Anunciou o presidente da Câmara
de Lisboa o «Trade Center» Lusíada, lugar privilegiado de encontro dos povos (e
economias) de expressão portuguesa.
Sim, impunha-se. Era mesmo um
«must».
A Portugalidade no Mundo, a
defesa da presença da língua de Camões e de Fernando («my language is my
country».) Pessoa, exigem-no.
Espera-se do retinto casticismo
dos «free-shops», e das «conference rooms» com pipas falsas, condutas de ar
condicionado disfarçadas de traves de carvalho antigo de fórmica, ramos de
louro de plástico lavável, e de microfones para a tradução simultânea em forma
de caneca de barro, a grande afirmação portuguesa e alfacinha no mundo do
«business» internacional.
Vejo-o já, a funcionar:
— Os «muzaks» difundindo música
suave de fundo (R. Guedes e J. Calvário) — mas para quem quiser, os aparelhos
«Fado-o-matic» com introdução de uma moeda de dólar, darão Amália e Rodrigo nos
auscultadores individuais.
— Os gabinetes e escritórios
serão arranjados, uns segundo o modelo de salas do «castle» de Guimarães,
outros em estilo «fake Minho palace», outros como salas capitulares da Batalha;
quanto ao «office» da Câmara Municipal no «trade Center» não tenho dúvida: só
pode ser a taberna do «Mal-Cozinhado», reconstituída.
— Grandes «display panels» darão
a cada momento as cotações internacionais das moedas, referidas evidentemente a
«carcanhois» e «lecas» lusíadas como «accounting currency». O bargaining
far-se-á de pé, junto de cavalos feitos de polyester com «telex», e terminais
disfarçados nas selas, ao modo tradicional das antigas «fairs» portuguesas.
— O pessoal será a carácter, as
tradutoras-intérpretes, à moda do Minho; os operadores de telex, de campinos
(com pampilho «two-way transceiver»); do director do Trade Center e do seu
«board» o menos que se pode esperar é que estejam de Afonso de Albuquerque.
(mas em «pin-strip», jaquetão
double-breasted e sapatos Gucci).
A Weltanschaung lusíada realizará
no give and take da actividade económica e financeira a filosofia portuguesa,
que encontrará aí a verdadeira sublimação da fenomenologia da saudade na
fixação dos exchange rates, das IOD e das promissórias. Os dealings,
obviamente, não dirigirão a «futures» mas sim a «pasts».
Nada de tão lusíada, portanto,
como um Trade Center, e o nome indica-o. Por sobre tudo isto resplandecerá
benignamente, como sempre, o ambiente fecundo da grande «Portuguese Corporate
Conservative Shit»

