quinta-feira, 19 de agosto de 1982

Adeus Fernão Mendes Pinto

Já andava a ameaçar, há algum tempo. Tratando de assuntos com advogados, poupando dinheiro, impaciente, enervado, misterioso. Deixou de beber. Desconfio, que não verei tão cedo ou nunca mais, a sua cabeleira toda branca e os olhos marotos piscando por trás de grossas lentes.
Agora, sem dar cavaco a ninguém, de repente, zarpou.
Ora, quem comprou há pouco tempo uma grande mala de camarote e dois sacos de viagem, não vai com certeza para as Caldas da Rainha a férias.
E com ele desapareceu o meu potencialmente grande livro de aventuras, que, de gravador em punho, eu haveria de lhe extrair, aos poucos.
Reformado da tropa, no Oriente — muito bem, nada de extraordinário, há muitos. Mas então porque é que tinha também uma reforma do exército inglês? Às cidades e rios do interior da China, qualquer pessoa poderia estudá-las no mapa, é certo! E ter conhecido, se bem que de raspão, o presidente Mao (o «gajo das bochechas») quando ainda lutava contra o Kuomitang, poderia ser ou não verdade, e não poderei confirmá-lo. A morte do primeiro japonês fez-lhe muita impressão e vomitou. Diz que os seguintes já não. É possível que sim ou que não; mas o que é que andou a aprender num certo campo do Texas, e por conta de quem? Não foi com certeza arranjos de flores...
«Mas nunca fui um mercenário» afirmava sempre com clareza.
Esteve ou não esteve nas filas de trás da formatura do convés do «Missouri», quando foi assinada a rendição do Japão? Pode ter estado, ou não. Como confirmá-lo agora?
De qualquer modo, quando apertado com insistência nunca se esquivava a fornecer pormenores, plausíveis, salvo os que se relacionassem com pessoas ou acções do exército ou da marinha portuguesa. Se de estas forças ele sabia algum segredo que devesse ser guardado, guardou-o certamente muito bem. De resto, foi julgado e absolvido por um tribunal militar de cá.
Mas quem conheceu a aventura nas planícies de Loesse do Yang-Tsé, e a Africa não é pessoa para esperar pela morte em Campolide, à porta da taberna ou do snack-bar à frente da paragem do 15, reformado, chateado, com um único filho já homem maduro e uma mulher com vida profissional activa e pouca paciência para o aturar. A família já não o prendia, nem precisava dele. Esta Lisboa da barca e dos corvos já pouco lhe dizia também e a colecção de cactos não é coisa que encha a vida de um homem.
Desculpe, Z.M., se ainda está aí alapardado por algum quartinho ao pé do porto, à espera de algum barco já combinado, algum vapor de cabotagem que vá para os lados de Port-Said, para o Índico, e a gente não ter de saber disso!
 
 
Portanto, se alguém vir um senhor magro de cabelo branco e chapéu de palha, perto dos cais, com um brilhozinho nos olhos à procura de um navio, não o interpele, não o interrompa! Vai ali o meu livro frustrado, vai ali, e vai para onde deve ir— vai atras do sonho que só pode ser sonhado por cada um, uma vez...
 
«...Regardez-les  passer, eux, ce sont les sauvages
Et sont ou leur désir le veut par dessus monts
Et bois et mers, et loin des esclavages
L'air qu'ils boient ferait éclater vous poumons...»
Jean Richepin («Les oiseaux de passage»)