segunda-feira, 4 de outubro de 1982

História e pautas alfandegárias

O meu amigo luxemburguês não tem razão.
Como estudioso que é dos problemas da CEE, sustenta que a integração ibérica naquele grandioso empreendimento político-mercantil deverá ser fácil no que respeita às relações mútuas, porque no quadro histórico europeu, Portugal e Espanha mantém razoáveis relações há muitos séculos, tem línguas muito aparentadas, uma fronteira que é a mais estável da Europa, e, em suma, não o dizendo por cortesia — mas é um facto! — Vistos do Norte da Europa, portugueses e espanhóis são praticamente a mesma coisa.
 
O excelente luxemburguês alinha-se assim, a propósito do concentrado de tomate, dos preços do vinho e do pano de algodão, com o pequeno e respeitável grupo dos iberistas que o fazem a propósito de Unamuno e Oliveira Martins — o que para mim é uma notável, se bem que espúria, coincidência.
 
Mas não tem razão.
 
Em primeiro lugar, escapa-lhe a peculiar cosmologia portuguesa para a qual a Terra é composta de a) Portugal, b) Espanha, c) Europa, d) Resto do Mundo e Céu. A Espanha fica entre Portugal e a Europa, portanto. Nem é Europa nem sequer é o Resto do Mundo; é Espanha, simplesmente, começa em Badajoz e acaba nos Preciados.
Em segundo lugar, bastar-lhe-ia morar em Campolide para ter uma visão correcta de certos fenómenos mundiais (tal como Miss Marple tinha, a partir de St. Mary Mead, isto para os amadores de Agatha Christie). Por exemplo, trinta ou quarenta famílias de pessoas da Travessa ou do Beco, que diariamente se zangam, zaragateiam, se reconciliam, se aliam para brigar e zaragatear de novo, e se entreajudam perante os intrusos, são perfeitamente capazes de organizar a festa de arromba, a excursão, o clube. Mas duas famílias que, tendo tido uns certos desaguisados, já longínquos, apenas trocam correctos e frios cumprimentos no patamar da escada em que são vizinhos, nunca, mas mesmo nunca terão impulso para ir a uma jantarada juntas, quanto mais para fazer uma sociedade ou um clube.
 
É elementar.
 
Portanto, uns tipos que periodicamente se deitam austro-húngaros e acordam prussianos, ou de manhã eram alemães e à noite já são franceses, etc., tudo isto sem saírem do sítio (e a Europa está toda feita de casos destes...), acostumam-se. Ao fim de tantos séculos, pertencer a uma coisa dessas, para gente que está farta de ser zollvereinizada ou invadida, desde que o preço da manteiga não suba, tanto faz, como fez.
 
 
Agora nós, que com o passar dos anos até nos esquecemos de que há espanhóis (e as Lolas, Pacas e Conchas com sus madres já não vem animar o Ritz Clube e o Maxime); nós, com uma fronteira sonolenta onde apenas pateticamente uns quantos contrabandistas meritórios tentam um início de união aduaneira luso-espanhola perante e apatia dos guardas-fiscais e «civiles» ocupados a fazer uma sopazinha de peixe no rio para matar o tempo; nós, dizia, fazerem-nos entrar com a espanholada nessa coisa da CEE? Europa! Com os espanhóis?
 
Havia de se ver!