A arquitectura é o espelho fiel
do espírito das épocas, o reflexo da vontade e do «modo de estar» em sociedade.
Tudo isto é sabido, e não interessa aqui fazer teoria e história de Arte.
Uma manifestação importante
através da Arquitectura é a do Poder. Veja-se o caso português: Carlos Mardel
deu ao Terreiro do Paço a forma própria de uma figuração física do Poder — austero,
estável, augusto, segregado, centrado sobre a imagem da Realeza tornada
monumento.
Independentemente da competência
ou eficácia dos ocupantes dos decastérios sitos naquela Praça, a carga
simbólica da arquitectura do Terreiro do Paço infunde o temor reverencial no
cidadão comum e a apetência no ambicioso político. A antonomásia encarrega-se
do resto: hoje, pelo País fora, uma decisão do governo é uma decisão do
Terreiro do Paço — as pedras, miticamente, ordenam. Os eclesiásticos dizem
«Roma locuta, causa finita» (Falou Roma, acabou-se a questão!). Na província
diz-se «O Terreiro do Paço mandou»…
Bem. Mas depois veio a expansão
do aparelho de Estado, a proliferação de Direcções-Gerais, a chuva de serviços.
No Estado Novo ainda houve uma tentativa de associar certa imagem
arquitectónica do Poder ao próprio exercício do Poder (e que imagem e que
exercício, caspité!). Mas agora o que conta não é o símbolo mas os metros
quadrados — comprados ou alugados por aí.
O Poder exerce-se em andares de
rendimento — o secretário de Estado despacha na ex-sala de estar; o
diretor-geral pondera gravemente no ex-quarto de cama; a contabilidade faz-se
nas cozinhas (a chaminé, fechada, dá um excelente arquivo); o expediente
frequenta as marquises; as telefonistas já se resignaram às dispensas. O
contínuo, esse lento habitante dos corredores escuros, põe a sua secretária de
tampo de vidro ao pé da porta do patamar à frente do quadro da electricidade e
do contador da água. Lê então com minúcia o jornal desportivo. Chamam a isto os
geógrafos «ocupação do parque habitacional pelo sector terciário». Dá teses
porreirinhas.
O Poder, esse, aluga mais e mais
casas, compra mais e mais prédios «de rendimento» por aí. Observem-se três
exemplos admiráveis: o Ministério da Educação na Av. 5 de Outubro; a S. de E.
da Cultura na Av. de República; e aquilo onde está o Governo, à R. Gomes
Teixeira.
O paradigma é o primeiro. Quem já
ali trabalhou conhece o labirinto que resulta da ligação de uns quantos
apartamentos por andar, num prédio destinado a ser vendido para propriedade
horizontal. Este ganha assim um conteúdo simbólico involuntário mas poderoso: é
a imagem própria da Educação Nacional, feita de remendos adaptada de outros
fins, improvisada, confusa e parcelar, sem saídas de emergência, paralisável ao
menor sinal de conflito. E o gabinete ministerial no topo evoca até pela
decoração a sala de estar burguesa das Avenidas que realmente é.
A Secretaria de Estado da
Cultura, onde a defesa dos valores ambientais e arquitectónicos devia ter um
baluarte, instalou-se no ridículo prédio vizinho do Galeto — a imagem total da
insignificância arquitectónica, a parda realização física da burocracia de
passo miúdo… Não contente com isso a S. de Estado guarneceu o seu rés-do-chão
com um muro de aço inoxidável resolvendo assim o seu antigo problema de que fazer
com aquele potencial stand comercial. Por entre stands de peças de automóvel e
agências bancárias, o bunker de aço da S. de E. projecta agora definitivamente
e iniludivelmente a sua imagem — banco de financiamento da «Kulturra»,
impessoal casa forte das poupanças do espírito. Está certo.
Os serviços da Presidência do
Conselho de Ministros deixaram a área de cerca beneditina para se instalarem
num «prédio» ali ao alto da Triste Faia. De novo imagem do Poder é tristemente figurada
pela sua instalação física. Naquele decente mas insignificante edifício numa
travessa escondida, não parece haver risco de que alguém se sinta Mussolinicamente
autoritário, levado pelo ambiente. Não existem vastos gabinetes de mármore com
pilastras adossadas e esculturas de escala heroica. Ainda bem. Mas dos
gabinetes de 2,80 de pé-direito e dos moveizinhos das longras e handys não sai
ambiente para governação que não seja regulamentar, burocrática, comercial e
gestionária — governo com pi-pi-pi — de quartzo. Vê-se.
Não é a arquitectura que faz o
Poder, evidentemente. O que acontece é que, implacavelmente, é o seu reflexo,
indício e imagem.
Haverá talvez que repensar o
Poder também nesse sentido, e reexaminar a concepção de um novo centro
governamental — ideia já antiga, em Lisboa, mas aparentemente perdida...
