Olhando para o que se passa entre
os órgãos de soberania (ou pelo menos, entre alguns deles...), é a altura de
ler uma peça de Bernard Shaw, esse velho incrível! Escreveu-a ele em 1929, quando
Mussolini afirmava que «há um trono vago em cada país da Europa, à espera de um
homem apto que o ocupe». Não é já o que acontece hoje, e entre nós não há reis
em exército - no entanto, não deixa de ser importante a reflexão que nos propõe
esta peça, a que B. Shaw chamava «uma fantasia política». Passa-se num tempo
futuro, mas o tempo futuro de Shaw em 1929 remete-nos impressionantemente para
«depois de 1962”...
Chama-se «The Apple Cart» (O
carro das maçãs), e extraio do próprio prefácio de Shaw estes troços, que
proponho a uma leitura atenta:
... «Tinha escrito uma comédia na
qual um Rei derrota uma tentativa do seu Primeiro-Ministro eleito pelo voto
popular, no sentido de o privar do direito de influenciar a opinião pública
através da imprensa e do discurso público; em resumo, reduzi-lo a um zero. A
resposta do Rei é que antes de ser reduzido a um zero, abandonará o trono e
tentará a sua obviamente grande «chance» de se tornar ele mesmo um
Primeiro-Ministro eleito popularmente. Àqueles que acreditam que o nosso
sistema de votos por todos produz parlamentos que representam o povo, pareceria
que esta solução para a dificuldade é completamente democrática, e que o
Primeiro-Ministro a aceitaria imediatamente com alegria, como tal. Mas este
sabe bem o que significa. A mudança aglutinaria o voto regalista antidemocrático
contra ele, e impor-lhe-ia um rival na pessoa do único homem público cuja habilidade
ele deve temer. O paradoxo «comédico» da situação é que o Rei vence, não pelo exercício
da sua autoridade régia, mas por ameaçar abdicar e concorrer às eleições» (pg
1).
Magnífico! Depois de continuar a explicar a
substância do conflito entre o Rei Magnus e o Primeiro-Ministro Mr. Proteus, em
prosa que apeteceria transcrever toda, tem este trecho a que não posso
resistir:
... «Além do mais, o conflito não
é realmente entre a realeza e a democracia. É entre as duas e a plutocracia, a
qual, tendo destruído o poder régio pela força sob pretextos democráticos,
comprou e engoliu a democracia. O dinheiro fala: o dinheiro imprime; o dinheiro
radiodifunde; o dinheiro reina; e reis e trabalhadores, igualmente, têm que
aceitar os seus decretos e garantir os seus lucros. A democracia já nem sequer
é comprada; é desprezada. Ministros que são socialistas até à medula ficam
impotentes nas garras da «Breakages Limited» como seus capangas reconhecidos:
desde o momento em que atingem aquilo a que, com ironia não intencional, se
chama poder (significando na verdade o frete de ter que aguentar por conta dos
plutocratas), já não ousam nem sequer falar em nacionalizar qualquer indústria,
por mais socialmente vital que seja, da qual ainda seja possível extrair um
tostão de lucro para a plutocracia, ou que ainda possa dá-lo através de
subsídios.» (p 4 - ed. Longmans, Green 1965).
Isto dói-lhe, leitor? Não tenho a
culpa; foi o estupor do irlandês que escreveu, e não eu, e ainda por cima em
1929. Não podia, portanto, estar a referir-se a Portugal meio século depois,
pois não?
Mas era bem interessante que o
Teatro Nacional, por exemplo, levasse à cena, imediatamente, «The Apple Cart».
À atenção da Secretaria de Estado
da Cultura.

