terça-feira, 14 de setembro de 1982

Lisboa lenha e aguarás

Numa entrevista recente, o sr. ten. coronel José Pais, director do Serviço Nacional de Protecção Civil produziu a seguinte afirmação, segundo a Imprensa:
«Os incêndios florestais desde 1975 já causaram mais prejuízos ao país do que o terramoto de Lisboa de 1755».
Certamente esta afirmação destina-se a acentuar dramaticamente a importância dos fogos nas nossas matas.
 
Longe de mim está qualquer ideia de, sob qualquer aspecto, me interrogar sobre a competência e tecnicidade do director do SNPC; e parece-me extremamente sensata a sua opinião de que importa agora mais definir uma estratégia em relação ao conjunto do problema dos fogos florestais do que discutir técnicas — mas mesmo sobre isso não me sinto apto a opinar.
Insurjo-me, isso sim, contra a utilização imprudente de uma comparação vazia de sentido. panflética e de mau gosto, e até um pouco injuriosa para a cidade da barca e dos corvos: a minha cidade.
Como é que é possível comparar o prejuízo de uns quantos quilómetros quadrados de pinhal ardido hoje com o de uma cidade destruída há dois séculos? É pela quantidade de metros cúbicos de lenha queimada? A preços correntes? É pelo número de vidas perdidas (isso então)? É pelo custo de replantação, e pelo custo de reconstrução em função do PNB de cada época? Mas que brincadeira é esta?
Chegaremos à conclusão de que a perda da escultura dos Jerónimos durante as invasões francesas foi menor prejuízo que o da exploração da CP em 1961? Que o prejuízo do mau ano para a azeitona foi maior que a da dissipação das bibliotecas dos colégios de Coimbra no fim do século passado?
Como é que se contabiliza em hectares de pinhal a perda de preciosidades conventuais, de relíquias artísticas, da cidade medieval com a sua peculiar estrutura carregada de significados? Atribuiremos 250 hectares ou 300 hectares de mata queimada, ao valor do Hospiteal de Todos-os-Santos?
 
Há comparações, portanto, que não se fazem, porque são perigosamente privadas de senso. Esta porém, deixa-me algumas interrogações, mas noutro sentido: pergunto a mim mesmo que noção tem a Defesa Civil acerca do património cultural, e se uns contactozinhos com a Secretaria de Estado da Cultura não seriam úteis...
 
 
Não. Não é com bombásticas imagens daquelas que se introduz uma reflexão séria dos problemas das nossas florestas.
O fogo é atroz (e eu sei-o porque quando mais novo e mais apto andei nos bombeiros voluntários, e vi-o de perto muita vez). Inflama também as imaginações, é notícia, causa reais prejuízos e portanto é também facilmente mitificado perante a opinião pública. Mais do que emocionar a consciência pública, porém, importa esclarecê-la.
 
Porque não, sr. tenente-coronel, quantificar antes os prejuízos que, desde dois ou três decénios vêm a ser causados pela floresta em Portugal? Porque não quantificar os fabulosos prejuízos causados pelo pinhal e pelo eucaliptal, cultura de mandriões e absentistas, que tem empobrecido as nossas terras de encosta, expulsando a pastorícia dos cumes e invadindo as vagadas, as terras de agricultura junto à linha de água? Quanto, do nosso défice alimentar (e é sempre citado quando faz arranjo mas nunca quando não convém!...) se deve a que se deixou de produzir comida com esforço, para produzir celulose e terebentina sem esforço? A celulose e a terebentina às vezes ardem aos quilómetros quadrados de cada vez, e então o País é induzido a estremecer de pavor e crer que o seu fim está próximo.
Mas... E se a mesma área de agricultura se perdesse, sornamente, por incúria, por ignorância, pela erosão, pelo abandono; — alguém clamava, alguém mobilizava meios técnicos evoluídos e aparatosos, a TV ia lá filmar?
 
Ora vamos lá! Vamos lá a ter o sentido das coisas, e um certo decoro, pelo menos.
E sobretudo, nenhuns milhares de toneladas de celulose para pasta de papel e resina para os plásticos multinacionais, valerão mais do que o Paço da Ribeira, a Casa da judia e a Rua dos Ferros…
Nem menos. Os valores são outros, sr. tenente-coronel!