segunda-feira, 23 de agosto de 1982

Linguado índice

O Investimento está parado. As taxas de Juro mantêm-se altíssimas e inviabilizam o recurso ao crédito, a inflação mede-se pelo linguado que se vendia na terça-feira em Cascais a 1150$00 o quilo, as remessas dos emigrantes diminuem e o crescimento do PNB mantém-se a índices de «recessão».
Do editorial do «TEMPO», de N.R., de 12 de Agosto 1982
 
Os modos usuais de medir a inflação, isto é, pela comparação dos índices de preços no consumidor em dois meses homólogos de anos subsequentes; das médias anuais em anos subsequentes; da média anual da variação e da variação mensal, para além de outros meios obsoletos tais como a variação dos meios de pagamento, das notas em circulação e outras parvoíces do género, estão ultrapassados. Sabe-se bem ao que conduzem, e as imprecisões conceptuais que se introduzem no discurso económico pelo uso desses conceitos ambíguos.
Ora, é bom que se saiba que o linguado vendido em Cascais é a forma correcta de medir a inflação em Portugal.
 
 
Na Noruega mede-se a inflação pelo preço do linguado vendido em Stavanger, e não escapa a ninguém o significado da redução ocorrida na passada semana, do peso do dólar na paridade da coroa norueguesa em presença das moedas fortes europeias (marco, franco suíço). A inflação na Noruega, perante as condições assim melhoradas quanto ao comércio com a CEE, poderá talvez manter-se ao nível das 95 coroas norueguesas por quilo de linguado em Stavanger, perfeitamente aceitável portanto segundo as recomendações do FMI.
 
A Itália, com a crise precipitada pela queda do governo Spadolini e a intransigência do PSI, experimenta neste momento uma inflação aflitiva, da ordem mesmo das 25 500 liras por quilo de linguado em Livorno, o que está muito acima da média da CEE.
 
Como se sabe, a inflação na CEE mede-se pelo preço do quilo de Euro-linguado, que é a média dos preços do quilo de linguado em Hull, Roterdão, St. Malo, Anvers, Bremen e Pireu.
 
Entre nós é perfeitamente aceitável que o Banco de Portugal continue a fornecer os dados relativos ao crescimento do PNB (um desastre!), às remessas dos emigrantes, ao crédito (pouco) concedido, e até está bem que continue a participar na fixação da taxa de desconto, na cobertura do crédito bancário e na emissão de moeda e tudo isso. São coisas relacionadas com o prime-rate da banca internacional, com a variação do Euro-dólar, do ouro, do pitroline e dessa coisata toda que eles lá sabem. E divisas e comércio externo e tudo.
 
Agora, inflação mesmo, em rigor, é coisa que só deve ser confirmada pela Junta Nacional das Pescas.
E são de contrariar firmemente certas tendências, de inspiração conhecida mas mais que suspeita, para medira inflação pelo preço do quilo de goraz em Matosinhos. A gente sabe bem ao que eles querem chegar. A gente sabe.