Este jornal não se publica
normalmente a cores, nem elas fizeram nunca falta excessiva ao seu conteúdo.
Hoje porém, faziam-me certo arranjo; é que pretendo falar de cores, algumas
cores de Lisboa.
Faço-o a propósito do edifício
dos CTT—Picoas, ali na Fontes Pereira de Melo, cuja cor merece algumas
reflexões. Muitas pessoas olham com desagrado para a cor ferrugenta dada agora
ao imóvel — e já é segunda versão, esta camada de tinta agora aplicada no
edifício em acabamentos... É uma versão, esta, resultado de críticas e
insatisfações, e resolvida com o recurso a «especialistas» e debate entre
entidades — o que mostra logo duas coisas: que o problema não é simples, e que
as soluções obtidas por debate institucional e administrativo não asseguram
forçosamente o êxito em casos destes...
Ora, os físicos sabem que a cor
não é uma absoluta propriedade dos objectos, dependendo antes da composição da
luz que sobre eles incide; e os pintores sabem mais: sabem que num quadro; por
exemplo, as cores frias tendem a parecer mais distantes e côncavas e as cores
quentes próximas e convexas. Assim, a vigorosa «convexidade» do edifício das
Picoas é acusada com energia evidente e excessiva; a sua presença impõe-se com
uma intensidade que não teria, se fosse pintado de algum cinzentinho azulado.
Assim, tem um efeito violento sobre o ambiente daquela zona da cidade. Porquê?
O efeito desagradável não vem da
cor aplicada (em si mesma não é, como todas as cores, nem bonita nem feia,
dependendo a sua beleza ou fealdade apenas do fundo ou ambiente circundante)
mas sim do monocromatismo. Parece que o casarão foi mergulhado num balde de
tinta, todo ao mesmo tempo!
Bastaria talvez ter usado dois ou três tons,
usando os mais escuros na base e nos corpos em recesso, e os mais claros nas
partes elevadas e corpos salientes para que se mantivesse e acentuasse o vigor
da composição, sem se cair na grosseria do efeito presentemente à vista.
Com o aparecimento progressivo de
grandes edifícios em Lisboa, e o uso de extensas superfícies recomendadas pelo
clima daqui e pelas necessidades de economia energética, é bom que os arquitectos
comecem a pensar com mais atenção no velho problema (tão esquecido...) da cor
na Arquitectura.
