O Benfica jogou em Roma, e muito
bem. Não sou conhecedor de futebol, mas acontece que estava a seguir o relato,
e ouvi o comentador referir que os «tifosi» romanos atiraram laranjas para o
campo e para a baliza, tentando perturbar o eficiente Bento.
As laranjas não são assim coisa
tão barata que se atire por despeito ou desprezo, creio eu — e tendo vivido
certo tempo em Roma, e conhecendo-os (aos romanos) relativamente bem, penso que
havia ali uma boa piada implícita: é que, em italiano «laranja» chama-se
«arancia», como se sabe, mas popularmente chama-se-lhe também «portogallo»
(Portugal).
O que os estuporzinhos italianos
estavam a fazer com característica ironia maldosa romana («Ia smorfia»…), era
aludir a que, aos portugueses, atiravam-nos eles pelo ar...
Enganaram-se! Enfim!
Que «portogallo» seja laranja
para o povo italiano é coisa que vem muito a propósito na ocasião da XXVII/EEAC
«Os Descobrimentos e o Renascimento na Europa». (Atenção, eng. Semedo, à sua
secção das plantas e animais trazidos pelos portugueses para a Europa!...)
Em dada ocasião, um amigo meu
ficou muito irritado com uma fotografia num jornal italiano, em que, no
exterior de um espectáculo ao ar livre, superlotado, uma árvore estava
carregada de «espectadores» não pagantes, e tinha como legenda: «Un
Portogallo!» (isto é, uma laranjeira...). Isto porquê?
É que, popularmente, um
«borlista», um gajo que se aproveita, um que entra «à campeão» etc. em Itália é
um «Portughese», um português!...
É francamente irritante para os
portugueses que vão a Itália ou que lá vivem, a constante brincadeira ou alusão
a essa suposta característica nacional, nossa. Pois quem lá for, e se vir
mimoseado com essa piadinha, responda à letra:
Quando D. João V mandou a Roma a
sumptuosíssima Embaixada, (inútil, mas sumptuosíssima) bem conhecida, houve
festejos famosos e fechados, onde, para entrar, muitos italianos não convidados
se faziam passar por portugueses, e a esses, o povo romano com a sua inevitável
«smorfia», chamava causticamente, «Portugueses»...
Borlistas sim: mas eram eles!
Assim se faz a História, e há muito
a meditar neste exemplo…
