terça-feira, 29 de março de 1983

Medicamentos e vilões

Os leitores lisboetas menos novos lembrar-se-ão ainda das farmácias quando eram «Pharmacias», e do seu peculiar atractivo: as filas espessas de frascos de boca larga contendo substâncias estranhas ou líquidos coloridos, tudo com nomes curiosos e exóticos, e algum latim tranquilizador à mistura: «Raiz de Ipeca», «Tintura de Benjoim», «Assa foetida», «Althea oficinalis»...
 
Havia uma vaga evocação de drogas e simples da índia, e o Galeno idoso entrevisto à sua balança de metal amarelo na penumbra do laboratório alquímico, parecia ter tido ainda privança com Garcia de Orta. Ia-se à Pharmacia com frasquinhos lavados e a receita para aviar, e eles voltavam com lindas carapuças de papel plissado, atado com um fiozinho. As hóstias com o pózito vinham em caixas redondas de cartolina cor-de-rosa, boas para guardar depois berlindes e outros pertences miúdos da juventude.
 
Em Tomar ainda havia, há pouco tempo, uma lindíssima Pharmacia destas: e se ainda existe, acho que deveria ser subsidiada não pelos Assuntos Sociais e sim pelo Instituto do Património Cultural, para não se transformar num destes supermercados de luz crua, cromados e prateleiras cheias de embalagens incaracterísticas, assistidas por funcionários impessoais (saberão ainda fazer carapuças de papel plissado aos frasquinhos? Duvido. A necessidade de eficiência e a grande produção fármaco-química não se compadecem com parvoíces de esteticismo retrógrados... Nem ninguém tem já frasquinhos nem receitas daquelas para aviar).
 
A que vem isto?
Ao que eu quero chegar não é ao conteúdo e valor do que está dentro das embalagens da farmacopeia actual, mas sim, muito simplesmente, aos seus nomes: é que são, em si mesmos, atemorizadores e sinistros — nomes de vilões de banda desenhada.
 
Quem quer que, Nas fábricas esteja encarregado de achar nomes para a droga deve ter como requisito profissional ser possuidor de uma imaginação doentia e um gosto sádico. Alguém, no seu pleno senso (e antes de ter a consciência alterada pelo uso do conteúdo das caixitas) pode estar confiante quando inflige ao seu corpo substâncias que se chamem. «pirrolfungin», «mogadan» «Cortidasmil», «mybizal», «tironorman»? Coisas que mereçam nomes como «anirrit», «epanutin», «mandrax», «Sedo-Rhytmodan», «Tiazol-efedrina»?!
 
Barthes, numa das «mythologies», diz, dos plásticos, que tem nomes idílicos de pastores gregos: — Polistirene, Acrílico, Isobutilene. Eu, dos medicamentos das farmácias, digo que tem nomes de tiranos de naves intergalácticas, de sábios loucos em planetas da pior ficção científica.
 
E maldosos, ainda por cima: no jornalinho dobrado que vem junto com o medicamento fazem-se ameaças tenebrosas. Repare-se: — «O Diazo-4-tribenzoleno de hexapirolitano tem acção diaforólica sobre o antistenismo fagocito-analáptico das biostireses» é perfeitamente equivalente a — «O raio tri-laser na 5° dimensão esmagará as naves ofíticas do império de Urak reduzindo-as a anti-quantiões beta»
 
 
Escreverei um dia destes uma aventura galáctico - farmacêutica em Banda Desenhada: — o Imperador «Guronsan», péssimo, ajudado pelo sábio louco «Periactin», pretende atacar o planeta da Rainha «Gelumina», para se vingar da derrota sofrida há 7 Optalidons-luz. Reúne então uma frota de rapidíssimos «Casfens» tripulados por «Dolvirans», raça de pequenos e cruéis guerreiros mercenários do espaço interstelar de «Entero-Viofórmio», etc...
 
Horrível.