sábado, 13 de novembro de 1982

Trade Center lusíada

Anunciou o presidente da Câmara de Lisboa o «Trade Center» Lusíada, lugar privilegiado de encontro dos povos (e economias) de expressão portuguesa.
Sim, impunha-se. Era mesmo um «must».
A Portugalidade no Mundo, a defesa da presença da língua de Camões e de Fernando («my language is my country».) Pessoa, exigem-no.
 
Espera-se do retinto casticismo dos «free-shops», e das «conference rooms» com pipas falsas, condutas de ar condicionado disfarçadas de traves de carvalho antigo de fórmica, ramos de louro de plástico lavável, e de microfones para a tradução simultânea em forma de caneca de barro, a grande afirmação portuguesa e alfacinha no mundo do «business» internacional.
Vejo-o já, a funcionar:
— Os «muzaks» difundindo música suave de fundo (R. Guedes e J. Calvário) — mas para quem quiser, os aparelhos «Fado-o-matic» com introdução de uma moeda de dólar, darão Amália e Rodrigo nos auscultadores individuais.
— Os gabinetes e escritórios serão arranjados, uns segundo o modelo de salas do «castle» de Guimarães, outros em estilo «fake Minho palace», outros como salas capitulares da Batalha; quanto ao «office» da Câmara Municipal no «trade Center» não tenho dúvida: só pode ser a taberna do «Mal-Cozinhado», reconstituída.
 
— Grandes «display panels» darão a cada momento as cotações internacionais das moedas, referidas evidentemente a «carcanhois» e «lecas» lusíadas como «accounting currency». O bargaining far-se-á de pé, junto de cavalos feitos de polyester com «telex», e terminais disfarçados nas selas, ao modo tradicional das antigas «fairs» portuguesas.
— O pessoal será a carácter, as tradutoras-intérpretes, à moda do Minho; os operadores de telex, de campinos (com pampilho «two-way transceiver»); do director do Trade Center e do seu «board» o menos que se pode esperar é que estejam de Afonso de Albuquerque. (mas em «pin-strip»,  jaquetão double-breasted e sapatos Gucci).
 
A Weltanschaung lusíada realizará no give and take da actividade económica e financeira a filosofia portuguesa, que encontrará aí a verdadeira sublimação da fenomenologia da saudade na fixação dos exchange rates, das IOD e das promissórias. Os dealings, obviamente, não dirigirão a «futures» mas sim a «pasts».
 
Nada de tão lusíada, portanto, como um Trade Center, e o nome indica-o. Por sobre tudo isto resplandecerá benignamente, como sempre, o ambiente fecundo da grande «Portuguese Corporate Conservative Shit»