Aproximam-se eleições e os
cartazes já começam a ser impressos para, em crostas, cobrir as paredes. As
latas de tinta já começam a abrir-se para o frenesim das inscrições.
Há quem se escandalize
(excessivamente) com a floração de dísticos e inscrições nas paredes — é certo
que por vezes roçam o obsceno ou estão em plena grosseria: é certo que são
desrespeitosas de valores ambientais e que a animação que introduzem na paisagem
urbana é, por vezes, apenas desordem e selvajaria.
Mas é um inegável direito e uma
demonstração de vitalidade — deseja-se apenas que progressivamente se venha a
subordinar a uma indispensável moderação e civismo.
É para já: que não se escreva
sobre a cantaria!
Digo cantaria, isto é, pedra
maciça, cortada em blocos como a dos cunhais, pilastras e envasamentos das
casas antigas de Lisboa. A pedra moderna de forro, serrada, não tem a mesma
nobreza, é outra coisa...
Sabereis então que a pedra
calcária, tirada da sua jazida na pedreira ainda impregnada de humidade
subterrânea uma vez posta em obra leva anos a perder a sua água interior que
vem aflorar à superfície trazendo dissolvido o óxido de cálcio — em contacto
com o anidrido carbónico atmosférico forma uma camada dura, transparente e
cristalina de carbono de cálcio. É essa crosta que, aqui e além atacada pelas
intempéries, dá toda a rugosidade e patine das pedras velhas, que se tornam
comoventes e expressivas como as rugas da pele humana. (Ao contrário do que
pensa a maioria das pessoas quando cai a chuva e dizem «Que bom! Lava os
monumentos e as casas; faz-lhes muito bem!» — essa é a pior altura: os
sulfuretos provenientes da borracha dos pneus e da oxidação dos combustíveis,
depositados como finíssimo pó seco sobre as fachadas e as estátuas,
dissolvem-se na água que escorre e é então que se formam ácidos nascentes que
corroem o mármore e o bronze... ).
Portanto, quando se raspa uma
cantaria para lhe arrancar inscrições pintadas a óleo ou a «spray» celulósico,
que se infiltram pela porosidade da pedra, o que se faz é retirar-lhe a camada
natural de carbono de cálcio duro e resistente que a protegia. O leigo fica
contente porque vê a pedra de novo, branquinha e limpa. O homem que conhece a
pedra fica pesaroso: sabe que lhe foi arrancada a pele natural e invisível;
sabe que agora os fumos ácidos, os sulfuretos e hidrocarbonetos atmosféricos
têm o caminho livre para a corrosão.
Já a pedra serrada em placas de
dois centímetros que reveste alguns prédios modernos não tem este carácter: foi
serrada e posta a secar na pedreira, foi depois aplainada de novo e colada — é
apenas um revestimento e nunca virá a ter vida como a pedra de cantaria.
De qualquer modo, é preciso
apelar para os militantes dos partidos. Se têm mesmo que escrever coisas nas
paredes, façam-no com tintas de água e só nos rebocos!
Os rebocos substituem-se. As
tintas de água acabam por ser levadas pela intempérie e deixam até, às vezes,
uma agradável patine.
Mas as cantarias, por favor - não
as matem!
