«Comigo ninguém conta mais para
conluios. Irei, mas vestido de burel branco, na pureza do ponto zero.» —
Alberto João Jardim, à ANOP, a propósito do Congresso do PSD.
Não é a figura controversa do dr.
Jardim que aqui vem ao assunto, nem as suas ideias ou práticas. Como todos os
homens de direita com um discorrer de esquerda, ele é uma ambiguidade viva, e
para lá da evidente capacidade de realização que possui, o seu populismo de «menino
mau mas simpático» não vai muito para além daquilo que aparenta, nem o seu
interesse é tanto como julga.
O interesse aqui está no «lapsus» ou
imprecisão da intenção de se apresentar de «burel branco», simbólico, à tal
reunião do seu partido.
É que o fogoso madeirense associou
duas ideias com conteúdos diferentes — e inconscientemente talvez tenha
acertado...
A túnica branca, numa certa
antiguidade clássica era exigida aos que se apresentavam às eleições para os
cargos públicos como sinal de pureza de intenções, de limpidez de propósitos,
de candura. A veste «cândida» (branca) revestia portanto o impetrante, que era
assim um «candidatus», um candidato.
Hoje, o candidato ao lugar de
secretário do clube, ao lugar de contínuo na repartição, ou à Suprema
Magistratura da Nação não se apresenta de túnica branca, cândida — e é
pena. Teria sido exemplar ver os generais Eanes e Carneiro, há tempos, vestidos
ambos de alvo linho flutuante, mas nas próximas presidenciais isso pode ser
remediado, ou, por que não? Já nas legislativas que se aproximam, O
Secretariado Técnico para o Processo Eleitoral poderia até fixar o modelo da
túnica para os candidatos a deputados (em algodão ali de riba do Ave, porque o
linho está por um preço antidemocrático...)
Por outro lado, quando o dr.
Jardim fala em burel, esquece esse tecido de lã fruste com que possivelmente os
homens de Zarco desembarcaram na ilha, tem, simbolicamente, uma carga penitencial
— e
dificilmente é branco. É pardo e às vezes castanho, o «serrubeco», o pano rude
dos pastores dos Hermínios e dos frades mendicantes de S. Francisco, pedintes
de Deus, miseráveis por amor — e o dos supliciados pelo garrote inquisitorial.
E nisto (ah! As «enormes minúcias»
de que falava Chesterton) está tanto da vida política portuguesa em potência.
Porque Jardim misturou as coisas.
Não é assim.
Os políticos portugueses não vão
vestidos de burel branco.
Apresentam-se ao povo como
vestidos da túnica alvinitente de «candidatos», é verdade!
Mas acabam, muitas vezes, às
vistas do público, vestidos do lúgubre e escuro burel penitencial. E, quem sabe?
De corda ao pescoço...

