Os visitantes da XVII Exposição
Europeia de Arte, Ciência e Cultura, por entre as muitas coisas admiráveis que
vão poder ver o Núcleo dos Jerónimos na secção da arte dos povos encontrados ao
longo dos Descobrimentos, observarão que desde a Costa do Benim até ao
longínquo Japão, em todas as figurações de Portugueses feitas pelos locais há
duas constantes: os Portugueses têm chapéu de plumas e são acompanhados por
cães.
De chapéu de plumas e cãozinho,
que beleza! — No imaginário dos povos afastados e recém-encontrados, nos
bronzes africanos em bordados do Malabar, em miniaturas persas, nas lacas
japonesas, — é assim que aparecemos!
Ora bem, o chapéu já não se usa,
quanto mais de plumas mas o cãozinho! Que revelação! Na escola acostumaram-nos
a considerar graves navegadores de gibão, barbas e olhar duro, em poses heroicas
contemplando o Além. Esqueceram-se de nos dizer que nos exíguos barquinhos ia
também, anónima, brigona, pulguenta, esperta e fiel, a inevitável canzoada sem
a qual o Português se sente desacompanhado.
Basta ver, sobretudo na
província, como qualquer trabalhador rural ou artífice na sua oficina se faz
acompanhar de um ou às vezes mais cãezitos, que trata com rudeza mas também com
certa ternura.
O cão de raça apurada, inútil e
birrento, que tem «pedigree» e vai às exposições, é um senhor, é tratado com
reverência e cuidados. Mas o vira-lata não: espera-se dele companhia e serviço
mas não é apaparicado. O que ele recebe, além de algumas pancadas e maus
tratos, é um afecto que não se traduz em mariquices; apenas uma ou outra
caricia em momentos de lazer e boa disposição. O cachorro não pede mais; está
grato por existir e vive, com entusiasmo e alegre estoicismo a sua, por vezes breve,
existência.
Portanto, o nobre rafeiro
alentejano, o severo Castro Laboreiro, o cão de lobo dos Hermínios — cães
comilões, violentos e baroniais — não são os que foram nas fustas, barcas,
caravelas e naus; aqueles ficaram a guardar o terrunho e os bens dos senhores,
ao mesmo tempo que os St. Hubert, os dogues alemães e os Wolfhounds acumulavam
séculos de aristocracia pelos castelos e mosteiros dessa Europa acima. Os
nossos eram vira-latas, e passaram os trópicos e os terrores do grande mar
Oceano dormindo anichados entre a amálgama e os rolos do cordame breado,
embalados pelo ranger compassado das madeiras, coçando a carraça nos intervalos
da acção violenta e paroxística.
Camões, no episódio do Veloso,
esqueceu-se de alguma coisa; esqueceu-se do cãozinho. Eu completo-o:
— Quando Veloso desceu a correr
do morro, por entre a chuva de zagais, o seu último gesto antes de saltar para
o barco foi o de agarrar por uma pata o cão que o acompanhava a ladrar
freneticamente contra os gentios, e atirá-lo de qualquer maneira para dentro do
batel. Depois, quando contou a história já na nau — e isso, Camões também não o
diz! — a sua mão acariciava distraída o cachorro, já pacificado e dormindo
encostado entre as suas pernas. (Os poemas épicos tendem a esquecer os
podengos, e mesmo o comovedor Argus, na Odisseia, não fez mais do que esperar
por Ulisses...).
Por isto tudo, proponho um
monumento ao cãozinho dos Descobrimentos (mas só quando acabar a XVII EEACC,
porque essa não perceberia estas coisas, e além do mais está ocupada com outras
que julga mais importantes...):
— Proponho um monumento ao
cãozinho amarelo ou às malhas, de orelha pendente ou arrebitada, alto ou baixo,
engraçado ou feio, escanzelado, magro e atrevido, que antes da nau prosseguir
viagem alçou a pata para o padrão recém-cravado na placa hostil, marcando assim
uma sua territorialidade tão real ou mais que a dos Reis de Portugal; que
montou as cadelinhas da Costa do Marfim, de Sofala e do Moluco, antes que os Portugueses
seus donos encetassem a pasmosa miscigenação pluri-continental com tudo quanto
era dona morena de grandes olhos negros; que deixou uma torcidinha nos jardins,
e talvez nas salas, dos palácios requintadíssimos e dos silenciosos mosteiros
budistas do Oriente, reduzindo-os assim criticamente ao nível de qualquer pátio
sujo de Alfama (maravilhoso e independente, ainda que mal cheiroso, comentário
histórico...); que roubou, fugindo às pauladas, as tendas dos mercadores nos
bazares de Cochim e Meliapor, antes que os seus donos o fizessem, por todo o
Oriente.
Salve! Saúdo-te, português
anónimo, atrevido, sofredor, melancólico, alegre e cheio de mazelas, que
descobriste o Mundo!
Para ti, Glória eterna, e um osso
para roeres!

