Os leitores lisboetas menos novos
lembrar-se-ão ainda das farmácias quando eram «Pharmacias», e do seu peculiar
atractivo: as filas espessas de frascos de boca larga contendo substâncias
estranhas ou líquidos coloridos, tudo com nomes curiosos e exóticos, e algum
latim tranquilizador à mistura: «Raiz de Ipeca», «Tintura de Benjoim», «Assa
foetida», «Althea oficinalis»...
Havia uma vaga evocação de drogas
e simples da índia, e o Galeno idoso entrevisto à sua balança de metal amarelo
na penumbra do laboratório alquímico, parecia ter tido ainda privança com
Garcia de Orta. Ia-se à Pharmacia com frasquinhos lavados e a receita para
aviar, e eles voltavam com lindas carapuças de papel plissado, atado com um
fiozinho. As hóstias com o pózito vinham em caixas redondas de cartolina cor-de-rosa,
boas para guardar depois berlindes e outros pertences miúdos da juventude.
Em Tomar ainda havia, há pouco
tempo, uma lindíssima Pharmacia destas: e se ainda existe, acho que deveria ser
subsidiada não pelos Assuntos Sociais e sim pelo Instituto do Património
Cultural, para não se transformar num destes supermercados de luz crua,
cromados e prateleiras cheias de embalagens incaracterísticas, assistidas por
funcionários impessoais (saberão ainda fazer carapuças de papel plissado aos
frasquinhos? Duvido. A necessidade de eficiência e a grande produção fármaco-química
não se compadecem com parvoíces de esteticismo retrógrados... Nem ninguém tem
já frasquinhos nem receitas daquelas para aviar).
A que vem isto?
Ao que eu quero chegar não é ao
conteúdo e valor do que está dentro das embalagens da farmacopeia actual, mas
sim, muito simplesmente, aos seus nomes:
é que são, em si mesmos, atemorizadores e sinistros — nomes de vilões de banda
desenhada.
Quem quer que, Nas fábricas
esteja encarregado de achar nomes para a droga deve ter como requisito
profissional ser possuidor de uma imaginação doentia e um gosto sádico. Alguém,
no seu pleno senso (e antes de ter a consciência alterada pelo uso do conteúdo
das caixitas) pode estar confiante quando inflige ao seu corpo substâncias que
se chamem. «pirrolfungin», «mogadan» «Cortidasmil», «mybizal», «tironorman»?
Coisas que mereçam nomes como «anirrit», «epanutin», «mandrax», «Sedo-Rhytmodan»,
«Tiazol-efedrina»?!
Barthes, numa das «mythologies»,
diz, dos plásticos, que tem nomes idílicos de pastores gregos: — Polistirene,
Acrílico, Isobutilene. Eu, dos medicamentos das farmácias, digo que tem nomes
de tiranos de naves intergalácticas, de sábios loucos em planetas da pior ficção
científica.
E maldosos, ainda por cima: no
jornalinho dobrado que vem junto com o medicamento fazem-se ameaças tenebrosas.
Repare-se: — «O Diazo-4-tribenzoleno de hexapirolitano tem acção diaforólica
sobre o antistenismo fagocito-analáptico das biostireses» é perfeitamente
equivalente a — «O raio tri-laser na 5° dimensão esmagará as naves ofíticas do
império de Urak reduzindo-as a anti-quantiões beta»
Escreverei um dia destes uma
aventura galáctico - farmacêutica em Banda Desenhada: — o Imperador «Guronsan»,
péssimo, ajudado pelo sábio louco «Periactin», pretende atacar o planeta da
Rainha «Gelumina», para se vingar da derrota sofrida há 7 Optalidons-luz. Reúne
então uma frota de rapidíssimos «Casfens» tripulados por «Dolvirans», raça de
pequenos e cruéis guerreiros mercenários do espaço interstelar de
«Entero-Viofórmio», etc...
Horrível.

