quarta-feira, 18 de maio de 1983

A cor dos edifícios (1)

Este jornal não se publica normalmente a cores, nem elas fizeram nunca falta excessiva ao seu conteúdo. Hoje porém, faziam-me certo arranjo; é que pretendo falar de cores, algumas cores de Lisboa.
 
Faço-o a propósito do edifício dos CTT—Picoas, ali na Fontes Pereira de Melo, cuja cor merece algumas reflexões. Muitas pessoas olham com desagrado para a cor ferrugenta dada agora ao imóvel — e já é segunda versão, esta camada de tinta agora aplicada no edifício em acabamentos... É uma versão, esta, resultado de críticas e insatisfações, e resolvida com o recurso a «especialistas» e debate entre entidades — o que mostra logo duas coisas: que o problema não é simples, e que as soluções obtidas por debate institucional e administrativo não asseguram forçosamente o êxito em casos destes...
Ora, os físicos sabem que a cor não é uma absoluta propriedade dos objectos, dependendo antes da composição da luz que sobre eles incide; e os pintores sabem mais: sabem que num quadro; por exemplo, as cores frias tendem a parecer mais distantes e côncavas e as cores quentes próximas e convexas. Assim, a vigorosa «convexidade» do edifício das Picoas é acusada com energia evidente e excessiva; a sua presença impõe-se com uma intensidade que não teria, se fosse pintado de algum cinzentinho azulado. Assim, tem um efeito violento sobre o ambiente daquela zona da cidade. Porquê?
O efeito desagradável não vem da cor aplicada (em si mesma não é, como todas as cores, nem bonita nem feia, dependendo a sua beleza ou fealdade apenas do fundo ou ambiente circundante) mas sim do monocromatismo. Parece que o casarão foi mergulhado num balde de tinta, todo ao mesmo tempo!
Bastaria talvez ter usado dois ou três tons, usando os mais escuros na base e nos corpos em recesso, e os mais claros nas partes elevadas e corpos salientes para que se mantivesse e acentuasse o vigor da composição, sem se cair na grosseria do efeito presentemente à vista.
 
Com o aparecimento progressivo de grandes edifícios em Lisboa, e o uso de extensas superfícies recomendadas pelo clima daqui e pelas necessidades de economia energética, é bom que os arquitectos comecem a pensar com mais atenção no velho problema (tão esquecido...) da cor na Arquitectura.