SURPRESAS sobre surpresas, as que
nos reservam os nossos homens políticos!
Temos um, figura de vulto após o
25 de Abril e mesmo chefe de um Governo, que o País, alarmado, veio a descobrir
já tarde acalentando sonhos de tomar pela força uma cidadezinha raiana
semiesquecida. Olhem se se tivesse sabido na altura! Alguém lhe confiava a
governação do País?
Agora, o vice-primeiro-ministro,
figura física e intelectualmente imponente, vem, por sua vez surpreender-nos.
Ninguém pode imaginar que daquela torre de seriedade, por entre o majestoso
rolar da frase doutoral (com premissa maior, menor, e conclusão: para alguma
coisa serve a privança com S. Tomás de Aquino...), ninguém pode, dizia eu,
acreditar numa piscadela de olho marota, nem sequer em qualquer deslize
impensado. E é isso que é perturbante - é que às vezes parecem-no, sabendo nós
que não podem na realidade sê-lo.
Ora o aluno estimado do prof.
Marcelo Caetano, e continuador deste na publicação do fundamental «Manual de
Direito Administrativo», o chefe de um partido que insistentemente propugna a
não proliferação do funcionalismo nem o alargamento da máquina do Estado,
exprimiu em público a ideia de que seria intenção governamental a criação de um
Ministério para o Desenvolvimento do Interior.
Mas depois de tudo o que os
conservadores têm dito acerca do intervencionismo do Estado e dos seus
malefícios: depois de tudo o que os conservadores têm dito acerca do Poder
Local e Regional; depois de no seu Projecto de Lei da Orgânica Regional
introduzirem uma figura prefeitural, equivalente à dos governadores civis para
assegurar uma tutela bem apertadinha às veleidades regionalistas, eu cá, se
fosse do «interior» o que é que pensaria de tudo isto?
- Um Ministério (ouvi bem?) para
o Desenvolvimento do Interior! Foi o continuador da publicação do «Manual» que
o disse? Na Covilhã?
Não me restaria dúvida nenhuma - e
também eu recorreria ao silogismo e às suas formas válidas; agarrava na maior,
agarrava na menor, extraía a conclusão. A conclusão inevitável é que a intenção
seria a de dar cabo de uma vez para sempre com o dito «interior»...
Já entrevejo daqui as monumentais
querelas entre o Ministério da Administração Interna, o das Finanças e do
Plano, o as Obras Públicas e o recém-chegado. Posso saborear desde já os
finíssimos debates em perspectiva só para definir o que é «interior» e o que,
não sendo, fica fora das benesses a espargir por aquele novo decastério (lá
virão, inevitáveis, Lautensach, Orlando Ribeiro, Albuquerque, todos...). E
depois, as maravilhosas oportunidades para uma nova burocracia a primor, minada
por interesses e rivalidades locais. As belíssimas condições para colocações,
transferências, promoções (e então vem a alegria dada ao Ministério da Reforma
Administrativa, como prémio). E a deliciosa fase da procura de instalações, o
ensaiar de cadeiras e secretárias. Os organigramas e o pequeno mas infalível
orgasmo informático da moda. Alcatifas. Telefones. Contínuos. Papel timbrado.
Motoristas.
E o «interior» lá, claro! Para
desenvolver.
Vem-me uma ligeira, oh! Uma ligeiríssima
suspeita de que a esta distância das autárquicas - e naquela cidade - o vice-primeiro-ministro
se tenha deixado levar, num momento fugidio, por um vago anseio eleitoralista,
certamente logo reprimido sob a fronte austera e o olhar duramente perscrutador
que o caracterizam.
Mas se não o reprimir, e o
Ministério for para a frente, então exijo uma secretaria de Estado (pelo
menos!) para o desenvolvimento de Campolide. Talvez eu possa vir a ser
director-geral de desenvolvimento de Campolide de Baixo. Talvez arranje lugar
para a filha da sra. Joana, que está desempregada. Telefonista, talvez.
