sexta-feira, 26 de novembro de 1982

O letreiro e os faróis

Nas entradas da Ponte sobre o Tejo existem agora uns letreiros que mandam acender os faróis médios ao atravessa-la. Creio que falta ali informação suplementar, porque não é em todas as circunstâncias nem em todos os dias que tal disposição vigora — mas não são as razões (certamente graves e ponderadas) daquela determinação que me levam a invocá-la.
O caso é que o automobilista encontra um dístico que lhe diz «na Ponte circule com os médios acesos», e ele obedece; ao sair da ponte, encontra o mesmo dístico, cruzado com um traço, sinal de negação. Não se exige aos chefes da ponte ou das estradas ou lá do que é, que pratiquem a lógica formal; compreenderiam que aquilo, em rigor, tanto pode significar «agora fora da ponte circule com os médios acesos» como «circule na ponte com os médios apagados», como «não circule na ponte, nem com os médios acesos», etc. Porém, todos deveremos saber que se trata simplesmente de um sinal de cessação da indicação anterior, e que se espera apenas que, como a cabeça leitora de um computador ao percorrer a fita magnética, aqueles novos bits de informação obliterem a informação anterior. Excelente. Impecável. Presumo até que os sábios do templo da inteligência artificial e da ciência dos computadores que começa a erguer-se na Universidade Nova na outra banda, se sintam reconfortados com o alvorecer do uso da lógica bivalente no quotidiano estradal, ao passar pela portagem. Lá chegaremos, se insistirmos.
Acontece é que basta estar um bocado na Av. Duarte Pacheco, ou na estrada de Setúbal, por exemplo, para observar o número considerável de automóveis ainda com os faróis acesos. Se um automóvel andar em Lisboa, em pleno Agosto, de dia, com os faróis acesos, aposta-se nele dobrado contra singelo em como atravessou a ponte. As más línguas atribuem mesmo esta medida ao «lobbying» dos comerciantes de baterias, que fariam fortunas a carregar e trocar baterias descarregadas por causa dos faroizinhos esquecidos e acesos — é, evidentemente uma falsidade, que rejeitaremos com indignação.
Mas há uma grande lição a tirar de tudo isto, lá isso hál Então, se a atenção de um automobilista em cada dez ou quinze não resiste a um percurso de 1500 metros: se cinco minutos após uma mensagem motivadora o seu efeito se desvaneceu — como é que a autoridade superintendente nas estradas e nos sinais de trânsito e nas pontes pode crer no poder informador e motivador de qualquer sinalefa posta no começo de uma estrada e pensar que ele se mantém ao longo de 30 ou 40 km? Com que cinismo ou hipocrisia comina penas através de indicações que, factualmente exatas («et encore»....) são, tantas vezes, psicologicamente e informacionalmente nulas?

 
Basta, para confortar as consciências (hipotéticas) desses responsáveis que a informação, objectivamente, esteja lá. Que seja ou não eficiente, não é problema já seu. (imagino, por exemplo, que não seria difícil, no caso da nossa bela ponte lisboeta e almadense, ter uns letreiros luminosos à entrada e à saída, dizendo «Atenção! Tem de acender os faróis» e «Já pode apagar os faróis». Se essa informação é assim tão importante, façam letras grandes, intermitentes, cintilantes. O funcionário que está lá numa casinha envidraçada na portagem, que tenha um comutador para ligar o sinal quando for preciso — não é assim uma tarefa tão exaustiva! C'o a breca, sempre seria mais útil que um painel permanente e mal desenhado, que tem de ser lido em poucos centésimos de segundo no meio do tráfego!)
Ora tudo isto é inquietante, não em si mesmo (que até umas multazitas e uma ou outra bateria descarregada não têm assim muita importância.). É inquietante em termos de toda a informação pública, em torno da qual se articula a vida colectiva. É inquietante, em termos da confusão crescente, e alimentada por poderosos interesses e carreiras universitárias, entre informática (maldito De Gaulle, maldito «Plan Calcul», maldita Academia das Ciências e College de France!): informação e comunicação.
 
Todo o articulado, e aqui quero dizer rigorosamente todo o articulado que regula a vida colectiva, sob a forma de legislação e regulamentação de toda a natureza e calibre, está muito para além da capacidade de qualquer mente humana — ninguém pode materialmente saber tudo o que regula e condiciona a sua própria vida cívica — somos todos, mesmo o Presidente do Supremo, permanentes transgressores, marginais e clandestinos (devo dizer que não sei quem é o Presidente do Supremo, mas ele que me desafie, e com paciência, encontrar-lhe-ei vinte ou trinta infracções, ou coisas dessas, todas puníveis...). No entanto, com uma das mais frias e hipócritas atitudes possíveis, o Estado Tartufo, grave, proclama: «o desconhecimento da Lei não aproveita a ninguém».
Vem logo aí a Ciência Jurídica ralhar-me (e fazem-no regularmente amigos meus cultores daquelas práticas). Que não, que não é assim, que isto e aquilo, que Filomusi-Guelfi e Merkl disseram que, etc., etc.
 
Eu cá acho que para a condução da coisa pública, tão importantes ou mais do que a ciência jurídica e administrativa, são as ciências da comunicação, as artes visuais e o design.
Não basta definir e legislar acerca daquilo que o cidadão deve ou não fazer, pode ou não fazer: é preciso que ele o saiba sem ambiguidade, facilmente e em tempo útil. Se não for assim, não são só as baterias que se extinguem — é o País todo que, a pouco e pouco, se vai extinguindo.