quinta-feira, 7 de outubro de 1982

Submarino nuclear português

Aquele barco que está à frente da Ribeira das Naus, de barco, parece que é para ficar.




Vai gastar-se um dinheirão para continuar a tentar safá-lo, a tal ponto que quando se conseguir (se se conseguir), já nem compensa.
Bem mais interessante seria dar-lhe um fim útil, assim, a partir da situação concreta em que está.
Pôr-lhe um restaurante típico e panorâmico, em cima? É pouco seguro, apesar de que a CML certamente gostaria, porque isso de instalar restaurantes é muito com ela. Uma plataforma de prospecção de petróleo? Talvez; porque não? Quem é que garante que ali não há petróleo — o que até tinha muita graça se acontecesse?
Eu proponho outra coisa. Proponho que se faça dali um submarino atómico, soldando-lhe uma peça de chapa e uns tubos, como indico no boneco.
 
 
Ora bem, sei perfeitamente que há umas coisas a esclarecer. Vamos lá por partes, então, rebatendo um a um os argumentos que estou mesmo a ver que irão ser postos:
a) Não é submarino, nem é atómico. Olha a novidade. Todos sabem que era um navio porta-contentores, afundado, de barriga para o ar. Mas argumentar assim é não perceber a verdadeira beleza da questão. Repare-se: toda a gente sabe de antemão que não é um submarino atómico, mas basta a convicção em afirmar que é, aliada à inatacável lógica de que se fosse um submarino atómico era «o mesmo»; «sendo-o, sê-lo-ia sem dúvida» e portanto nada obsta a que «use o pudesse ser, certamente seria!» Com muito menos do que isto se constroem por aí todos os dias realidades politicas e militares muito menos saudáveis.
b) Não navega, e como arma é nulo. Ora isso mesmo é que é simplesmente admirável. Que maravilhoso símbolo para um País, que, sem abdicar do direito a possuir como os outros as armas mais horríveis, o faz apenas simbolicamente, dando ao Mundo o duplo exemplo de pacifismo militante e de concreta abstenção de aumento das despesas militares que arruínam as nações, ao mesmo tempo que demonstra o melhor senso ecológico antinuclear e pratica a reciclagem industrial!
c) Está em mau sítio. Não está. Está ali mesmo ao pé do Terreiro do Paço, no centro simbólico do Poder Executivo, como silencioso guardião da liberdade e da soberania, discreto e firme — não se poderia ter escolhido melhor, depois do fiasco da Fragata D. Fernando (que, para quem não saiba, era Navio Almirante da Esquadra Portuguesa, ora toma lá! e este pelo menos é incombustível. Convém aos grandes símbolos nacionais ser incombustíveis, senão, é o que se tem visto...)
 
Se o Ministério da Marinha quiser, eu faço o desenho do acrescento de chapa (torre e periscópio) que copiei dum destes que vêm nas caixas para os miúdos colarem, de plástico moldado.
Podia-se mandar fabricar na Lisnave, aproveitando restos de chapa usada de petroleiro. Pintava-se de cinzento, com grandes letras brancas: UX-235.