Numa entrevista recente, o sr.
ten. coronel José Pais, director do Serviço Nacional de Protecção Civil
produziu a seguinte afirmação, segundo a Imprensa:
«Os incêndios florestais desde
1975 já causaram mais prejuízos ao país do que o terramoto de Lisboa de 1755».
Certamente esta afirmação
destina-se a acentuar dramaticamente a importância dos fogos nas nossas matas.
Longe de mim está qualquer ideia
de, sob qualquer aspecto, me interrogar sobre a competência e tecnicidade do
director do SNPC; e parece-me extremamente sensata a sua opinião de que importa
agora mais definir uma estratégia em relação ao conjunto do problema dos fogos
florestais do que discutir técnicas — mas mesmo sobre isso não me sinto apto a
opinar.
Insurjo-me, isso sim, contra a
utilização imprudente de uma comparação vazia de sentido. panflética e de mau
gosto, e até um pouco injuriosa para a cidade da barca e dos corvos: a minha
cidade.
Como é que é possível comparar o
prejuízo de uns quantos quilómetros quadrados de pinhal ardido hoje com o de
uma cidade destruída há dois séculos? É pela quantidade de metros cúbicos de
lenha queimada? A preços correntes? É pelo número de vidas perdidas (isso
então)? É pelo custo de replantação, e pelo custo de reconstrução em função do
PNB de cada época? Mas que brincadeira é esta?
Chegaremos à conclusão de que a
perda da escultura dos Jerónimos durante as invasões francesas foi menor prejuízo
que o da exploração da CP em 1961? Que o prejuízo do mau ano para a azeitona
foi maior que a da dissipação das bibliotecas dos colégios de Coimbra no fim do
século passado?
Como é que se contabiliza em
hectares de pinhal a perda de preciosidades conventuais, de relíquias artísticas,
da cidade medieval com a sua peculiar estrutura carregada de significados?
Atribuiremos 250 hectares ou 300 hectares de mata queimada, ao valor do
Hospiteal de Todos-os-Santos?
Há comparações, portanto, que não
se fazem, porque são perigosamente privadas de senso. Esta porém, deixa-me
algumas interrogações, mas noutro sentido: pergunto a mim mesmo que noção tem a
Defesa Civil acerca do património cultural, e se uns contactozinhos com a
Secretaria de Estado da Cultura não seriam úteis...
Não. Não é com bombásticas
imagens daquelas que se introduz uma reflexão séria dos problemas das nossas
florestas.
O fogo é atroz (e eu sei-o porque
quando mais novo e mais apto andei nos bombeiros voluntários, e vi-o de perto
muita vez). Inflama também as imaginações, é notícia, causa reais prejuízos e
portanto é também facilmente mitificado perante a opinião pública. Mais do que
emocionar a consciência pública, porém, importa esclarecê-la.
Porque não, sr. tenente-coronel,
quantificar antes os prejuízos que, desde dois ou três decénios vêm a ser
causados pela floresta em Portugal? Porque não quantificar os fabulosos
prejuízos causados pelo pinhal e pelo eucaliptal, cultura de mandriões e
absentistas, que tem empobrecido as nossas terras de encosta, expulsando a
pastorícia dos cumes e invadindo as vagadas, as terras de agricultura junto à
linha de água? Quanto, do nosso défice alimentar (e é sempre citado quando faz
arranjo mas nunca quando não convém!...) se deve a que se deixou de produzir
comida com esforço, para produzir celulose e terebentina sem esforço? A
celulose e a terebentina às vezes ardem aos quilómetros quadrados de cada vez,
e então o País é induzido a estremecer de pavor e crer que o seu fim está
próximo.
Mas... E se a mesma área de
agricultura se perdesse, sornamente, por incúria, por ignorância, pela erosão,
pelo abandono; — alguém clamava, alguém mobilizava meios técnicos evoluídos e
aparatosos, a TV ia lá filmar?
Ora vamos lá! Vamos lá a ter o
sentido das coisas, e um certo decoro, pelo menos.
E sobretudo, nenhuns milhares de
toneladas de celulose para pasta de papel e resina para os plásticos
multinacionais, valerão mais do que o Paço da Ribeira, a Casa da judia e a Rua
dos Ferros…
Nem menos. Os valores são outros,
sr. tenente-coronel!

