Nas entradas da Ponte sobre o
Tejo existem agora uns letreiros que mandam acender os faróis médios ao
atravessa-la. Creio que falta ali informação suplementar, porque não é em todas
as circunstâncias nem em todos os dias que tal disposição vigora — mas não são
as razões (certamente graves e ponderadas) daquela determinação que me levam a
invocá-la.
O caso é que o automobilista
encontra um dístico que lhe diz «na Ponte circule com os médios acesos», e ele
obedece; ao sair da ponte, encontra o mesmo dístico, cruzado com um traço,
sinal de negação. Não se exige aos chefes da ponte ou das estradas ou lá do que
é, que pratiquem a lógica formal; compreenderiam que aquilo, em rigor, tanto
pode significar «agora fora da ponte circule com os médios acesos» como
«circule na ponte com os médios apagados», como «não circule na ponte, nem com
os médios acesos», etc. Porém, todos deveremos saber que se trata simplesmente
de um sinal de cessação da indicação anterior, e que se espera apenas que, como
a cabeça leitora de um computador ao percorrer a fita magnética, aqueles novos
bits de informação obliterem a informação anterior. Excelente. Impecável.
Presumo até que os sábios do templo da inteligência artificial e da ciência dos
computadores que começa a erguer-se na Universidade Nova na outra banda, se
sintam reconfortados com o alvorecer do uso da lógica bivalente no quotidiano
estradal, ao passar pela portagem. Lá chegaremos, se insistirmos.
Acontece é que basta estar um
bocado na Av. Duarte Pacheco, ou na estrada de Setúbal, por exemplo, para
observar o número considerável de automóveis ainda com os faróis acesos. Se um
automóvel andar em Lisboa, em pleno Agosto, de dia, com os faróis acesos,
aposta-se nele dobrado contra singelo em como atravessou a ponte. As más
línguas atribuem mesmo esta medida ao «lobbying» dos comerciantes de baterias,
que fariam fortunas a carregar e trocar baterias descarregadas por causa dos
faroizinhos esquecidos e acesos — é, evidentemente uma falsidade, que
rejeitaremos com indignação.
Mas há uma grande lição a tirar de tudo isto,
lá isso hál Então, se a atenção de um automobilista em cada dez ou quinze não
resiste a um percurso de 1500 metros: se cinco minutos após uma mensagem
motivadora o seu efeito se desvaneceu — como é que a autoridade superintendente
nas estradas e nos sinais de trânsito e nas pontes pode crer no poder
informador e motivador de qualquer sinalefa posta no começo de uma estrada e
pensar que ele se mantém ao longo de 30 ou 40 km? Com que cinismo ou hipocrisia
comina penas através de indicações que, factualmente exatas («et encore»....)
são, tantas vezes, psicologicamente e informacionalmente nulas?
Basta, para confortar as
consciências (hipotéticas) desses responsáveis que a informação,
objectivamente, esteja lá. Que seja ou não eficiente, não é problema já seu.
(imagino, por exemplo, que não seria difícil, no caso da nossa bela ponte
lisboeta e almadense, ter uns letreiros luminosos à entrada e à saída, dizendo
«Atenção! Tem de acender os faróis» e «Já pode apagar os faróis». Se essa
informação é assim tão importante, façam letras grandes, intermitentes,
cintilantes. O funcionário que está lá numa casinha envidraçada na portagem,
que tenha um comutador para ligar o sinal quando for preciso — não é assim uma
tarefa tão exaustiva! C'o a breca, sempre seria mais útil que um painel
permanente e mal desenhado, que tem de ser lido em poucos centésimos de segundo
no meio do tráfego!)
Ora tudo isto é inquietante, não
em si mesmo (que até umas multazitas e uma ou outra bateria descarregada não
têm assim muita importância.). É inquietante em termos de toda a informação
pública, em torno da qual se articula a vida colectiva. É inquietante, em
termos da confusão crescente, e alimentada por poderosos interesses e carreiras
universitárias, entre informática (maldito De Gaulle, maldito «Plan Calcul»,
maldita Academia das Ciências e College de France!): informação e comunicação.
Todo o articulado, e aqui quero
dizer rigorosamente todo o articulado que regula a vida colectiva, sob a forma
de legislação e regulamentação de toda a natureza e calibre, está muito para
além da capacidade de qualquer mente humana — ninguém pode materialmente saber
tudo o que regula e condiciona a sua própria vida cívica — somos todos, mesmo o
Presidente do Supremo, permanentes transgressores, marginais e clandestinos
(devo dizer que não sei quem é o Presidente do Supremo, mas ele que me desafie,
e com paciência, encontrar-lhe-ei vinte ou trinta infracções, ou coisas dessas,
todas puníveis...). No entanto, com uma das mais frias e hipócritas atitudes
possíveis, o Estado Tartufo, grave, proclama: «o desconhecimento da Lei não
aproveita a ninguém».
Vem logo aí a Ciência Jurídica
ralhar-me (e fazem-no regularmente amigos meus cultores daquelas práticas). Que
não, que não é assim, que isto e aquilo, que Filomusi-Guelfi e Merkl disseram
que, etc., etc.
Eu cá acho que para a condução da
coisa pública, tão importantes ou mais do que a ciência jurídica e
administrativa, são as ciências da comunicação, as artes visuais e o design.
Não basta definir e legislar
acerca daquilo que o cidadão deve ou não fazer, pode ou não fazer: é preciso
que ele o saiba sem ambiguidade, facilmente e em tempo útil. Se não for assim,
não são só as baterias que se extinguem — é o País todo que, a pouco e pouco,
se vai extinguindo.

