segunda-feira, 6 de dezembro de 1982

Química, pedra e eleições

Aproximam-se eleições e os cartazes já começam a ser impressos para, em crostas, cobrir as paredes. As latas de tinta já começam a abrir-se para o frenesim das inscrições.


Há quem se escandalize (excessivamente) com a floração de dísticos e inscrições nas paredes — é certo que por vezes roçam o obsceno ou estão em plena grosseria: é certo que são desrespeitosas de valores ambientais e que a animação que introduzem na paisagem urbana é, por vezes, apenas desordem e selvajaria.
Mas é um inegável direito e uma demonstração de vitalidade — deseja-se apenas que progressivamente se venha a subordinar a uma indispensável moderação e civismo.
É para já: que não se escreva sobre a cantaria!
Digo cantaria, isto é, pedra maciça, cortada em blocos como a dos cunhais, pilastras e envasamentos das casas antigas de Lisboa. A pedra moderna de forro, serrada, não tem a mesma nobreza, é outra coisa...
Sabereis então que a pedra calcária, tirada da sua jazida na pedreira ainda impregnada de humidade subterrânea uma vez posta em obra leva anos a perder a sua água interior que vem aflorar à superfície trazendo dissolvido o óxido de cálcio — em contacto com o anidrido carbónico atmosférico forma uma camada dura, transparente e cristalina de carbono de cálcio. É essa crosta que, aqui e além atacada pelas intempéries, dá toda a rugosidade e patine das pedras velhas, que se tornam comoventes e expressivas como as rugas da pele humana. (Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas quando cai a chuva e dizem «Que bom! Lava os monumentos e as casas; faz-lhes muito bem!» — essa é a pior altura: os sulfuretos provenientes da borracha dos pneus e da oxidação dos combustíveis, depositados como finíssimo pó seco sobre as fachadas e as estátuas, dissolvem-se na água que escorre e é então que se formam ácidos nascentes que corroem o mármore e o bronze... ).
Portanto, quando se raspa uma cantaria para lhe arrancar inscrições pintadas a óleo ou a «spray» celulósico, que se infiltram pela porosidade da pedra, o que se faz é retirar-lhe a camada natural de carbono de cálcio duro e resistente que a protegia. O leigo fica contente porque vê a pedra de novo, branquinha e limpa. O homem que conhece a pedra fica pesaroso: sabe que lhe foi arrancada a pele natural e invisível; sabe que agora os fumos ácidos, os sulfuretos e hidrocarbonetos atmosféricos têm o caminho livre para a corrosão.
Já a pedra serrada em placas de dois centímetros que reveste alguns prédios modernos não tem este carácter: foi serrada e posta a secar na pedreira, foi depois aplainada de novo e colada — é apenas um revestimento e nunca virá a ter vida como a pedra de cantaria.
 
De qualquer modo, é preciso apelar para os militantes dos partidos. Se têm mesmo que escrever coisas nas paredes, façam-no com tintas de água e só nos rebocos!
Os rebocos substituem-se. As tintas de água acabam por ser levadas pela intempérie e deixam até, às vezes, uma agradável patine.
Mas as cantarias, por favor - não as matem!