terça-feira, 31 de agosto de 1982

É fartar, vilanagem! (de certos limites, claro!)

A observação do que acontece com a condução da política de gestão urbana no Concelho de Lisboa pela actual maioria conservadora na CML mostra inegavelmente a coerência com que é cumprida a substância do seu programa (e isto não constitui, para mim, um total elogio, como se compreende com certeza muito bem...). Inquietante coerência, porém, a que resulta da busca incrítica e instintiva de implementação de princípios mal formulados e até talvez incompreendidos, mas cuja implementação, exactamente porque é tosca e primária, virá a revelar as tremendas contradições que comporta. Em si mesmo isso não seria mais do que justo, se os reais sofredores e futuras “vítimas” das consequências fossem os autores da acção, ou pelo menos aqueles tivessem acesso racional à avaliação dessas consequências.
Não é muito prudente dar ao primeiro vereador do Colégio Municipal da CML indicações precisas acerca do significado do que ele faz - porque o que ele faz, faz mesmo, com ou sem justificação - e se apanhar alguma ideiazita à solta, usá-la-á para fazer as vezes das que não tem (nem tem tempo para as ter...).
Ora o facto é que os conservadores portugueses (e infelizmente é necessário reconhecer também que grande maioria dos progressistas portugueses...) guiam-se pelo que se faz e pensa lá fora. Para os nossos conservadores, Thatcher e Reagan são agora «os maiores», os mestres.
Vem isto e propósito da recente invenção dos Tories britânicos, que agora o presidente Reagan com comovedor entusiasmo adoptou, da criação das chamadas «Enterprise Zones» - (vou até ao ponto de fornecer uma pista ao nosso Mayor alfacinha: veja a «Mensagem presidencial sobre o estado da União» de 26 de Janeiro, e a subsequente proposta legislativa «Enterprise Zone Tax Act». O gabinete da presidência que peça junto da Embaixada dos EUA).
Em resumo e em esquema para os leitores, trata-se de libertar o interior degradado de certas cidades, de limitações legais de planeamento e fiscalidade, deixando-as à simples capacidade local de autogoverno e pronto, vale tudo! Espera-se assim revitalizar e animar aquelas zonas, fazendo-as florescer na diversidade criativa do quente caldo de cultura urbana onde vale tudo, ao estilo de Taiwan ou de Hong-Kong. Dentro daqueles perímetros vale tudo, é a macacada à solta, é fartar vilanagem, cada um saque o mais que puder. O paraíso do pato-bravo e do golpista. A economia de mercado em estado puro.
Muito haveria, há, e haverá a dizer acerca deste programa, da invocação que se faz do nome de Jane Jacobs no meio deste mixarofada toda, da participação de Peter Hall na génese desta ideia, e das consequências de aventuras destas isoladas do enquadramento nacional. Mais algumas ideias potencialmente importantes e mais algumas coberturas, como de costume, dadas pelos intelectuais afastados das realidades, irão na voragem do descalabro da «reagenomics», queimadas como últimos cartuchos...
 
Ora bem: o que são as nossas periferias metropolitanas senão o produto da bagunça, do vale-tudo, do antiplano, da golpada?
Agora, que os municípios periféricos tentam (sem o conseguir totalmente, apesar do que dizem) pôr alguma ordem, algum travão à libertinagem da clandestinidade e da corrupção, é que no Município de Lisboa se abre praticamente o «free-for-all» à construção civil especulativa, à substituição apressada de um stock de edificação urbana a que se retiraram os incentivos de conservação. Numa lógica semelhante à que a inefável Heritage Foundation ensinou apressadamente ao presidente Reagan, coitado, para lançar as «Enterprise Zones», Lisboa está a caminho, de se tornar uma grande, turva, escura, mórbida «Enterprise Zone» para as grandes imobiliárias - mas sem ter sequer o álibi sociológico e microeconómico daqueles programas.
(E não será, certamente o grande conjunto minuciosamente planeado e programado para concurso por grandes empresas, no Martim Moniz, que se irá afirmar como uma zona de liberdade, criatividade auto-regulação e fecunda surpresa aleatória - ou ir-se-á até ao descoco de o afirmar, ainda por cima? Só falta já isso!... )
Mas sobretudo, se alguém - não importa quem! - da maioria conservadora, municipal ou estatal, embarcar na tentação de levar tão frontalmente às suas consequências o seu liberalismo como o faz o seu mentor,  Mr. Reagan, e formalizar expressamente, por palavras, o que de facto se está a verificar na grande «Enterprise Zone» lisboeta, então, tenha o pudor mínimo exigível de nunca, mas nunca, pela palavra nunca, em circunstância nenhuma, vir falar em planeamento regional, regionalização e correcção das assimetrias territoriais.
 
Há limites para tudo.