segunda-feira, 28 de março de 1983

Pobre Marx

No centenário da morte de Marx, numerosas pessoas têm escrito neste jornal e noutros, com saber e erudição indiscutíveis.
Mas neste mesmo centenário, como é curioso ver a quantidade de análises superficiais, abusivas e tendenciosas: é, por assim dizer, a confirmação pela negativa da importância iniludível e permanente do velho patriarca barbudo. Há uma moda, que é uma certa confissão implícita de impotência não isenta de raiva em renegá-lo, mesmo por parte dos que se reclamavam da sua ascendência intelectual.
Eu cá, apenas observo os aspectos laterais desta circunstância, porque não me sinto capaz de ir ao fundo da questão (Ah! mas ao menos confesso-o logo à partida!).
É que uma certa pressa leva agora pessoas, grupos e partidos a dizer que «Marx morreu!» com um arzinho do nietschiano «Deus morreu!». Assunto melindroso, portanto.
 
Lembro-me de que, há umas duas dezenas de anos, ainda fervilha grande debate em torno das ideias económicas de Keynes nos meios académicos ocidentais. Um economista, creio que sueco, opositor dessas ideias em teoria, teve um desabafo amargo mas admirável: «Agora, no fundo, somos todos já keynesianos!...»
Ora, observo que me parece espúria a preocupação de alguns em se afirmar livres da herança judeu-cristã, helénica, renascentista, eu sei lá! De tudo. Podem dizê-lo, podem desejá-lo, podem pensá-lo — mas não o são. As fortíssimas ideias que inflectem a evolução do pensamento, inflectem-no arrastando todo o mundo intelectual ou não, deixando nas suas franjas só os resíduos das ortodoxias estritas e inadaptadas — das ortodoxias novas, tanto como das que preexistiam.
 
Privei em certa altura, profissionalmente, com um senhor, importante, legionário, capitão de indústria, que frequentemente me expunha os seus conceitos de economia e de política: «Sabe, dinheiro só se ganha fazendo trabalhar os outros — esse é que é o nosso trabalho!»; «Isto, o capital quer-se a girar. Quanto mais girar mais acumula, e para se formar riqueza é preciso acumular»; «A política, meu caro, é uma treta; é só a economia que é real, percebe? Governa tudo: é a História que o mostra, estude a História, estude a História e veja o que é que faz a Historia...»
«Mesmo a religião, meu amigo, faz falta para ajudar a funcionar bem a sociedade. A padralhada é chata (olhe que eu cá sou muito religioso; ouviu? apesar de dizer isto...), a padralhada é chata mas faz falta». Dizia-se um antimarxista feroz! Não seria possível insinuar-lhe, sem que explodisse, que encontraria as suas ideias expostas com muito mais clareza em certos textos... certos textos que nunca tinha lido, nem leria nunca, «et pour cause»...
Vá lá, compreende-se.
 
Mas dos novos antimarxistas (que nunca admitiriam ignorar a matéria), quantos leram o «Capital»? Mas todo, até ao fim? A «Contribuição para a crítica da Economia Política»? As «Onze teses sobre Feurbach»? Quantos aguentaram sem perturbação a turbulência mental do «Materialismo e Empiriocriticismo»? O «Anti-Dühring»? O maçudo «Plekhanov»?

 
É que, para quem conhecer o marxismo só através das recensões aos resumos das críticas às traduções (abreviadas) do «Capital»,afirmar que abandonou definitivamente a adesão àquela doutrina não é muito mais significativo do que afirmar que abandonou definitivamente a literatura da Mary Love.
É lícito, mas não é impressionante.
 
A verdade é outra. É que, parafraseando o tal economista que não gostava de Keynes mas era obrigado a reconhecer que, «de facto», era como todos então, já Keynesiano, também se dirá aos que não gostam de Marx e se opõem à sua doutrina: «Hoje, somos todos já marxistas!»