sexta-feira, 28 de janeiro de 1983

Burel branco

«Comigo ninguém conta mais para conluios. Irei, mas vestido de burel branco, na pureza do ponto zero.» — Alberto João Jardim, à ANOP, a propósito do Congresso do PSD.
 

Não é a figura controversa do dr. Jardim que aqui vem ao assunto, nem as suas ideias ou práticas. Como todos os homens de direita com um discorrer de esquerda, ele é uma ambiguidade viva, e para lá da evidente capacidade de realização que possui, o seu populismo de «menino mau mas simpático» não vai muito para além daquilo que aparenta, nem o seu interesse é tanto como julga.
O interesse aqui está no «lapsus» ou imprecisão da intenção de se apresentar de «burel branco», simbólico, à tal reunião do seu partido.
É que o fogoso madeirense associou duas ideias com conteúdos diferentes — e inconscientemente talvez tenha acertado...
A túnica branca, numa certa antiguidade clássica era exigida aos que se apresentavam às eleições para os cargos públicos como sinal de pureza de intenções, de limpidez de propósitos, de candura. A veste «cândida» (branca) revestia portanto o impetrante, que era assim um «candidatus», um candidato.
Hoje, o candidato ao lugar de secretário do clube, ao lugar de contínuo na repartição, ou à Suprema Magistratura da Nação não se apresenta de túnica branca, cândida — e é pena. Teria sido exemplar ver os generais Eanes e Carneiro, há tempos, vestidos ambos de alvo linho flutuante, mas nas próximas presidenciais isso pode ser remediado, ou, por que não? Já nas legislativas que se aproximam, O Secretariado Técnico para o Processo Eleitoral poderia até fixar o modelo da túnica para os candidatos a deputados (em algodão ali de riba do Ave, porque o linho está por um preço antidemocrático...)
Por outro lado, quando o dr. Jardim fala em burel, esquece esse tecido de lã fruste com que possivelmente os homens de Zarco desembarcaram na ilha, tem, simbolicamente, uma carga penitencial — e dificilmente é branco. É pardo e às vezes castanho, o «serrubeco», o pano rude dos pastores dos Hermínios e dos frades mendicantes de S. Francisco, pedintes de Deus, miseráveis por amor — e o dos supliciados pelo garrote inquisitorial.
 
 
E nisto (ah! As «enormes minúcias» de que falava Chesterton) está tanto da vida política portuguesa em potência.
Porque Jardim misturou as coisas.
Não é assim.
Os políticos portugueses não vão vestidos de burel branco.
Apresentam-se ao povo como vestidos da túnica alvinitente de «candidatos», é verdade!
Mas acabam, muitas vezes, às vistas do público, vestidos do lúgubre e escuro burel penitencial. E, quem sabe? De corda ao pescoço...