O Investimento está parado. As taxas de Juro mantêm-se altíssimas e
inviabilizam o recurso ao crédito, a inflação mede-se pelo linguado que se
vendia na terça-feira em Cascais a 1150$00 o quilo, as remessas dos emigrantes
diminuem e o crescimento do PNB mantém-se a índices de «recessão».
Do editorial do «TEMPO», de N.R., de 12 de Agosto 1982
Os modos usuais de medir a
inflação, isto é, pela comparação dos índices de preços no consumidor em dois
meses homólogos de anos subsequentes; das médias anuais em anos subsequentes;
da média anual da variação e da variação mensal, para além de outros meios
obsoletos tais como a variação dos meios de pagamento, das notas em circulação
e outras parvoíces do género, estão ultrapassados. Sabe-se bem ao que conduzem,
e as imprecisões conceptuais que se introduzem no discurso económico pelo uso
desses conceitos ambíguos.
Ora, é bom que se saiba que o
linguado vendido em Cascais é a forma correcta de medir a inflação em Portugal.
Na Noruega mede-se a inflação
pelo preço do linguado vendido em Stavanger, e não escapa a ninguém o
significado da redução ocorrida na passada semana, do peso do dólar na paridade
da coroa norueguesa em presença das moedas fortes europeias (marco, franco
suíço). A inflação na Noruega, perante as condições assim melhoradas quanto ao
comércio com a CEE, poderá talvez manter-se ao nível das 95 coroas norueguesas
por quilo de linguado em Stavanger, perfeitamente aceitável portanto segundo as
recomendações do FMI.
A Itália, com a crise precipitada
pela queda do governo Spadolini e a intransigência do PSI, experimenta neste
momento uma inflação aflitiva, da ordem mesmo das 25 500 liras por quilo de
linguado em Livorno, o que está muito acima da média da CEE.
Como se sabe, a inflação na CEE
mede-se pelo preço do quilo de Euro-linguado, que é a média dos preços do quilo
de linguado em Hull, Roterdão, St. Malo, Anvers, Bremen e Pireu.
Entre nós é perfeitamente
aceitável que o Banco de Portugal continue a fornecer os dados relativos ao crescimento
do PNB (um desastre!), às remessas dos emigrantes, ao crédito (pouco)
concedido, e até está bem que continue a participar na fixação da taxa de desconto,
na cobertura do crédito bancário e na emissão de moeda e tudo isso. São coisas
relacionadas com o prime-rate da banca internacional, com a variação do
Euro-dólar, do ouro, do pitroline e dessa coisata toda que eles lá sabem. E
divisas e comércio externo e tudo.
Agora, inflação mesmo, em rigor,
é coisa que só deve ser confirmada pela Junta Nacional das Pescas.
E são de contrariar firmemente
certas tendências, de inspiração conhecida mas mais que suspeita, para medira
inflação pelo preço do quilo de goraz em Matosinhos. A gente sabe bem ao que
eles querem chegar. A gente sabe.

