quinta-feira, 12 de maio de 1983

Vira-latas descobridores

Os visitantes da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, por entre as muitas coisas admiráveis que vão poder ver o Núcleo dos Jerónimos na secção da arte dos povos encontrados ao longo dos Descobrimentos, observarão que desde a Costa do Benim até ao longínquo Japão, em todas as figurações de Portugueses feitas pelos locais há duas constantes: os Portugueses têm chapéu de plumas e são acompanhados por cães.
De chapéu de plumas e cãozinho, que beleza! — No imaginário dos povos afastados e recém-encontrados, nos bronzes africanos em bordados do Malabar, em miniaturas persas, nas lacas japonesas, — é assim que aparecemos!
Ora bem, o chapéu já não se usa, quanto mais de plumas mas o cãozinho! Que revelação! Na escola acostumaram-nos a considerar graves navegadores de gibão, barbas e olhar duro, em poses heroicas contemplando o Além. Esqueceram-se de nos dizer que nos exíguos barquinhos ia também, anónima, brigona, pulguenta, esperta e fiel, a inevitável canzoada sem a qual o Português se sente desacompanhado.
 
Basta ver, sobretudo na província, como qualquer trabalhador rural ou artífice na sua oficina se faz acompanhar de um ou às vezes mais cãezitos, que trata com rudeza mas também com certa ternura.
O cão de raça apurada, inútil e birrento, que tem «pedigree» e vai às exposições, é um senhor, é tratado com reverência e cuidados. Mas o vira-lata não: espera-se dele companhia e serviço mas não é apaparicado. O que ele recebe, além de algumas pancadas e maus tratos, é um afecto que não se traduz em mariquices; apenas uma ou outra caricia em momentos de lazer e boa disposição. O cachorro não pede mais; está grato por existir e vive, com entusiasmo e alegre estoicismo a sua, por vezes breve, existência.
 
Portanto, o nobre rafeiro alentejano, o severo Castro Laboreiro, o cão de lobo dos Hermínios — cães comilões, violentos e baroniais — não são os que foram nas fustas, barcas, caravelas e naus; aqueles ficaram a guardar o terrunho e os bens dos senhores, ao mesmo tempo que os St. Hubert, os dogues alemães e os Wolfhounds acumulavam séculos de aristocracia pelos castelos e mosteiros dessa Europa acima. Os nossos eram vira-latas, e passaram os trópicos e os terrores do grande mar Oceano dormindo anichados entre a amálgama e os rolos do cordame breado, embalados pelo ranger compassado das madeiras, coçando a carraça nos intervalos da acção violenta e paroxística.
 
Camões, no episódio do Veloso, esqueceu-se de alguma coisa; esqueceu-se do cãozinho. Eu completo-o:
— Quando Veloso desceu a correr do morro, por entre a chuva de zagais, o seu último gesto antes de saltar para o barco foi o de agarrar por uma pata o cão que o acompanhava a ladrar freneticamente contra os gentios, e atirá-lo de qualquer maneira para dentro do batel. Depois, quando contou a história já na nau — e isso, Camões também não o diz! — a sua mão acariciava distraída o cachorro, já pacificado e dormindo encostado entre as suas pernas. (Os poemas épicos tendem a esquecer os podengos, e mesmo o comovedor Argus, na Odisseia, não fez mais do que esperar por Ulisses...).
 
Por isto tudo, proponho um monumento ao cãozinho dos Descobrimentos (mas só quando acabar a XVII EEACC, porque essa não perceberia estas coisas, e além do mais está ocupada com outras que julga mais importantes...):
— Proponho um monumento ao cãozinho amarelo ou às malhas, de orelha pendente ou arrebitada, alto ou baixo, engraçado ou feio, escanzelado, magro e atrevido, que antes da nau prosseguir viagem alçou a pata para o padrão recém-cravado na placa hostil, marcando assim uma sua territorialidade tão real ou mais que a dos Reis de Portugal; que montou as cadelinhas da Costa do Marfim, de Sofala e do Moluco, antes que os Portugueses seus donos encetassem a pasmosa miscigenação pluri-continental com tudo quanto era dona morena de grandes olhos negros; que deixou uma torcidinha nos jardins, e talvez nas salas, dos palácios requintadíssimos e dos silenciosos mosteiros budistas do Oriente, reduzindo-os assim criticamente ao nível de qualquer pátio sujo de Alfama (maravilhoso e independente, ainda que mal cheiroso, comentário histórico...); que roubou, fugindo às pauladas, as tendas dos mercadores nos bazares de Cochim e Meliapor, antes que os seus donos o fizessem, por todo o Oriente.
 
Salve! Saúdo-te, português anónimo, atrevido, sofredor, melancólico, alegre e cheio de mazelas, que descobriste o Mundo!
Para ti, Glória eterna, e um osso para roeres!