sábado, 19 de fevereiro de 1983

Os edifícios do poder

A arquitectura é o espelho fiel do espírito das épocas, o reflexo da vontade e do «modo de estar» em sociedade. Tudo isto é sabido, e não interessa aqui fazer teoria e história de Arte.
 
Uma manifestação importante através da Arquitectura é a do Poder. Veja-se o caso português: Carlos Mardel deu ao Terreiro do Paço a forma própria de uma figuração física do Poder — austero, estável, augusto, segregado, centrado sobre a imagem da Realeza tornada monumento.
Independentemente da competência ou eficácia dos ocupantes dos decastérios sitos naquela Praça, a carga simbólica da arquitectura do Terreiro do Paço infunde o temor reverencial no cidadão comum e a apetência no ambicioso político. A antonomásia encarrega-se do resto: hoje, pelo País fora, uma decisão do governo é uma decisão do Terreiro do Paço — as pedras, miticamente, ordenam. Os eclesiásticos dizem «Roma locuta, causa finita» (Falou Roma, acabou-se a questão!). Na província diz-se «O Terreiro do Paço mandou»…
Bem. Mas depois veio a expansão do aparelho de Estado, a proliferação de Direcções-Gerais, a chuva de serviços. No Estado Novo ainda houve uma tentativa de associar certa imagem arquitectónica do Poder ao próprio exercício do Poder (e que imagem e que exercício, caspité!). Mas agora o que conta não é o símbolo mas os metros quadrados — comprados ou alugados por aí.
O Poder exerce-se em andares de rendimento — o secretário de Estado despacha na ex-sala de estar; o diretor-geral pondera gravemente no ex-quarto de cama; a contabilidade faz-se nas cozinhas (a chaminé, fechada, dá um excelente arquivo); o expediente frequenta as marquises; as telefonistas já se resignaram às dispensas. O contínuo, esse lento habitante dos corredores escuros, põe a sua secretária de tampo de vidro ao pé da porta do patamar à frente do quadro da electricidade e do contador da água. Lê então com minúcia o jornal desportivo. Chamam a isto os geógrafos «ocupação do parque habitacional pelo sector terciário». Dá teses porreirinhas.
O Poder, esse, aluga mais e mais casas, compra mais e mais prédios «de rendimento» por aí. Observem-se três exemplos admiráveis: o Ministério da Educação na Av. 5 de Outubro; a S. de E. da Cultura na Av. de República; e aquilo onde está o Governo, à R. Gomes Teixeira.
O paradigma é o primeiro. Quem já ali trabalhou conhece o labirinto que resulta da ligação de uns quantos apartamentos por andar, num prédio destinado a ser vendido para propriedade horizontal. Este ganha assim um conteúdo simbólico involuntário mas poderoso: é a imagem própria da Educação Nacional, feita de remendos adaptada de outros fins, improvisada, confusa e parcelar, sem saídas de emergência, paralisável ao menor sinal de conflito. E o gabinete ministerial no topo evoca até pela decoração a sala de estar burguesa das Avenidas que realmente é.
A Secretaria de Estado da Cultura, onde a defesa dos valores ambientais e arquitectónicos devia ter um baluarte, instalou-se no ridículo prédio vizinho do Galeto — a imagem total da insignificância arquitectónica, a parda realização física da burocracia de passo miúdo… Não contente com isso a S. de Estado guarneceu o seu rés-do-chão com um muro de aço inoxidável resolvendo assim o seu antigo problema de que fazer com aquele potencial stand comercial. Por entre stands de peças de automóvel e agências bancárias, o bunker de aço da S. de E. projecta agora definitivamente e iniludivelmente a sua imagem — banco de financiamento da «Kulturra», impessoal casa forte das poupanças do espírito. Está certo.
Os serviços da Presidência do Conselho de Ministros deixaram a área de cerca beneditina para se instalarem num «prédio» ali ao alto da Triste Faia. De novo imagem do Poder é tristemente figurada pela sua instalação física. Naquele decente mas insignificante edifício numa travessa escondida, não parece haver risco de que alguém se sinta Mussolinicamente autoritário, levado pelo ambiente. Não existem vastos gabinetes de mármore com pilastras adossadas e esculturas de escala heroica. Ainda bem. Mas dos gabinetes de 2,80 de pé-direito e dos moveizinhos das longras e handys não sai ambiente para governação que não seja regulamentar, burocrática, comercial e gestionária — governo com pi-pi-pi — de quartzo. Vê-se.
 
Não é a arquitectura que faz o Poder, evidentemente. O que acontece é que, implacavelmente, é o seu reflexo, indício e imagem.
Haverá talvez que repensar o Poder também nesse sentido, e reexaminar a concepção de um novo centro governamental — ideia já antiga, em Lisboa, mas aparentemente perdida...