafa no entanto as reais
qualidades e torna ambíguo o significado da coragem.
De onde me abstenho de picar com
quaisquer graças «moralizadoras» uma pessoa que até admiro de longe, e que de
qualquer modo estaria perfeitamente e justamente nas tintas para isso,
assumindo mesmo que as viesse a ler. Não é a pessoa mas as palavras que me
fazem reflectir.
O proviso ou aviso de estar
disponível para exercer um cargo, com a condição suplementar de poder ser útil,
é tautológica numa sociedade de homens livres. Está demasiadamente próxima do
próprio fundamento da democracia para que possa utilmente ser invocada como justificação
concreta. A disponibilidade é uma espécie de axioma intrínseco à sociedade de
homens livres, é uma capacidade
interna do seu campo de definição, que vem depois a ser limitada, determinada
ou circunscrita por um conjunto de condições exteriores ao sistema mas
interiores ao elemento-sujeito da sociedade democrática (conhecimento das
próprias limitações, incapacidade física ou moral, etc.).
Em claro: Posso ser tudo, pela natureza e definição desta sociedade, neste
País — Presidente da República, Ministro da Guerra, vogal da Junta de
Freguesia, ou Apanhador Municipal Designado de Cães, se esses cargos existirem.
Mas só desejarei ou aceitarei ser Ministro da Guerra ou Vogal da Junta de
Freguesia ou Apanhador Municipal de Cães ou Presidente da República, se para
isso eu mesmo me determinar como
capaz — nem eu, nem ninguém pode, ao mesmo tempo sentir e saber que pode servir
ao mesmo tempo igualmente bem como Ministro e Apanhador de cães e é favor não
dizer piadas agora, a despropósito. Estou a falar a sério. No conjunto de
possibilidades ou virtualidades que me estão, à partida abertos, tanto como a todos os outros, sou eu que corto aquele conjunto ou
subconjunto limitado que me é (eticamente) possível considerar. Mas é depois que esse conjunto intersecção,
entre o possível e o por mim aceitável, é ainda severamente intersectado por
outro o que exprime a vontade colectiva em relação àquele (e chama-se a esta
segunda intersecção «sufrágio», «concurso», «prova de aptidões», etc).
Não é a Sociedade ou uma parte
(Parte; Partido;…) dela que me designa à priori (ou me «deseja») para Apanhador
de Cães eleito, ou para Presidente da República, formando por aí o meu direito a sê-lo, sendo depois eu a determinar
nesses subconjuntos assim preparados para mim, a intersecção com o meu próprio
conjunto de situações aceitáveis. Questões, só, mas só, de princípio, claro:
Papa «Doc» Duvalier, Somoza e Amin, sentiram e disseram a uns quantos que «a
sua presença era desejada», que «poderiam ser úteis dentro de uma determinada política»;
é também evidente que «não aceitaram todas as políticas» (e a partir daí,
diga-se em abono da verdade, agiram com inegável coerência...) As palavras
ditas de uma forma benigna, com boa intenção que não deve ser posta em dúvida,
escondem muitas vezes a tragédia latente que contêm, «a l'insu» de quem as diz.
Se o conjunto de condições que eu
estiver disposto a aceitar for definido como coincidente com a soma lógica das
condições que muitos outros têm aceitado (e que aumenta todos os dias...) tudo
me está aberto, tudo me é permitido, nada me pode ser assacado desde que me
mantenha dentro desse conjunto.
Comparei cargos na Índia,
desleixarei capitanias no Brasil, florescerei na incompetência e compadrio do
parlamentarismo decadente, manobrarei nos sindicatos, empoleirar-me-ei nos
comícios, afundar-me-ei na incompetência e entorpecer-me-ei na incúria e
estarei justificado.
O calmeirão pencudo, francês e
general dizia que «On ne prend pas le pouvoir, on le ramasse». Mas o português,
não general, já nem pensa em «ramasser le pouvir»: deixa-o onde está — no chão,
no fundo.
O poder já não é assim um
serviço, uma mística, uma «abnegação», quase uma penalização pelo direito de
pertencer a uma sociedade de homens livres — é uma oportunidade, um acorrer aos
restos, um estar às sopas, um hallali, uma posse por abandono.
No canto de uma página de
semanário, por entre ideias brilhantes e lúcidas de uma figura interessante mas
menor da galeria antropológica da política nacional, aflora a minúscula pústula
esverdeada de um «mal - honteux» incurável que desde sempre corrói este País,
sempre pudicamente ignorado ou tapado, sempre deformante sem matar.
Silencioso. Quase imperceptível.
Triste. Sem graça.

