sexta-feira, 10 de dezembro de 1982

Ministério do Interior

SURPRESAS sobre surpresas, as que nos reservam os nossos homens políticos!

Temos um, figura de vulto após o 25 de Abril e mesmo chefe de um Governo, que o País, alarmado, veio a descobrir já tarde acalentando sonhos de tomar pela força uma cidadezinha raiana semiesquecida. Olhem se se tivesse sabido na altura! Alguém lhe confiava a governação do País?
Agora, o vice-primeiro-ministro, figura física e intelectualmente imponente, vem, por sua vez surpreender-nos. Ninguém pode imaginar que daquela torre de seriedade, por entre o majestoso rolar da frase doutoral (com premissa maior, menor, e conclusão: para alguma coisa serve a privança com S. Tomás de Aquino...), ninguém pode, dizia eu, acreditar numa piscadela de olho marota, nem sequer em qualquer deslize impensado. E é isso que é perturbante - é que às vezes parecem-no, sabendo nós que não podem na realidade sê-lo.
Ora o aluno estimado do prof. Marcelo Caetano, e continuador deste na publicação do fundamental «Manual de Direito Administrativo», o chefe de um partido que insistentemente propugna a não proliferação do funcionalismo nem o alargamento da máquina do Estado, exprimiu em público a ideia de que seria intenção governamental a criação de um Ministério para o Desenvolvimento do Interior.
Mas depois de tudo o que os conservadores têm dito acerca do intervencionismo do Estado e dos seus malefícios: depois de tudo o que os conservadores têm dito acerca do Poder Local e Regional; depois de no seu Projecto de Lei da Orgânica Regional introduzirem uma figura prefeitural, equivalente à dos governadores civis para assegurar uma tutela bem apertadinha às veleidades regionalistas, eu cá, se fosse do «interior» o que é que pensaria de tudo isto?
- Um Ministério (ouvi bem?) para o Desenvolvimento do Interior! Foi o continuador da publicação do «Manual» que o disse? Na Covilhã?
Não me restaria dúvida nenhuma - e também eu recorreria ao silogismo e às suas formas válidas; agarrava na maior, agarrava na menor, extraía a conclusão. A conclusão inevitável é que a intenção seria a de dar cabo de uma vez para sempre com o dito «interior»...
 
Já entrevejo daqui as monumentais querelas entre o Ministério da Administração Interna, o das Finanças e do Plano, o as Obras Públicas e o recém-chegado. Posso saborear desde já os finíssimos debates em perspectiva só para definir o que é «interior» e o que, não sendo, fica fora das benesses a espargir por aquele novo decastério (lá virão, inevitáveis, Lautensach, Orlando Ribeiro, Albuquerque, todos...). E depois, as maravilhosas oportunidades para uma nova burocracia a primor, minada por interesses e rivalidades locais. As belíssimas condições para colocações, transferências, promoções (e então vem a alegria dada ao Ministério da Reforma Administrativa, como prémio). E a deliciosa fase da procura de instalações, o ensaiar de cadeiras e secretárias. Os organigramas e o pequeno mas infalível orgasmo informático da moda. Alcatifas. Telefones. Contínuos. Papel timbrado. Motoristas.
E o «interior» lá, claro! Para desenvolver.
Vem-me uma ligeira, oh! Uma ligeiríssima suspeita de que a esta distância das autárquicas - e naquela cidade - o vice-primeiro-ministro se tenha deixado levar, num momento fugidio, por um vago anseio eleitoralista, certamente logo reprimido sob a fronte austera e o olhar duramente perscrutador que o caracterizam.
 
Mas se não o reprimir, e o Ministério for para a frente, então exijo uma secretaria de Estado (pelo menos!) para o desenvolvimento de Campolide. Talvez eu possa vir a ser director-geral de desenvolvimento de Campolide de Baixo. Talvez arranje lugar para a filha da sra. Joana, que está desempregada. Telefonista, talvez.